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Hazel Henderson é uma das principais vozes do que se pode chamar "economia sustentável", ou "economia solidária", na qual pessoas e países deixam o dinheiro de lado e partem para a troca, sem intermediários - assim como se fazia antigamente. "O sistema econômico se baseia na idéia de vender mais e mais coisas de que as pessoas não precisam", diz ela.
Autodidata, Hazel tornou-se uma futurista e consultora muitíssimo antenada, querida por economistas, grandes estadistas e organizações internacionais, notadamente os que se empenham em fazer do mundo um lugar melhor para se viver.
Para ela, o sistema financeiro tem invadido as outras esferas da vida humana, a ponto de começar a causar rupturas na família e na sociedade. "Tem-se perdido o que eu chamo de 'cultura do DNA', que é a cultura da solidariedade e da economia fraternal, que vai desde a importância de ajudar a comunidade até o modo como alimentamos as crianças e tratamos os mais velhos."
Nesta entrevista, Hazel Henderson conta como é possível escapar dessa teia, sem recorrer a palavras difíceis ou teorias complicadas. E o que recomenda, ela garante que pratica: usa roupa de brechó beneficente, tem um carro híbrido que faz 25 quilômetros por litro e só investe em empresas com preocupações sociais, ecológicas e espirituais. Faça como os grandes estadistas e veja o que ela tem a dizer.
Como humanizar a economia?
Vivemos num momento em que o dinheiro tem dominado, de maneira inapropriada, partes fundamentais da vida das pessoas. Então, a reintrodução do escambo, da troca de produtos e serviços, é um dos caminhos para se tentar colocar a economia e o planeta em equilíbrio. E podemos seguir esse plano com a ajuda da internet, porque agora temos ótimas plataformas eletrônicas para realizar esse tipo de comércio.
Isso funciona na prática?
Conheço duas companhias que adotaram esse sistema de maneira bem-sucedida - uma na Califórnia, outra em Londres. O interessado paga uma pequena taxa para ser sócio de uma rede e então envia uma mensagem com o que ele tem para oferecer e o que ele quer em troca, tipo "tenho um carro usado e quero trocá-lo por serviços de manutenção de casa."
Um tanto difícil imaginar um mundo sem dinheiro.
O célebre economista escocês Adam Smith destacou bem esse ponto no livro A Riqueza das Nações [bíblia da economia, de 1776]. O dinheiro, inegavelmente, foi uma idéia bastante útil, mas de acordo com Smith todas as pessoas têm propensão para o escambo, para a troca de mercadorias, e isso já se via desde há muto tempo nas culturas indígenas ao redor do mundo.
Não seria solução apenas para comunidades ou grupos de amigos?
Não, não apenas. Na Argentina, por exemplo, com a crise econômica, mais de 6 milhões de pessoas têm ido aos mercados de pulgas para trocar produtos. E, além de produtos, podemos trocar boas idéias, conhecimento, tecnologia. Metaforicamente falando, não precisamos mandar bolos e doces para os outros países, precisamos mandar a receita!
De que maneira isso beneficia o equilíbrio do planeta?
O sistema de trocas permite que usemos e reusemos tudo. Reciclar é uma ótima idéia, mas deveria ser a última opção, pois é um processo que demanda custo e energia. Reutilizar estende a vida das matérias-primas e preserva os recursos naturais. Nossa recompensa é um ambiente mais limpo, água mais saudável e também mais tempo para aproveitar com as pessoas de que gostamos.
Sua vida incorpora esses valores?
Sim, claro. As montadoras Toyota e Honda produzem carros híbridos que usam eletricidade e reduzem muito o consumo de gasolina. Eu tenho um desses e, em dois anos, nunca tive problemas. Também compro roupas em brechós beneficentes, que oferecem uma compensação dupla: além do benefício psicológico de saber que se está ajudando alguém, paga-se uma verdadeira pechincha!
Pequenos mercados são viáveis em cidades com milhões de pessoas?
Sim, com certeza, mas a ideologia da era industrial está calcada na baixa qualidade de vida. Vivemos numa era industrial e a grande metáfora para esse período é que tudo que é maior é melhor e mais eficiente. Então temos corporações gigantescas, lojas imensas que acabam com as chances do pequeno empresário.
Todos vamos aos supermercados.
Particularmente, prefiro ir à feira. Lá, encontro os produtores, compro alimentos frescos e orgânicos. É muito mais divertido do que ir a um supermercado: não pego fila, encontro os vizinhos e compro flores.
Há cura para o consumismo?
Outro dia eu assistia ao canal de notícias Bloomberg e um autor americano estava sendo entrevistado. Ele tinha acabado de lançar um livro ensinando como proteger as crianças da televisão e da propaganda, e dizia que os pais deveriam ensinar a diferença entre "precisar", "querer" e "preciso ter". Precisar diz respeito a necessidades básicas, como comida e roupa. Já "querer" e "preciso ter" são desejos e, portanto, coisas bem diferentes.
Se não sabemos, como ensinar?
Sem dúvida! Eu diria que, atualmente, educação é o investimento mais importante que qualquer país, ou qualquer pai ou mãe, pode fazer.
Como dar o primeiro passo rumo a essas mudanças?
Um amigo lançou um livro nos Estados Unidos, há uns dez anos, chamado The Money or your Life - um best seller - no qual pede que as pessoas organizem um pequeno diário e anotem todas as maneiras de se economizar dinheiro e investi-lo em autodesenvolvimento. A pergunta que fica no ar é: "O dinheiro ou a minha vida?".
Seria essa a chave para uma vida mais simples?
Acho que quando as pessoas compreenderem os tipos de auto-realização que não envolvem dinheiro ou produtos, conscientes de que as necessidades materiais podem ser mais simples, estará criada a sintonia ideal para uma existência satisfatória, para cada um e para todos. Porque dessa maneira é possível direcionar energia para o desenvolvimento pessoal, como aprender uma nova língua ou viajar para outro país. Esse é o caminho para uma evolução.
Nas livrarias:
• Além da Globalização, Hazel Henderson, Cultrix/Amana-Key
• Transcendendo a Economia, Hazel Henderson, Cultrix/Amana-Key
• Your Money or your Life, John Clark, Random House (em inglês)
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