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Dançar pra não dançar

Está cada vez mais claro que essa é uma porta para todo mundo abrir: se falamos de dança, falamos da própria vida

por Alessandro Meiguins | montagem sobre fotos de Manuel Nogueira

Do princípio: o que é dança? É o flutuar das bailarinas, claro. E também as piruetas da capoeira e do break, é seguir o bloco do maracatu, um casamento em festa junina. Ou o pequeno virar de olhos das cortesãs indianas, os sufis rodopiantes, os pés no tablado do flamenco, o ventre sinuoso da odalisca. Roupas, figurinos, sapatos, pés no chão, poeira da terra, guizos, brincos, véus da alma. Tem gente que dança só, na frente do espelho. Há quem vá ao salão - e dança lá no meio, antes de a pista encher. Tem nação que dança junto, no Carnaval. Há rodas com cânticos, em rituais, nas escolas. Todo mundo dança.

Dança quando bate a caixinha de fósforos nas mãos ou tamborila os dedos na mesa, quando enche os pulmões de ar, quando bate o coração. Na visão oriental, os movimentos ativo e receptivo - ou o yang e o yin - são ambos estados naturais, que oscilam. "Daí que podem existir tempos bons, alegres, para danças explosivas, suadoras", diz Regina Nunes, professora de dança oriental árabe. "E tempos nublados, introspectivos, para dançar de forma delicada, quase imperceptível."

Dançar, antes de refinada arte corporal, é uma expressão natural, rítmica, e por isso corriqueira, como falar, ouvir, pensar. E está cada vez mais claro que essa é uma porta para todo mundo abrir: se falamos de dança, falamos da dança da própria vida - não dá pra separar. Vai que todo mundo dança, mas talvez falte acertar alguns passos, ou conhecer limites, definir um propósito, entender o sentido. Esse é um tema muito interessante.

Para curar tristezas
É no meio de uma aula que tenho a oportunidade de ver Ivaldo Bertazzo dançar. Nesse dia, entre pelo menos uma centena de adolescentes da zona leste de São Paulo, Ivaldo navega o corpo fazendo movimentos cheios de curvas, de indas e vindas. Parece exaustivo, difícil de fazer, mas aos poucos a moçada começa a repetir a seqüência de gestos. São meninos e meninas da periferia, poucos recursos, que por um ano aprendem a dançar, em aulas de anatomia, consciência corporal, de contar histórias e até em sessões de origami! (Leia mais sobre essa e outras idéias de Ivaldo Bertazzo em destaque na página 35.)

Esse resgate dos valores da dança tem outros entusiastas. A norte-americana Martha Graham (1894-1991), por exemplo, uma das grandes bailarinas do século 20, disse certa vez que "a essência da dança é a expressão do homem, a paisagem da sua alma, a eterna pulsação da vida, o desejo absoluto". Quer dizer, está tudo aí, misturado a fenômenos vitais de todos nós.

Alguns estudos com sociedades tribais contemporâneas mostram que no começo a dança teria sido estimulada pelo som dos pés batendo no chão. E que então passou a fazer parte do cotidiano, em celebrações e rituais de nascimento, morte, casamento.

Segundo a antropologia, as primeiras danças eram individuais e se relacionavam à conquista amorosa - tradição das mais badaladas até hoje. Depois, apareceu a dança coletiva, linguagem útil para todos os aspectos da vida. No antigo Oriente, havia danças para pedir bênção aos deuses, para relatar eventos históricos, danças marciais com técnicas de luta e danças campestres, para celebração do trabalho e das forças da natureza.

E tem dança curativa. As mulheres hausa, da cultura bori, na Nigéria, dançam para curar tristezas. Alguém duvida que funcione? Entre outro povo desse país, o jukun, dança-se para expulsar demônios (já ouvi gente no meio da pista dizendo fazer exatamente isso). Vale lembrar que na cultura africana, também tão brasileira, a religião não é falada: é dançada.

Dá pra voar sozinho
Minha experiência, porém, é mais terrena: vou no encerramento de um workshop de dança, um encontro que reúne gente comum em busca de liberdade nos movimentos. Chego na catarse, quando umas 80 pessoas se movimentam em improviso. Coor-dena o grupo uma elegante bailarina, María Fux, 81 anos, uma vida entregue ensino da dança. Ela diz que todo mundo sabe dançar, e que faz isso de forma linda. "Só se perde a graça da dança quando você a guarda para si. Mas ao fechá-la em seu corpo, toda a expressão da vida se atravanca. Ao se mover, chega-se em um ponto que até dá para voar sozinho."

Muitos desses encontros estão sen-do utilizados por profissionais de educação e recursos humanos, como forma de integrar grupos ou departa-mentos de uma empresa. A idéia é que quem aprende a dançar junto aprende a trabalhar junto.

Seu corpo é bem-vindo
Um erro comum é acreditar que, para dançar, é preciso ter o corpo durinho e empinado, ser bailarino desde criança. É a maneira ocidental de buscar perfeição em tudo, e também muita informação produzindo modelos de excelência - coisas que, por fim, nos desestimulam. Nem precisa ser especialista para entender que isso nos distancia de nosso corpo, nosso templo.

Observo que no interior, no sertão, as pessoas dançam de forma espontânea. E jamais perdem a oportunidade de festejar. "Nas danças populares, você e seu corpo são muito bem-vindos com sua história de vida, sua timidez, sua rigidez, com o que quer que você seja", diz Rosane de Almeida, professora de danças do Brincante, um centro de cultura brasileira. "Tem gente que não dá valor ao que é, às marcas que carrega. Em uma dança popular, em um coco, um frevo, um cavalo-marinho, essas marcas são fundamentais. Porque as expressões individuais viram uma só voz - a voz coletiva."

E se eu for travado e não tiver grupo algum para eu aprender a me expressar? Fui conversar com a bailarina Ana Figueiredo. "Se uma dança é difícil pra você, vá para outra. Sempre há uma adequada para fazer sua alma florescer." Digo que parece haver um limite, para além do qual alguns não conseguem se lançar. "Não é para encontrar os limites e parar seu movimento", diz Ana. "O limite não é o fim da história. É um fato, é corriqueiro, bem natural, serve para você recriar a ação, você escorregar de lado, desviar, ganhar outro contorno, outro caminho. Aí o limite é seu professor."

Ana formou-se na escola de Isadora Duncan (1877-1927), coreógrafa americana tida como fundadora da dança moderna, uma figura genial que buscou em sua obra inspiração nos movimentos da natureza, como o vento e as ondas. Essas correspondências da dança com tudo que existe são intrigantes, e uma reflexão pode acabar azeitando nossas juntas.

Porque tem a dança do vento e das ondas, e também a dança das partículas menores que o átomo. E lá no Himalaia, recluso em sua morada no topo do monte Kailasa, Shiva dança o tempo todo. É dançando que essa divindade hindu, ao lado de Brahma e Vishnu, mantém o Universo. Conta o mito que, quando seus pés sagrados removem a neve da montanha, des-troem os grilhões que aprisionam as almas à ignorância e à ilusão.

Quer dizer, estamos falando de algo bem mais sublime que cair na gandaia e soltar suas feras, mas mesmo isso parece estar de bom tamanho para quem pensa em iniciar uma busca pessoal por meio dos movimentos. Porque dançar todo mundo dança.

Origami para dançar - entenda seu corpo dobrando papel
Ivaldo Bertazzo é um brasileiro respeitável, premiado aqui e lá fora. Autor, educador, terapeuta corporal, ele se consagrou em coreografias de grandes montagens e é criador de um método próprio, a "reeducação do movimento", que busca recuperar a essência dos gestos humanos. Enfim, Ivaldo é um dos vultos da dança brasileira. Desde a década de 70, ele desenvolve excelentes espetáculos onde quem dança são pessoas comuns, e não bailarinos profissionais. Para cada peça, Ivaldo prepara uma nova leva de "cidadãos dançantes", em longas imersões. Sabe o que o Ivaldo Bertazzo faz nas primeiras aulas? Põe todo mundo pra fazer origami.

Ivaldo diz: "Ao fazer o origami, você vê que em um papel existem inúmeras dobras e possibilidades de uso dessas dobras. E que, após um molde, o papel pode voltar ao seu original e então experimentar outras dobras. Assim como nosso corpo quando dança. Além disso, sua concentração e coordenação motora aumentam no pequeno, o que se expande até os mais largos gestos." Comento que isso, ao que parece, pode ir além da dança. "Sim, é isso mesmo: o prático e o lúdico se desenvolvem juntos", diz Ivaldo. "No cotidiano, temos gestos para tudo, todos objetivos: pegar o copo, girar a maçaneta, digitar um texto." Parênteses: e segurar a revista pra ler. "Mas a dança ultrapassa essa utilidade e avança no terreno do abstrato. Assim, ao exercitar qualquer gesto, você desenvolve outros movimentos, e estes são novos e cheios de significados transcendentes.

É quando a humanidade, na fronteira do seu próprio desconhecido, evolui." Francamente, não imaginei que fazer origami pudesse nos levar tão longe. Claro, antes de vir embora, peguei uma das receitas de origami (veja ao lado). Tente fazer isto em casa.

Para saber mais
• Ana Figueiredo
fone: (11) 3168-4785

• Centro María Fux
(62) 371-2132
sites: www.mariafux.it
www.mariafux.com.ar

• Ivaldo Bertazzo
fone: (11) 3865-4780
site: www.ivaldo-bertazzo.com.br

• Regina Nunes
fone: (11) 3399-3138

• Rosane de Almeida
fone: (11) 3034-5389

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