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Lugar de repouso

Invenção dos índios da América, a rede relaxa o corpo, acalma a mente e ainda ajuda a pensar na vida

por Eduardo Petta

“Quer coisa melhor?” A frase poderia ser minha, sua, de milhões de seres humanos, mas é quase um mantra repetido por meu cunhado Guilherme quando desce a serra para me visitar no litoral. Ela vem à tona minutos após ele chegar e se jogar na rede da varanda, onde passa horas balançando, numa preguiça fenomenal. “Se deixar, eu passo o fim de semana inteiro aqui”, diz Guilherme.

Instantes depois de se deitar, curvado levemente como se fosse um feto, livre de suas tarefas terrenas, Guilherme pode enfi m se entregar ao prazer. “A rede cria o espaço do sono. Ela suspende o indivíduo, aproxima-o do espaço celeste. Numa rede está o contrário do fazer: o não-fazer”, filosofa Guilherme, que também sempre promete a mesma coisa: “Um dia ainda coloco uma dessas no meu apartamento lá em São Paulo. Mas falta espaço, tempo, varanda...”

Rede armada em uma cidade grande como São Paulo é coisa rara mesmo. Mas em todo Norte e Nordeste do Brasil a rede é tradição para pôr ao lado de samba, cafezinho e futebol. Significa o assento para o jantar, o encosto para a sesta, o abrigo para o sono. “A rede nos acompanha desde o primeiro ao último dia – é berço, leito nupcial, é cama de enfermo, é caixão de morto”, escreveu a escritora cearense Rachel de Queiroz.

No Brasil de outrora, dormir em cama era coisa de gente chique. Era o sonho de luxo de Sinhá Vitória, a mulher de Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O povo brasileiro só dormia em rede. Nela viveram os grandes guerreiros tupinambás, roncaram os jagunços de Antônio Conselheiro, de Canudos, os cangaceiros aperreados de Lampião. E ainda hoje a rede acolhe a brava gente sertaneja.

“Mãe véia, mãe véia”, chamavam-na os viajantes dos séculos passados, ao sentirem a falta do afeto do abraço da rede, comparado ao colo de mãe, ao deparar com a cama dos hotéis sem apoio nas paredes para suas redes. Muitos não admitiam outra maneira de dormir. Outros ainda não admitem. Dá para imaginar uma viagem pelos rios da Amazônia sem as redes penduradas nos barcos gaiolas? E uma pousadinha no Nordeste sem ela para balançar na varanda? Pois foi na rede que boa parte da cultura brasileira foi forjada: as canções de Dorival Caymmi, os romances de Jorge Amado.

Benção no ar

Foi justamente sobre as redes de dormir que um senhorzinho de Natal resolveu, nos anos 1950, escrever sobre o artefato. Câmara Cascudo, o maior folclorista brasileiro, descobriu, entre outras coisas, a origem da danada. “Um leito suspenso não aparece em paragem alguma deste mundo antes que Cristóvão Colombo pisasse a areia de Guananaí e Pedro Álvares Cabral a praia brasileira de Porto Seguro”, escreveu Cascudo em seu livro Rede de Dormir – Uma Pesquisa Etnográfi ca. Segundo Cascudo, na África e na Ásia “dormia-se em esteiras de palha ou peles de animais”. Foi só na América que os europeus encontraram os homens balançando sobre as redes.

Quem primeiro a chamou assim foi Pero Vaz de Caminha, em abril de 1500, em carta ao rei de Portugal descrevendo a maneira de viver do povo tupiniquim. Seu nome de origem, ini, só viria ao papel anos mais tarde, pelos relatos de estrangeiros como o escritor Hans Staden e do francês Jean de Lery, que dormiu em seu primeiro dia de Brasil, em 1557, numa rede à moda da América, “suspenso no ar”.

Pois os europeus logo caíram de amores pela rede. Afinal, não havia nada melhor para levar na sacola, junto com a farinha de mandioca, para desbravar aquela terra virgem. Nela dormiram e trabalharam viajantes naturalistas dos séculos 19 e 20. Numa época em que se viajava sertão afora em carros de boi, a leveza das redes era uma bênção.

Mais que uma bênção, ela era realmente essencial para nossos ancestrais. O indígena criou a rede para elevar-se do solo e assim proteger-se dos insetos e de outros animais rastejantes. Dessa maneira dormiam mais protegidos, além de evitar a umidade da mata diretamente no corpo.

No século 16, a rede estava difundida em quase todas as aldeias do Brasil. Sua forma era mais rústica, trançada apenas com grandes malhas, parecidas com as de pesca. Só ganhariam os luxos e balangandãs de hoje com a chegada das portuguesas, que lhes aperfeiçoaram a técnica com a renda dos teares, dando-lhes as franjas e varandas e tornando-as mais macias e ornamentais.

Balanço criativo

Daí para nossos dias, a variedade é quase infinita. Algumas das melhores do país são produzidas no Piauí, em Pedro II, cidade a pouco mais de 200 quilômetros de Teresina. Com cerca de 10 mil habitantes, ou se trabalha nas minas de opala ou na produção de redes, confeccionadas artesanalmente desde 1895 em teares rudimentares de madeira.

É em Pedro II que José Francisco Mendes, mais conhecido como Zebinha, compra suas redes. Na capital mais quente do Brasil, Teresina, onde Zebinha mora, existe a expressão b-r-ó-bró, para apelidar o período de calor mais causticante do ano: os quatro meses que terminam em “bro”, setembro, outubro, novembro e dezembro. “Nessa época, a rede fora de casa é a melhor companheira para as noites de suor”, diz Zebinha. “A regra sertaneja é pendurar a rede bem alto, de modo que apenas a mão encontre o chão. Queda ruim é de rede baixa. De rede alta é possível aprumar o jeito do cair”, diz. Outro detalhe: a rede deve ficar folgada. “O cabra prefere o diabo à rede tensa.” Segundo Zebinha, a melhor rede é a chamada de sol a sol, porque é grande, cabe um casal dentro e dá para dormir numa boa. Mas o próprio expert admite: “Rede boa é aquela que não dá vontade de levantar”.

A nação nordestina, a exemplo de Zebinha, é rica em criar metáforas da rede com a vida. Tem conselho: “Olha lá onde você vai armar a rede”. Elogio: “Fulano que sabe armar a rede é cara esperto”. Esta meio machista: “Não há rede igual nem mulher diferente”. Para viajantes inveterados: “Sicrano vive com a rede nas costas”. E, ainda, uma boa para quem precisa, digamos, meditar: “Ah, vá pedir conselho à rede”.

E será que a rede ajuda mesmo a pensar? “O balanço suave da rede trabalha a bipolaridade do cérebro, estimulando ao mesmo tempo o lado direito e o esquerdo, ou seja, o hemisfério subjetivo e o objetivo”, afirma Gil Kehl, terapeuta ayurvédico de São Paulo, que indica a rede para bolar projetos. “Esse é um momento em que ficamos bastante conscientes e presentes, numa espécie de estado de lucidez”, diz. Para ele, a rede ainda tem o valor de ser ortopédica. “Ao contrário da cama, ela encosta todos os apoios da coluna, aconchega e ajuda a relaxar os nervos e o corpo”, diz. Para quem quer dormir na rede, Gil, que já passou um ano na Bahia dormindo em uma, recomenda que o faça de atravessado, “o que deixa a coluna mais reta e confortável”.

Para Câmara Cascudo, não dá nem para comparar a rede com a cama. “O leito obriga-nos a tomar seu costume, ajeitando-se nele, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede não: ela toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos e repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. Do jeito que a gente deita ela se molda.”

Mas, mesmo sendo usada só nos momentos de descanso e deleite, a rede lembra o gesto de ninar, o colo, o aconchego. Eta vidinha boa essa da rede. Quantos brasileiros não foram criados no ritmo? Um deles, com certeza, foi o mestre Câmara Cascudo, que termina seu livro com uma foto sua na mesma posição em que ele, eu, o Zebinha do Piauí, meu cunhado Guilherme e outros milhões de brasileiros tanto adoramos ficar. Quer coisa melhor?

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