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Ela tinha olhos grandes, uma inseparável franjinha e os dentes da frente ligeiramente afastados. Aos 15, Nara, capixaba de 1942, era a mascote do grupo que se reunia quase toda noite no apartamento de seus pais, na avenida Atlântica, com os janelões voltados para o mar de Copacabana. É que o doutor Jairo preferia os amigos em casa que a filha na rua. E os violões soavam tão mansos que não incomodavam.
Dona de uma memória incrível, se alguém esquecia alguma música, Nara lembrava. Se alguém pedia um palpite, se manifestava. Mas não fazia muito sucesso quando abria a boca para cantar. Na época, seu papel era de musa a musa da bossa nova.
Mas as musas não são deste mundo, e Nara era por demais curiosa: descobriu o samba e, com ele, os problemas do morro, a fome e um outro lado da vida. Sem medo de briga, cantava protesto, iê-iê-iê, bolero ou música nordestina. Até bossa nova. E as canções infantis com as quais ninava seus filhos. Sim, pois além dos shows que fez no Brasil e no exterior, do programa de TV que apresentou, dos discos que gravou e dos músicos que revelou, Nara quis família e filhos, e plantas no quintal.
Seu sonho na vida era cantar o que quisesse, quando quisesse, onde quisesse. Aquela moça da zona sul do Rio de Janeiro tinha era muita opinião.
E a vida era leve naqueles anos dourados, quando Nara-adolescente-queadorava-os-musicais-de-Hollywood saía do cinema, de mãos dadas com Roberto Menescal. Imagine a agradável surpresa de perceber que, terminada a matinê, chovia também no Rio e poderiam voltar para casa dançando, igualzinho a Cantando na Chuva! Essa alegria irresponsável resultou em gripe para os dois, no dia seguinte. Além de uma amizade que durou para sempre.
Menescal foi quem se apaixonou de pronto pelo violão. Como Nara também quis aprender, seu pai tratou aulas particulares com Patrício Teixeira, cantor e instrumentista das antigas. Nas horas vagas, praticavam, inventavam e faziam reuniões musicais no apartamento de Nara, chamando os amigos.
Não tinha problema: a irmã mais velha, Danuza, era casada e já não morava lá. Então, depois que doutor Jairo e dona Tinoka se recolhiam, era a vez de Menescal, Silvinha Telles, Carlos Lyra, Luís Carlos Vinhas, Dori Caymmi, Luís Eça, Baden Powell, Ronaldo Bôscoli e Chico Feitosa, entre outros, ocuparem a espaçosa sala. Foi lá que, numa das vezes que deu o ar da graça, João Gilberto conheceu sua futura esposa, Astrud.
O pessoal cantava o céu e o mar, o sorriso e a flor, e falava do amor, tendo como musa a dona da casa. Não que ela tivesse alguma afetação ou pairasse etérea num pedestal, muito pelo contrário. Mas não era comum uma moça de família pegar o violão para fazer música: ser cantor, naquela época, era como passar atestado de vagabundagem. Nara não se incomodava. E quem se encantou, levando seu coração, foi Ronaldo Bôscoli: ele era o lobo bobo da canção Nara, sua noiva.
Na estréia traumática de Nara fora do famoso apartamento, foi Ronaldo quem segurou o microfone para ela. A turma tinha arranjado um show, no finzinho de 1959, na Escola Naval, apresentando o som que ficaria conhecido como bossa nova. Desconfiada de que a amiga tentaria fugir, Silvinha Telles trancou as portas do auditório e anunciou a novidade da noite. Resultado: segundo as palavras da própria Nara, cantou de costas e quase chorando. Mas o público aplaudiu. Parece que, a partir desse dia, ela foi gostando cada vez mais do palco e o público, cada vez mais dela.
Sérgio Cabral, autor de uma biografia sobre Nara, explica o que estava acontecendo: Ela inventou o que chamamos de MPB, definindo um tipo de música brasileiríssima, moderna, com alguma elaboração harmônica, poética. E isso desde o primeiro disco que ela gravou, com os afro-sambas de Vinicius e Diz que Fui por Aí, de Zé Kéti.
Mas o LP Nara tinha pouco a ver com aquela Nara do show na Escola Naval. Ela já não era mais uma menina ingênua. Em 1964, Nara namorava um dos expoentes do Cinema Novo, Rui Guerra o antigo noivado desfeito, contra todas as previsões.
Rui foi quem começou a fazer a cabeça dela com assuntos de política de esquerda, lembra Carlinhos Lyra, que tinha ajudado a fundar o Centro Popular de Cultura da UNE. Mas o passo definitivo em sua carreira foram os compositores do morro, que eu lhe apresentei. Talentos como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti. Agora aqueles compositores lhe dariam a chance e, em pouco tempo, viraria a musa da música de protesto. Enfim, deixou-se levar por outras bossas.
Naquele momento, ela estava sendo muito criticada por ser uma moça de Copacabana cantando samba de morro. Tirando de letra as provocações, tentava explicar que uma coisa não tinha nada a ver com a outra: ela queria cantar o que pensava e sentia, sem limitações de gênero, de temas, de rótulos.
Do LP Opinião de Nara surge o lendário show Opinião, sob direção de Augusto Boal, no então novo Teatro de Arena. Um sucesso absoluto na cidade, mas que revelou um problema que acompanharia sua trajetória: Nara perdia a voz no meio da temporada. Dessa vez, foi Maria Bethânia, a menina que a impressionara muito em suas andanças pelo Nordeste, quem a substituiu. Bethânia teve assim sua primeira grande chance no Rio. E a canção Carcará, do repertório do show, ficaria mesmo famosa na boca da baiana.
O professor Theophilo Augusto, da Universidade Livre de Música, resume a importância de Nara na história da música brasileira: Ela foi uma pioneira, participava das coisas certas no momento certo. Falar, por exemplo, da década de 60 sem falar de Nara não dá!
Numa das muitas entrevistas que concedeu, sua posição política caiu como uma bomba. Em letras garrafais, em plena ditadura, sai no Diário de Notícias: Nara é de opinião: esse Exército não vale nada. A declaração agitou os militares, e alguns setores exigiram sua prisão. Desse episódio, resultaram manifestações solidárias de vários artistas, matérias no exterior, crônicas e até um poema de Drummond: A menina disse coisas/ de causar estremeção?/ Pois a voz de uma garota/ Abala a revolução?
O ministro da Justiça, por fim, não abriu processo e ela pôde continuar seu caminho. Porém, essa história de ser porta-voz da música de protesto já começava a cansá-la. Então, no 2º Festival da Música Popular Brasileira, defendeu A Banda. A música a entusiasmou justamente por sua ingenuidade, já que trazia um Brasil nostálgico e, oras, o compositor era Chico Buarque!
Quando o regime intensificou a censura e os artistas todos partiam para o exílio, ela foi para Paris com o marido Cacá Diegues. Lá, lidando com as fraldas e as mamadeiras de Isabel, Nara tornou-se uma supermãe e só queria cantar por prazer. De longe, Nara fez as pazes com a bossa nova, gravando Dez Anos Depois um álbum duplo de celebração só com os clássicos.
De volta ao Brasil, encomendou o segundo filho e fez matrícula na Faculdade de Psicologia da PUC. Menescal, agora seu vizinho, conta que, se não insistisse tanto, ela seria mãe 24 horas por dia, até o final. Com jeitinho, ele a ia tirando do silêncio, perguntando o que ela estava a fim de fazer.
Cacá também a convidou para cantar em Quando o Carnaval Chegar e conta que foi muito agradável: O elenco e a equipe técnica eram formados por amigos. Isabel, nossa filha mais velha, e Francisco, que tinha acabado de nascer, estavam sempre presentes no set de filmagem, assim como Silvinha e Marieta, que acompanhavam Chico.
Em 1977, ele e Nara se separaram, mas o respeito e o carinho permaneceram. Outros discos saíram do forno e a voz da cantora voltou, com força. Ela acabaria descobrindo, com o professor de canto Eládio Perez-Gonzalez, que podia se livrar das dores de garganta que a perseguiam. O problema era que cantava num tom inadequado: sua voz era de soprano e, se fizesse os exercícios, alcançaria agudos com que sequer sonhara.
Tudo ia bem até que, em 1979, Nara sentiu-se tonta, caiu no banheiro de casa e machucou o rosto. Quando voltou a si, falava inglês e não reconhecia os filhos. No hospital, os médicos não chegavam a um acordo sobre as causas do ocorrido. Na época, não havia ressonância magnética por aqui e as hipóteses eram as mais variadas possíveis.
Até que um tumor no cérebro, do tamanho de um maracujá, foi diagnosticado. E não era possível operar. Os mais próximos sentiram-se impotentes, mas Nara permanecia corajosa, seguindo tanto os tratamentos convencionais, como a radioterapia, quanto os alternativos, com um médico espírita.
Apesar das dores, das vertigens e das ausências, devagar ia vivendo e criando. Os anos foram passando, mas em maio de 1989 teve que ser internada de novo e entrou em coma. Em junho, partiu. Se estivesse viva, teria feito 65 anos. Provavelmente, com voz de passarinho e coração de leão, continuaria dizendo, para a gente, coisas sobre a vida.
Felizmente, como mágica, é só apertar o play que ela volta e canta tudo de novo.
Livros:
Chega de Saudade A História e as Histórias da Bossa Nova, Ruy Castro, Companhia das Letras
Nara Leão Uma Biografia, Sérgio Cabral, Lumiar Editora
A Onda que se Ergueu no Mar, Ruy Castro, Companhia das Letras
Quase Tudo Memórias, Danuza Leão, Companhia das Letras
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