Viver em condomínio: como melhorar a convivência

É possível transformar e melhorar a convivência com os vizinhos em um condomínio. Saiba como

Edição 0030

Melhorar a convivência no condomínio não depende apenas do síndico
Foto: Reprodução/ Vida Simples

Quem compra um apartamento também paga pelas áreas livres, o jardim, a piscina, a churrasqueira e o parquinho, mas poucos se consideram donos dessas áreas e a maioria perde a chance de enxergar aquilo como um quarto ou um quintal que pode, sim, ser aproveitado de acordo com a vontade dos moradores. "As pessoas que moram num prédio têm realidades e personalidades muito diferentes e nem todos concordam com as mesmas coisas. Por esse motivo as áreas comuns são mal utilizadas", afirma o professor de história da arquitetura da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo da USP, Carlos Alberto Cerqueira Lemos.

O resultado é que as decisões acabam na mão do síndico. Certo, ele foi eleito pela maioria, mas isso não quer dizer que tenham que sair dele todas as idéias e iniciativas para tornar a vida melhor. Mesmo porque as vontades que vão dar frutos às melhores idéias moram na cabeça de cada morador, e só vão virar realidade se forem apresentadas aos outros. Participação, portanto, é fundamental.

A videomaker Irlândia Fonseca, por exemplo, mora num condomínio em que não havia sala de ginástica. Ela não pensou duas vezes para mobilizar alguns moradores a fim de criar o projeto para uma academia. Depois de conseguir permissão para usar uma sala desativada, o grupo implantou a coleta seletiva de lixo entre os condôminos dos mais de 280 apartamentos e, com o dinheiro da venda do material, montou a sala de ginástica, com equipamentos de segunda mão.

Encampe boas idéias

Se os exemplos anteriores fizeram brotar boas idéias de como usar aquela sala ou aquele espaço que está abandonado no seu prédio, a primeira dica é: identifique o que pode ser feito, bem como sua utilidade e viabilidade. O passo seguinte é despertar o interesse dos outros moradores para sua idéia. Se ela for boa mesmo, pode ter certeza de que o apoio será imediato.

A terapeuta corporal Ilana Kuschnir só percebeu a necessidade de revitalizar o parquinho do prédio em que ela vive, no bairro paulistano de Perdizes, depois que sua filha nasceu. Conversando com vizinhos, Ilana descobriu que um terço deles tinha filhos pequenos, mas quase ninguém usava o playground porque ele estava mal cuidado. Então ela fez a cotação de novos brinquedos e apresentou a idéia de compra para os moradores. "Coletei assinaturas de apoio e levei para o síndico a sugestão, que foi aprovada.Hoje temos um parquinho ao ar livre e uma sala com brinquedos para os dias de frio ou chuva", conta.

Parece pouco, mas com essa iniciativa simples a vida no prédio, acredite, mudou. As crianças passaram a ter espaço e liberdade e brincam como se morassem em uma vila ou rua bem tranquila e estreitaram ainda mais as amizades. De quebra, os pais se conheceram melhor e alguns até se tornaram amigos. Ilana, que até então praticamente não conhecia ninguém no edifício, hoje conhece quase todo mundo. E seu poder de comunicação com a comunidade é tão grande que já foi escalada para coordenar a implantação da coleta seletiva de lixo.

Usando Ilana como exemplo, compreende-se que o passo número 2 para uma boa idéia dar certo é definir um líder para comandar o barco. Não um líder centralizador e despótico, mas uma pessoa que abrace uma tarefa e a leve até o fim, com muita determinação.

Que tal mudar?

Não temer mudanças é o terceiro item para quem deseja participar ativamente da vida do condomínio. Olhe para os espaços de lazer e áreas comuns do seu prédio. Tudo funciona e é usado pelas pessoas? Ou tem uma sala abandonada ou sendo mal utilizada? O que pode ser feito para esse espaço ser usufruído? Fazer essas perguntas e procurar respostas junto com seus vizinhos pode resultar em grandes idéias. O importante é não ter medo de mudar o padrão e acreditar na mudança.

No prédio em que a dentista Christiane Sader Neves Ferreira mora, todos apoiaram quando ela, que é síndica, sugeriu a criação de uma brinquedoteca em substituição ao salão de jogos que ninguém usava. "Os vizinhos doaram brinquedos e fantasias e os comerciantes do bairro patrocinaram a compra de mesas, cadeiras e outros móveis. Negociei com a operadora de TV a cabo a doação de um televisor e de um ponto para a transmissão dos programas", diz Christiane, que levou tão a sério o encargo que implantou o sistema de autogestão no prédio.

"Tentei duas novas administradoras e elas não funcionaram. Então resolvi administrar sozinha e está dando certo", afirma.

Na base da confiança

Partir para soluções mais radicais como a autogestão é conquistar a confiança dos moradores - pelos menos da maioria. E ganhar essa confiança é resultado de uma postura firme e segura. Uma boa idéia é sempre bem apoiada desde que esteja com o foco bem definido.

Para levar à reunião

. A área de lazer: Criança precisa de espaço para brincar e correr. Tem lugar para isso no prédio? Não é o caso de aposentar os brinquedos velhos do parquinho e dar espaço para as crianças usarem a imaginação?

. O parquinho: Na hora de substituir os brinquedos do playground, procure outros que sejam fáceis de conservar e de pouca manutenção;

. A sala sem uso: O salão de jogos pode virar um espaço multiuso, para aulas de artesanato de adultos e crianças, como brinquedoteca e sala de TV. Tudo depende de criatividade para dispor os móveis e guardar os objetos de uso comum;

. Biblioteca: É possível montar uma biblioteca e gibiteca com livros e revistas doados pelos moradores;

. Cobertura: Um toldo retrátil pode ampliar o espaço do salão em dia de festa. No verão, pode fazer sombra para a criançada brincar;

. Personal trainer: que tal contratar um personal trainer, um professor de ioga, tai chi ou meditação? Até quem nunca se mexeu vai querer participar;

. Jardim: Se o condomínio tem área verde, por que não fazer uma horta ou canteiros de temperos? O condomínio pode pagar o curso a quem for cuidar das plantinhas;

. Organização: Fazer coleta seletiva e vender o lixo reciclável pode render dinheiro para manutenção, compra de ferramentas e outras necessidades do condomínio.