Você tem fome de quê?
Alimentação saudável é muito mais do que tabelas de calorias e combate aos radicais livres: se comermos direito, podemos salvar o mundo
por Débora Dines | fotos Kiko Ferrite
Alimentação é uma necessidade básica impregnada de matizes culturais: toca as vísceras, as crenças e os desejos. Existe até uma antropologia da nutrição, que estuda a evolução do homem através de seus alimentos. Excêntricos, vamos além das opções que a natureza oferece: plantamos, tornamos perene o sazonal, cozinhamos com fogo, antecipamos a maturação de animais e vegetais, criamos híbridos, recriamos artificialmente o natural. Ao fim e ao cabo, transformamos todo o ciclo da cadeia alimentar e, ao que parece, isso não está dando muito certo.
Para gerar a abundância atual é preciso ter lavouras e fazendas fartas o ano inteiro. Assim, o meio ambiente é explorado ao máximo, o solo é erodido, mananciais de água são poluídos e exauridos. E, como sabemos, nas sociedades modernas o consumo de comida é resultado do poder aquisitivo: alguns padecem do excesso, outros sofrem com a absoluta escassez. Somos o que comemos - ou o que deixamos de comer. Segundo a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), há, no mundo, 840 milhões de pessoas com deficiência de nutrição, muitas passando fome mesmo.
A contrapartida são as "doenças da riqueza", como diabetes, problemas cardíacos e câncer, entre outras produzidas pelo consumo de açúcar e gorduras saturadas acima das reais necessidades do organismo.
Entre o excesso e a escassez nos apegamos em algumas doutrinas: pratos rápidos ou refeições longamente preparadas, alimentação vegetariana ou onívora, comida crua ou cozida e assim por diante, numa infindável lista de categorias, gêneros e subgêneros. O ensaísta americano Wendell Berry, autor de Know That What You Eat You Are ("Saiba que o que Você Come, Você É", texto sem publicação em português), vem estudando o modo como nos alimentamos hoje. Ex-professor de Literatura da New York University, hoje pesquisador e fazendeiro, ele propõe uma divisão básica, de apenas duas turmas. Berry não escreve sobre a composição da refeição ou a forma como ela é feita, mas sobre nossa relação com o alimento. Sua idéia se resume a uma pergunta:
Você tem consciência do contexto biológico e social de onde sua comida se origina?
Conforme a resposta, ele distingue os dois tipos de "comedores": o comedor industrial e o agrícola. O comedor industrial é aquele que ingere a comida de forma entorpecida. Seu alimento é um conceito abstrato, sem conexão com a realidade biológica: quase todo produzido de forma mecanizada, com substâncias inertes, assépticas, processadas e refinadas, camuflado sob corantes, aromatizantes e sabores artificiais, embalagens e slogans de saúde. Pouco importa quem plantou ou colheu, qual é a oferta da estação, como é a lavoura, o estado do solo, quantos produtos químicos foram usados na produção (e a conseqüente reação no organismo) ou qual a adequação da quantidade à necessidade.
De acordo com Wendell Berry, que mora em uma fazenda há 40 anos, ao comer sem responsabilidade o comedor industrial age de forma passiva. Ele e seu alimento se exilam da realidade biológica, ingerem um subproduto das leis de volume e preço, que é oferecido junto com adjetivos comuns a outros bens de consumo: é prático, eficiente, necessário, requintado, cool. É comum encontrar crianças que não entendem como a bebida branquinha na caixa longa-vida vem da vaca e não da fábrica que também produz refrigerante.
Para o comedor industrial, enfim, a consciência está no valor, no custo e na aparência, enquanto a terra é apenas uma fonte de recursos a ser explorada.
O comedor agrícola, ao contrário, reafirma sua conexão com a terra pela refeição. Ele vislumbra as vidas envolvidas na cadeia alimentar - da semeadura à colheita, da embalagem à distribuição - e seu prazer surge também da sua relação responsável e harmônica com o ciclo orgânico. Para ele, o mundo é uma comunidade viva. Ele conhece a procedência dos produtos que ingere e cada ingrediente é percebido em um contexto social e biológico. Importa bastante saber quem plantou ou colheu, qual é a oferta da estação, como é a lavoura - bem, é só inverter as características do comedor industrial.
Galinhas turbinadas põem mais ovos
Partindo das idéias de Wendell Berry, podemos gostar de frango, por exemplo. Mas faz toda a diferença optarmos por um espécime caipira, que andou livre e ciscou no terreiro, em vez de um criado em confinamento, turbinado por hormônios, vítima de incontáveis sofrimentos, um bicho que, depois, é envolto em plástico e congelado. Ou seja, a questão primeira é aproximar-se da terra e de seus ciclos naturais.
Indo além das percepções de Berry, surge fácil a questão sobre comer ou não comer carne. Tudo bem, ser vegetariano ou não é uma questão pessoal - mas apenas até certo ponto. Porque não há como se alienar da maneira como todo tipo de carne é produzida hoje. Boa parte dos disparates da distribuição de comida no mundo podem ser entendidos quando observamos as indústrias bovina, avícola e suína.
A produção de cada quilo de carne de gado consome 7 quilos de grãos, usados na alimentação do animal - grãos que poderiam alimentar muito mais pessoas e não apenas aquelas que podem pagar pela carne - 38% da colheita mundial de grãos é destinada aos rebanhos. Um hectare usado para criação de animais produz um décimo da energia ou proteína que o mesmo hectare forneceria se nele fosse plantado soja ou trigo. E cada vez mais água é usada na criação de animais e não em plantações para o consumo humano.
As práticas para aumentar a produtividade de rebanhos por meio do estímulo ao crescimento e da maior rotatividade nos locais de criação começaram nos anos 60. Veio o uso em larga escala de hormônios e de grandes doses de antibióticos como prevenção contra as doenças que se alastram rapidamente quando um grande rebanho é absurdamente confinado. Tempo e espaço custam dinheiro.
O resultado: o gado que antes levava três anos para crescer e engordar, agora está pronto para o abate em 18 meses. Da mesma forma, galetos que antes levavam 12 semanas para atingir o peso de mercado, hoje estão no ponto em seis semanas. A vaca em cativeiro, que antes produzia 4 000 litros de leite por ano, hoje dá 10 000 litros, dez vezes acima do que sua natureza permitiria se criada em liberdade. O ritmo das galinhas poedeiras foi alterado para que elas produzam, cada qual, 300 ovos por ano, quando o normal seria algumas dezenas. A qualidade desses produtos, tanto em paladar quanto em nutrientes, está cada vez pior.
Para renderem bastante, os animais sofrem todo tipo de maus tratos: são mutilados para que não se machuquem nos espaços apertados (pintinhos, por exemplo, podem ter os bicos cortados para não ferirem uns aos outros no estresse do confinamento), vivem em parcas condições de higiene e são alimentados com rações inadequadas para o seu aparelho digestivo.
Seus instintos naturais são desconsiderados. Isso sem contar os males que passaram a nos ameaçar (a doença da vaca-louca, a salmonella ou a contaminação por E. coli), os resíduos de remédios que ingerimos ao comer essas carnes, e as conseqüências ambientais, da qual o desmatamento para a abertura de pastos é a mais evidente.
Um estudo apresentado durante o IV Seminário Nordestino de Pecuária (Pecnordeste 2000) aponta que cada 1 000 frangos abatidos por dia resultam na poluição de 4 000 metros cúbicos de água com restos, sangue, vísceras, carcaças e bactérias (e a carga é pesada, uma vez que o Brasil é o segundo maior produtor e exportador mundial da ave). O mesmo acontece com os suínos: temos 30 milhões de cabeças e, assim, milhares de toneladas de dejetos sem tratamento são lançados em rios (o Ministério do Meio Ambiente destinou, no ano passado, verba de 19 milhões de dólares para ser investida ao longo de três anos em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, os maiores produtores nacionais de porcos - que ajudam a manter o país na sexta posição do ranking mundial). Problemas de poluição por esterco, carcaças e vísceras também atingem a produção de gado (aqui, o Brasil tem o maior rebanho comercial do mundo: 172 milhões de cabeças).
O consumo de peixes também gera problemas. Os oceanos fornecem 123 milhões de toneladas de peixes e crustáceos por ano, dos quais apenas 66 milhões são consumidos pelo homem. O restante, ou é descartado e morto (animais que caem na rede e não têm valor comercial, como golfinhos, tartarugas e moluscos) ou é usado como ração na alimentação de outros bichos.
Alguns peixes são grandes carnívoros, como o salmão. Para produzir 1 quilo de salmão em viveiros, são necessários de 2 a 5 quilos de sardinhas e anchovas na ração. Peixes também vivem confinados para aumentar a produtividade e são entupidos de antibióticos. Viveiros de camarão, por exemplo, aumentam a salinidade do solo circunvizinho e da água dos mananciais, destruindo manguezais.
Evidentemente, há muitas pessoas interessadas em acabar com esses enganos. Como John Robbins, filho único do fundador da marca de sorvetes Baskin Robbins, presente em mais de 30 países, com 45 000 lojas.
Nos anos 70, esse jovem milionário não só foi morar em uma cabana no campo, como descartou radicalmente a robusta herança da família. Tornou-se vegan (adepto do vegetarianismo extremo, que não ingere ou utiliza nenhum produto de origem animal) e, depois, um autor de grande sucesso. Passou a pregar contra a indústria de laticínios, base da fortuna dos Robbins, e contra a produção animal.
Seu primeiro livro, Dieta Para Uma Nova América, de 1987, best-seller até hoje, abordou em pesquisa minuciosa a dieta vegetariana, as doenças provocadas pela alimentação moderna e o tratamento cruel de animais. Ele arregimentou artistas e apresentadores de TV, que, em rede nacional, declararam seu repúdio ao hambúrguer (como fez a consagrada Oprah Wimphrey, para constrangimento de alguns de seus grandes anunciantes).
Os transgênicos podem mesmo fazer mal?
Em seu último livro, "A Revolução dos Alimentos" (ainda sem tradução por aqui), Robbins segue com a pesquisa detalhada e o tom panfletário contra a indústria de carne, mas vai à carga também contra os fabricantes de organismos geneticamente modificados. Sua principal tese - a mesma defendida por alguns governos e instituições internacionais - é que ainda não houve testes suficientes que comprovem a segurança do cultivo desses alimentos para o ser humano e o meio ambiente.
Faz sentido. As sementes que agora dominam as lavouras da engenharia genética são o milho e a soja da variedade Roundup Ready, cuja principal virtude é a imunidade a doses maciças de aspersão com o herbicida Roundup Ready (além da toxicidade do processo, essa ligação intrigante: semente e herbicida são fabricados pela mesma empresa). Não há garantia também de que, pela polinização entre espécies, as próprias ervas daninhas não se tornem imunes ao herbicida e comecem a desequilibrar o ecossistema.
E a incoerência maior: segundo Robbins, "a produção desses grãos continua a ser majoritariamente destinada à alimentação de animais" - o que nos leva de volta à questão das indústrias bovina, avícola e suína, com o agravante de que se trata de uma ração da qual não se conhecem bem os efeitos.
A solução para os problemas ambientais, sociais e fisiológicos resultantes do desequilíbrio alimentar de hoje, segundo John Robbins e milhares de outros pesquisadores e especialistas está numa conscientização semelhante à que tem o comedor agrícola: a conexão com a terra. "A raiz etimológica da palavra humildade é a mesma de húmus", explica Robbins. "Nossa humildade significa voltar a reverenciar a terra, nos conectar com o planeta e suas criaturas". Para ele, isso se dá por intermédio da agricultura orgânica.
Supermercados inteiros dedicados ao natural
No início do século XX, o cientista inglês Albert Howard constatou que a saúde do solo assegurava plantações e rebanhos mais saudáveis. Seu livro, Um Testamento Agrícola, está na origem da agricultura orgânica, um movimento que busca a conexão com a terra por meio do controle natural de pestes, da fertilização com material orgânico, do respeito à biodiversidade.
Nos Estados Unidos e na Europa, existem, hoje, supermercados inteiros especializados em produtos cultivados em solos saudáveis e ecossistemas naturais. No mundo todo há demanda por uma relação mais consciente com a comida. São pessoas que sabem como preparar pratos coloridos, ricos em nutrientes naturais, pela simples combinação de hortaliças, leguminosas, cereais, frutos, tubérculos, sementes oleaginosas e, às vezes, até alguma proteína animal.
Voltando às origens da terra
"Planto milho, aveia, cana e capim para o gado - o esterco volta para a terra como adubo. Faço rotação de culturas e tenho girassol para atrair predadores de praga. Trato os meus animais com fitoterapia e homeopatia", diz o dono da fazenda orgânica Vale das Palmeiras, em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. O empreendimento tem produção diária de 300 quilos de hortaliças, leguminosas, frutas e laticínios, e um rol de clientes que inclui a atriz Luana Piovani e o novo ministro da Cultura, Gilberto Gil.
Não dá para levar a história adiante sem declinar a identidade do fazendeiro, o ator Marcos Palmeira. Ao comprar a propriedade, há seis anos, ele percebeu que os funcionários não comiam a produção devido à grande quantidade de produtos químicos utilizada. Assim, a transição para a agricultura orgânica foi rápida. "A consciência de alimentação mudou a minha vida", ele diz. "Você começa a redescobrir o equilíbrio, voltar às origens do que a terra já foi."
Há centenas de anos, filósofos e religiosos de todos os continentes questionam a necessidade do consumo de proteína animal porque, argumentam, o abate brutaliza a alma humana. Pitágoras, no século VI a.C., Tolstói, Gandhi e Einstein são alguns dos que defenderam o vegetarianismo. Astros e estrelas de Hollywood, que nos filmes comem de tudo, na vida real costumam sair das aulas de yoga direto para os restaurantes e entrepostos naturais.
A consciência alimentar pode nos levar aos céus
Mas, ainda que muitos de nós continuemos gostando de carne, teremos dado um grande passo se evitarmos o consumo de comidas processadas, refinadas e adulteradas, que levam à alienação do mundo natural.
Está claro que a continuidade do ritmo de produção de hoje é uma perspectiva pouco democrática (não atende a todos) e nada promissora. Já a alimentação consciente pode ser instrumento para um futuro mais saudável, compassivo e sustentável. Ao nos tornarmos comedores agrícolas, inseridos no contexto biológico, preservamos a integridade da comunidade, percebemos a dependência que temos de outras criaturas e desenvolvemos o senso da gratidão. A evolução para uma atitude ainda mais sofisticada em relação à alimentação acaba vindo naturalmente (por exemplo, abandonar a carne vermelha, o primeiro movimento entre os que pretendem dar uma virada no cardápio).
A consciência alimentar pode ainda levar a uma prática sutil, espiritual: viver o presente sem negligenciar necessidades, nem exceder-se em desejos. Afinal, a nutrição não passa só pela boca. Ela nos impregna inteiramente com os frutos dos tempos e dos céus.
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