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Paulo Leminski tinha muita fome: de poesia, de experiências, de conhecimento. Nascido em Curitiba em 1944, o autor viveu apenas 44 anos, mas produziu com uma intensidade que rivalizava com a urgência da vida que propôs para si, em que todas as coisas interessavam, mas sempre na perspectiva primeira da poesia: são 18 títulos, entre livros de ensaios, romances, biografias e, claro, de poemas, além de oito volumes de traduções.
Foi chamado de samurai malandro e de caipira cabotino, além de contribuir para a mitologia em torno de seu nome, com autodefinições que reforçavam sua facilidade em transitar entre diversas esferas de alta e baixa culturas. Dizia-se um pensador selvagem, um bandido que sabia latim, um guerreiro da palavra, ou mesmo um caboclo-monge-black-beat-zen. Tudo ao mesmo tempo.
Com esse perfil múltiplo, o poeta adquiriu notoriedade em vários segmentos artísticos. Só para dar uma idéia, a primeira edição comercial de seus poemas, Caprichos e Relaxos, publicado em 1983, já vendeu, em sucessivas edições, mais de 20 mil exemplares um acontecimento e tanto, quando se trata de poesia.
Só tem crescido o interesse por sua obra, o que se comprova com as exposições, debates, cadernos especiais e dossiês dedicados à vida e à obra do poeta ao longo dos últimos anos. A obra de Leminski desperta a atenção de teses universitárias, diretores de teatro, cineastas e tradutores.
Mestiço de negro e polaco, o poeta passou a maior parte do tempo que lhe coube viver em Curitiba, com breves estadas no Rio de Janeiro e em São Paulo. É na capital paranaense que Leminski vai produzir praticamente toda sua obra e colocar em ação seu motor multimídia: foi, além de poeta, jornalista, publicitário, tradutor, ensaísta, compositor de música popular e romancista. Afinal, como receitara, para ser poeta é preciso ser mais do que poeta.
Aos 13 anos, foi para o Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde ficou por dois anos. No mosteiro, estudou canto gregoriano, que considerava sua única formação musical. Mais tarde, despertou para a música popular: chega a mais de 50 o número de suas composições e dos poemas musicados por parceiros como Moraes Moreira, Itamar Assumpção, José Miguel Wisnik e Arnaldo Antunes.
Em 1968, conheceu a poeta Alice Ruiz, com quem viveu 19 anos (em casamento de poetas, diz Alice, a poesia é o maior dos bens em comum). Sete anos depois, publicou Catatau, seu primeiro e mais comentado livro.
Na seqüência de Caprichos e Relaxos, saíram novas reuniões de poemas, Distraídos Venceremos (1987), La Vie en Close (1991) e O Ex-estranho (1996). Nesses textos luminosos, cheios de balanço, inteligência e forte lirismo, ficam evidentes pontos de contato com a MPB especialmente a Tropicália e a poesia concreta, além de um vínculo estreito entre a própria vida e a prática da poesia, sempre em busca do sentido através das palavras.
A partir de 1983, colocou em ação outro projeto, o de escrever ensaiosbiografias sobre quatro personagens históricos com os quais se identificava: o poeta japonês Bashô, o poeta brasileiro Cruz e Souza, o revolucionário Trótski e Jesus construtores de poesias, de utopias e de revoluções, unidos, também, do ponto de vista do poeta curitibano, pela paixão pela palavra nas suas mais variadas formas: escrita, falada. Textos inscritos nas vidas e vice-versa.
O interesse pelo mundo oriental não ficou restrito à biografia de Bashô. Faixa-preta de judô, Leminski estudou, praticou e ajudou a disseminar no país a forma poética do haicai, poema curto de 17 sílabas, formado por três versos. Poemas tão minúsculos na forma se explicavam como a expressão de um mundo em que a velocidade dos dias e a aceleração do tempo histórico quase atropelam as pessoas. É preciso dizer o máximo com o mínimo de recursos, perceber que no interior do mais pequeno abre-se profundo a flor do espaço mais imenso, como diz um de seus poemas. Além do haicai, sua atenção foi despertada também para a filosofia zen. Não são raros seus poemas que trazem um sabor oriental, como se fossem koans perpassados com fino humor. O koan é uma espécie de paradoxo zen-budista usado pelos mestres: são anedotas exemplares, histórias, processos de treinamento no adestramento dos pretendentes à iluminação.
Na época de Bashô, encontrava-se no auge a Arte do Chá (cha-dô), um dos caminhos zen. Na cerimônia que tomou conta do Japão, juntava-se uma roda com a finalidade de sorver a bebida. Este poema de Leminski, justamente denominado Arte do chá, guarda um pouco do humor característico de um koan: Ainda ontem/ convidei um amigo/ para ficar em silêncio/ comigo// ele veio/ meio a esmo/ praticamente não disse nada/ e ficou por isso mesmo.
Com seus poemas líricos, sensuais e irônicos, Paulo Leminski colocou algumas cartas na mesa que estavam ausentes dos debates e das reflexões das sociedades contemporâneas. A poesia passa a ser, na definição de Leminski, um inutensílio, no sentido de ser um objeto transcendente à utilidade (inútil). As coisas in-úteis são aquelas que não servem para nada que não seja ser elas mesmas, ou que se recusam a se transmutar em mercadoria. Não precisam de explicação. A poesia, sob esse ponto de vista, é um inutensílio tanto quanto um orgasmo, um grito de gol, um arrepio na pele.
Leminski foi fundo nessa poética do inutensílio, enxergando na poesia uma espécie de reserva ecológica. Apostou tudo na conjunção amorosa de sua linguagem poética e uma atitude vivencial toda ela voltada para a poesia. Essa união, sentimento utópico, promessa de felicidade, está impressa em cada poema que criou (vai vir o dia/ quando tudo que eu diga/ seja poesia; ou: fazia tanta poesia/ ainda vai ter poesia um dia).
Em uma de suas frases certeiras, Millôr Fernandes comenta que, assim como falamos em tecnologia de ponta, podemos falar em ser humano de ponta. Leminski foi um desses, transformando o carvão da vida no diamante da literatura.
Livros:
O Bandido que Sabia Latim, Toninho Vaz, Record
Aço em Flor, Fabrício Marques, Autêntica
La Vie en Close, Paulo Leminski, Brasiliense
Distraídos Venceremos, Paulo Leminski, Brasiliense
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