Faz-me rir
Para o diretor, ator e palhaço Hugo Possolo, o humor pode mudar nosso modo de ver a vida
por Priscilla Santos
Este homem é um palhaço? É, sim, senhor. Palhaço, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, diretor e produtor cultural há 26 anos. Formado no Picadeiro Circo Escola em São Paulo, um de seus mais memoráveis números foi a criação do grupo de comédia Parlapatões, Patifes & Paspalhões em 1991. A trupe, composta por mais três integrantes, abriu as cortinas de sua história com apresentações de circo. As técnicas do picadeiro foram amarradas às do teatro de rua e lá se foram 26 espetáculos que fizeram muita gente se dobrar de rir e também refletir. Pois o humor por que não? pode ser transformador. Não é à toa que os Parlapatões mantêm um Centro de Referência do Riso em sua sede no centro de São Paulo. Neste papo sério, Hugo mostra que humor não é assunto para brincadeira, mas pode tornar a vida muito mais divertida. Respeitável público, com vocês, Hugo Possolo.
O humor desmonta tabus?
Quem trabalha com humor está lidando com uma capacidade de demolir aspectos ideológicos, morais e comportamentais da sociedade. Está sempre usando uma metralhadora giratória. Claro que são tiros que resultam num prazer enorme no interlocutor, porque a pessoa dá risada, se diverte. Mas, de certa forma, o humor tem um plano de reflexão e questionamento. O que significa que quem emite essas questões deve ter muita responsabilidade, precisa saber para onde está apontando sua metralhadora. Do contrário, pode haver a leitura de que se está reforçando um preconceito, ao invés de criticá-lo. A piada é preconceituosa quando ela quer humilhar o interlocutor. Por exemplo, ficar dando tapa na cabeça de um anão. Quando alguém faz isso, está usando da força, se colocando numa posição superior ao outro e reforçando um preconceito.
Qual é o papel do palhaço?
O palhaço é um arquétipo que representa o ridículo da humanidade como um todo. Aquilo que temos de mais humano, mas ignoramos diariamente: o fato de sermos animais. O palhaço tem uma busca constante por satisfazer seu instinto de sobrevivência: poder comer, beber, livrar-se de suas escatologias. Ao mesmo tempo, ele é de uma pulsão sexual constante, está sempre atrás da beleza das mulheres. Ele se acha um especialista em todos os assuntos, pensa que vai resolver tudo facilmente e se complica. No fundo, o palhaço é um retrato exagerado, hiperbólico do que é o ser humano. O palhaço nasce do circo e todas as modalidades circenses o trapézio, o malabarismo, a doma dos animais têm um quê de sobrenatural, de desafiar a gravidade, de mostrar a superioridade do homem sobre a natureza. O palhaço subverte essa condição ou, pelo menos, joga de maneira oposta. Ele revela que as pernas tremem exageradamente, ele anda torto, tropeça, cai do trapézio. Cede à lei da gravidade, à natureza. Ele é o tempo todo aquilo que nós somos. Não conseguimos vencer a natureza, ela é infinitamente superior ao homem.
O riso tem que gerar reflexão?
Na verdade, não vejo problema nenhum na diversão superficial, porque a vida não é profunda o tempo todo. Então, se você fica se obrigando a ver reflexão em tudo, você vira um chato, um neurótico. Você pode rir de uma bobagem, de uma superficialidade, mas você também pode rir de uma coisa que faça você refletir. Quando eu atuo, meu objetivo é fazer as pessoas rirem, em primeiro lugar. Se eu conseguir que elas reflitam a partir disso, é um segundo passo. Senão, no mínimo, exerci um papel muito melhor do que boa parte da humanidade. Minha função social é fazer as pessoas felizes por alguns instantes, e acho que isso não é pouca coisa. O lirismo do palhaço está no fato de que ele faz as pessoas rirem, o que não é fácil. Requer preparo, conhecimento, sensibilidade, atenção e respeito. Ao mesmo tempo, é preciso achar o momento em que você vai dar uma pequena desrespeitada no público, vai cutucá-lo para ele poder questionar, refletir, e ir além desse riso que só dura um instante. É um constante exercício de consciência, de avaliar suas próprias contradições. Demolir conceitos para quê? Para serem reconstruídos de que maneira? Que espaço de esperança você vai deixar?
O riso pode ser transformador?
O humor tem uma capacidade de transformação, sim. Às vezes, temos um modo único de ver as coisas, e uma piada nos faz olhá-las de maneira mais relaxada, tranqüila, nos faz olhar diferente. O riso acaba propiciando que as pessoas mudem sua conduta na vida. O humor do Carnaval, por exemplo, é um momento em que você rompe uma série de barreiras sociais. Vestir uma fantasia dá espaço ao imaginário para você não ser aquilo que é ou acha que é no cotidiano, porque você pode ser de outra maneira. Pode ir de mendigo a príncipe, de homem a mulher, de gente a bicho, você se transforma. Essa experiência do Carnaval não é sem significado, pode fazer com que a pessoa encare o mundo de outras formas.
O humor é politicamente incorreto?
Se ele pretende ser universal, não pode estar preso ao politicamente correto, pois equivaleria a tomar o ponto de vista de uma classe social, que é a que determina as regras da sociedade. Eu dividiria a arte, em geral, em três patamares: moral, imoral e amoral. O que é universal é amoral. Você tira todas essas regras sociais implícitas, vê os seres humanos de igual para igual e trata das questões humanas mais profundas. O humor moral é aquele que reafirma regras sociais. Fazer piada sobre alguém que fala errado é quase uma exigência de que aquela pessoa fale certo. Já o humor imoral é aquele que vai contra a moralidade e que procura até agredir. Mas ele tem reação. Se você fala um monte de palavrões para uma pessoa que não está acostumada, ela se choca e não resolve nada. A busca constante do artista é poder tirar essa capa moral para poder se manifestar. O humor é universal quando ele trata dos seres humanos, sem considerar suas condições hierárquicas. Pode ser o general, o padre, o mendigo, todo mundo é humano.
Levamos a vida muito a sério?
Não. Aliás, menos a sério do que deveríamos. Levamos a vida no plano intelectual. O cérebro está o tempo inteiro funcionando e reproduzindo o mesmo modelo e a mesma idéia. Parece que a gente pensa e não pensa. A gente se comunica por celular e email o tempo todo. Falamos muito, mas ficamos no plano do consumismo, do prazer imediato, não aprofundamos as relações. Não estou dizendo que o tempo anterior era melhor, a tecnologia nos ajuda muito. Mas acho que as pessoas não sabem saborear isso, a vida tem mais a oferecer. As pessoas estão perdendo o humor, isso sim, o que não quer dizer que elas tenham ficado mais sérias, porque se você levar a vida a sério, para valer, vai descobrir que ser engraçado é muito bom.
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