O que aprendi com as mulheres muçulmanas

Algumas de véu, outras de cabelo descoberto, algumas religiosas, outras não. Com todas elas, aprendi um pouco mais sobre tolerância e respeito.

POR Marília Moschkovich

Edição 128

Ilustrações: Camila do Rosário

 

Era o ano de 2005. Aos 18 anos, eu partia para minha primeira viagem internacional. O destino era Hammammet, uma cidade no litoral da Tunísia, para onde estava indo como parte da delegação brasileira de jovens de um evento. A primeira dúvida foi se eu, como estrangeira, deveria usar véu ou alguma vestimenta muçulmana nas ruas. Imaginei as mulheres de niqab e burqa na praia (as vestimentas que mais cobrem o corpo; veja nas páginas 50 e 51). Na minha cabeça, Tunísia, Afeganistão e qualquer país muçulmano tinham culturas e regras parecidas, sendo árabes ou não.
Pesquisei e descobri que a Tunísia é considerada um dos países muçulmanos mais "ocidentalizados" em relação a sua cultura. Eu não precisaria usar nenhum véu no calor de 40°C, e apenas uma parte pequena da população feminina de fato usava niqabs ou burqas. Fiquei mais tranquila.
Chegando lá, o calor era extremo. Os tais 40 graus referiam-se à sombra. E eu me peguei num incômodo enorme em relação às jovens mulheres que conheci. Todas elas, embora não usassem nem mesmo hijabs (o véu que cobre apenas o cabelo; veja ao lado), vestiam saias longas, com calças compridas por baixo, sapatos fechados com meia e blusas de mangas compridas. Meu espírito feminista não se conformava. Como era possível alguém sentir-se mais confortável daquela forma, naquele clima, do que como eu estava, de short, camiseta e chinelos? Desconfiei que aquelas jovens que eu conhecia eram obrigadas ou pressionadas a usar as tais roupas por alguém ou alguma instituição. Perguntei. Não. Elas podiam escolher se usavam aquelas roupas ou roupas "ocidentais", mais abertas. Tampouco eram ortodoxas, "radicais". Nada disso. Enfim, num momento mais discreto, perguntei a uma delas se ela não sentia calor, se não preferia usar roupas mais frescas. O diálogo que se seguiu foi um dos maiores aprendizados da minha vida.
"Sim, tenho calor. Roupas frescas poderiam até ser uma boa", disse ela. E perguntou se eu me depilava. Respondi que sim, que é esse o costume em meu país. "Se não me depilar, vou me sentir estranha, suja; não vou me sentir atraente", falei. Então ela disse: "Exato. É exatamente assim que me sinto em relação a essas roupas."
Meu queixo caiu. Esse curto diálogo me mostrou o quanto eu estava sendo arrogante ao considerar que minha opção era necessariamente mais livre e mais esclarecida do que aquela feita pelas muçulmanas (mais tarde, essa lição me ajudaria também a entender as cristãs e judias ortodoxas). De quebra, me ajudou a ver que mesmo as minhas escolhas não eram assim tão livres e esclarecidas quanto eu imaginava. Nenhuma escolha é.
Preconceitos repetidos
Em outros eventos internacionais e, mais tarde, visitando também a Turquia, tive a oportunidade de conviver com várias outras mulheres muçulmanas. Çigdem, Aïda, Renata, Amália, Grim, Zarnigar. Ouvir o que elas têm a dizer foi a segunda lição.
Escutando, pude perceber uma série de preconceitos que, sem notar, sustentamos e reproduzimos sobre sua existência. Para começar, os países muçulmanos não são homogêneos; eles têm regras e legislações muito diferentes entre si. Diferentemente da Tunísia, que é mais tranquila nesse sentido, no Afeganistão, sob o regime Talibã, ou no Irã, sob a ditadura, há códigos de vestimenta estritos para mulheres, que devem usar a burqa, no primeiro país, e cobrir-se no mínimo com hijab, no segundo. Nesses países, também os homens precisam vestir trajes específicos - e até turbantes, dependendo de sua posição social -, além de deixar as barbas longas.
Com nomes que bem poderiam ser brasileiros, Renata Fauzia e Amália Izzati nasceram na Indonésia, país com a maior população muçulmana do mundo, ultrapassando os 200 milhões. Renata, que é urbanista, mora na Coreia do Sul, onde faz pós-graduação. Amália hoje mora em Oslo, Noruega, onde cursa uma pós-graduação em direito da tecnologia da informação. Renata usa o véu, mais especificamente o al-amira. "Eu uso o véu pois é obrigatório que as mulheres muçulmanas cubram toda sua pele, exceto o rosto e as mãos, em público. A ideia é nos protegermos do assédio sexual masculino", conta. Amália, apesar de ter uma formação ortodoxa, assim como Renata, não usa o véu. "Eu sei que deveria usar o véu, em tese, e cobrir minha cabeça e meu corpo, mas uma parte do meu coração simplesmente não conseguia aceitar algo que eu não queria fazer", diz.
A jornalista Grim Shady, que vive em Dhakha, Bangladesh, seu país natal, usa um shayla diariamente. Seus argumentos para usá-lo não são nada tradicionais. "Cobrir-me é muito libertador no louco mundo da moda de hoje. No fim das contas, a moda é um negócio. As mulheres são o alvo dessa indústria, que quer fazê-las comprar mais e mais roupas, sapatos, bolsas, maquiagens, acessórios. Se você consegue sair desse esquema, não sente mais o fardo. É muito libertador para mim não ter de me preocupar se meu cabelo está bonito, se estou na moda da estação. Tenho meu próprio jeito de ficar bonita. Minha autoconfiança é suficiente para eu me sentir completa como ser humano", afirma.
Çigdem Seftalioglu, que nasceu e vive em Istambul, depois de ter feito pós-graduação em administração na Itália, resume essas diferenças. "Há duas interpretações do Islã sobre isso: uma diz que, se você acredita no Islã, deve usar o véu. A outra diz que é uma escolha inteiramente sua", diz. "Minha interpretação é de que se trata de uma questão essencialmente política. Em alguns países, as mulheres usam o véu porque são obrigadas por lei. Na Turquia, é uma decisão pessoal. Por isso aqui vemos muitas mulheres tanto com quanto sem o véu." Çigdem é uma muçulmana não praticante, assim como no Brasil conhecemos católicos não-praticantes. Isso significa que a pessoa tem uma formação com base religiosa, mas não pratica a religião e seus rituais, como o uso do véu ou o jejum no Ramadã.
Jejum e sexo
Jejuar no Ramadã também é uma prática com diferentes interpretações. As indonésias Renata e Amália fazem jejum ¿ e enxergam um sentido nessa atitude. "É uma prática que estimula o autocontrole", diz Renata. Aïda Merabet, que é algeriana e terminou seu MBA em administração recentemente, escolhe a cada Ramadã se vai jejuar ou não. Ela também não usa o véu nem nenhuma vestimenta ortodoxa, mas se considera uma muçulmana praticante. "O jejum tem um propósito, e eu acho que posso avaliar se preciso dessa experiência a cada Ramadã, em vez de simplesmente jejuar por hábito", conta. Çigdem simplesmente não jejua. Já Zarnigar Khwaja, estudante paquistanesa da Harvard School of Business e muçulmana não praticante, como Çigdem, gosta da prática do jejum. "Gostaria de jejuar mais. É uma ótima prática de autocontrole e para aprender a lidar com nossos desejos materiais. O motivo pelo qual não o faço é pessoal, uma escolha, mas sei que não necessariamente é a melhor para o desenvolvimento do meu caráter", diz.
O único ponto em que todas parecem concordar é o sexo. "A virgindade é algo importante para a comunidade muçulmana", diz Çigdem. Grim explica o sentido dessa importância: "Para as mulheres muçulmanas, o corpo não é a primeira coisa em jogo quando buscamos um companheiro. A personalidade é mais importante para encontrarmos um parceiro para a vida." Renata conta ainda que, para as mulheres de culturas mais ortodoxas, mesmo namoros, beijos e outros tipos de contato físico estão proibidos antes do casamento: "A maioria das minhas amigas ortodoxas se casa sem namorar. Minha vida amorosa, pelo contrário, é muito parecida com a de uma mulher não muçulmana, exceto pela falta de atividade sexual", diz. Estas são apenas algumas mulheresmuçulmanas, claro, e pode haver outras que discordem disso.
Aos poucos, convivendo com essas mulheres, descobri que o Islã é como qualquer outra religião. Sua prática depende de interpretações subjetivas, que estão ligadas a outros aspectos de diferentes culturas ao redor do mundo. Ser muçulmana significa coisas diferentes para cada uma delas, em termos de suas práticas cotidianas e, claro, nos termos da legislação do país onde vivem. "Infelizmente, quando se fala em 'mulher muçulmana' os ocidentais imediatamente imaginam uma mulher afegã usando a burqa. Recomendo que olhem as imagens das mulheres afegãs que viviam há 50 ou 60 anos. Elas eram exatamente como as ocidentais e já eram muçulmanas naquela época. Elas usam a burqa agora porque vivem sob o regime Talibã, que é extremista. Não é um problema do Islã, da religião muçulmana, mas do extremismo de alguns grupos", diz Çigdem.

Ao contrário do que se pode imaginar, apenas uma minoria das mulheresmuçulmanas usa os véus mais conservadores e tradicionais, que cobrem mais o corpo. Conheça alguns desses modelos:

Khimar
A vestimenta deixa o rosto livre, mas cobre toda a cabeça, o pescoço e os ombros, em geral estendendo-se até o fim dos braços ou a cintura

Niqab
Feito de tecido escuro, cobre integralmente a cabeça e o corpo, mostrando apenas os olhos ou, em alguns casos, metade do nariz

Burqa
Cobre a mulher por completo e possui telas para permitir a visão. Obrigatória apenas no Afeganistão e em partes do Paquistão