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Comer

Feito em casa

Cozinhar para si e para os amigos é um convite ao paladar, à conversa, ao riso e ao vinho. Como nos melhores banquetes romanos

Texto Elenice Brigida Fotos Dercílio

Quando pequena, não via a hora de chegar o fim de semana. Além do cardápio especial - pizza no sábado e macarrão no domingo -, o legal era que minha mãe me deixava, literalmente, pôr a mão na massa! Ou melhor, nas massas. Redondas de mozarela e alho (meu pai adorava!); talharim fino ou largo, que eu passava na máquina; nhoque; ravióli. Tudo era feito em casa - da mágica mistura de ovos e farinha aos deliciosos molhos. Foi minha iniciação culinária. Aos 12, eu já fazia sobremesas e bolos de aniversário, a partir de receitas testadas por mim. E até hoje cativar alguém pelo paladar é meu hobby. Herança de minha mãe e minhas tias, que recheavam de delícias italianas os nossos sentidos nos almoços de domingo e festas tradicionais, como o Natal.

Não há como negar que nossa memória afetiva a toda hora traz à tona os sabores e receitas de família. E, seja para resgatar prazeres da infância, seja para se esmerar nos pratos do momento ou optar por uma dieta saudável, o que se vê hoje é um número cada vez maior de interessados em levar o melhor da gastronomia para a vida privada. No ambiente restrito, pode- se conversar, partilhar tarefas, promover intercâmbio de receitas e beber um bom vinho a preço justo.

"Esses encontros modernos remetem aos simpósios da Grécia antiga, exclusivos dos homens. Numa sala, eles se reuniam para beber e discutir ideias filosóficas, éticas e morais", afirma Sandro Dias, professor de História da Gastronomia do Centro Universitário Senac - Campus Águas de São Pedro. "Já os romanos vão misturar a cena (ceia) ao simpósio, que terá um forte componente político. Por meio do banquete, aberto às mulheres, os políticos faziam valer sua vontade", afirma ele.

Sandro enfatiza que cozinhar é uma atividade humana por excelência. "As questões de tradição surgem a partir do ato de cozinhar. A partilha da comida é o primeiro gesto de fraternidade e cordialidade, e é por meio dela que nos tornamos iguais", diz.

Ato sagrado


Talvez por isso não há quem não se lembre daquela torta da vovó, do bolo de chocolate da tia ou do feijão da mãe, invariavelmente acompanhados de um sorriso. Aliás, até recentemente, a responsabilidade pela alimentação recaía sobre a dona de casa. "A mulher ia sozinha para a cozinha, era como uma prestadora de serviços. Aí, se revoltou e saiu para trabalhar. Agora tanto mulheres como homens perceberam que cozinhar é um ato sagrado, que une a família, e que é preciso agradecer por esse tempo, esse compartilhar. Quer coisa melhor que tomar um bom vinho com amigos, com um aperitivo, enquanto conversam e preparam juntos os pratos?", diz a engenheira de alimentos e chef Mayra Abbondanza Abucham, que, ao lado da prima, a jornalista e chef Patricia Abbondanza, comanda a empresa Dedo de Moça, em São Paulo.

Oriundas de um clã que trouxe da Itália a paixão pela gastronomia - os tataravós fundaram aqui um pastifício e os pais de Mayra, uma rede de restaurantes -, elas aliaram o prazer de comer e preparar refeições à profissão e oferecem o serviço de personal chefs. Tratase de uma consultoria que, justamente, apoia quem quer comer bem em casa: do cardápio, a partir das necessidades e vontades expostas pelos clientes, às receitas, organização da despensa e da geladeira, ao treinamento de quem vai efetivamente pilotar o fogão.

"É comum pedirem para a gente reproduzir um prato que era da mãe, da avó, e irmos atrás da receita certa", conta Mayra. "E, como cozinhar virou programa, muitos de nossos clientes têm duas cozinhas, uma para o dia a dia e outra para o entretenimento." Casada e mãe de três filhos, a própria Mayra é adepta do espaço especial para os encontros regados a boa comida, onde introduz suas crianças no mundo de sabores.

Afinidade e profissão

"Enxerida" na cozinha desde criança, quando acordava cedo para ir à feira com o pai, o mestre-cuca da casa, Tatiana Damberg também fez de sua afinidade uma profissão. Primeiro cursou psicologia; daí partiu para a gastronomia e, como gosta muito de escrever, criou um blog culinário, o Mixirica (http://mixirica.uol.com.br/), e hoje atua principalmente com a criação de receitas e produção de fotos de comi da para editoriais e embalagens de alimentos. Há poucos meses em seu novo apartamento, que funciona como um miniestúdio - a cozinha ligada à sala tem amplo balcão branco para acomodar os quitutes -, Tatiana é do tipo que acredita que "casa não é casa se não tiver cheirinho de bolo". E de café também, que ela logo fez questão de servir, junto com a criação que ilustrou a homepage do blog, o cremosíssimo Cheese cake de Mixirica com Chocolate. "Acredito em todos os rituais que envolvem a alimentação. Meus avós vieram da Letônia, então, em casa sempre teve aquela comida que marca época. Na Páscoa, era o coelho falso - bolo de carne moldado em forma de coelho, com cenoura na boca e orelha de folha de louro -, e não há Natal sem o cheiro forte do biscoito de pimenta", afirma Tatu, como é conhecida. "Na minha família, até hoje, a hora de comer é a hora em que se conversa de verdade. Comer em casa traz liberdade e intimidade e coloca os cheiros na casa."

Praia é só sabor


De ascendência italiana e também influenciado pela gastronomia familiar, o empresário Leo Levorin começou a cozinhar bem cedo e igualmente compartilha suas experiências gastronômicas na rede, mas por puro deleite. "Aos 16 anos, eu e meus primos fizemos uma casa na praia só para os jovens, de um quarto só, para não ir nem pai nem mãe de ninguém. Só comíamos churrasco e, claro, enjoamos. Então comecei a cozinhar arroz, feijão, macarrão, frango assado, nhoque. Serviu de exemplo e os outros passaram a ajudar. Bateu na gente aquela lembrança da comida da ‘nonna’, das ‘zias’, da ‘mamma’, ou seja, a vontade de continuar comendo bem. Sabe como é, fomos mal-acostumados, com macarrão e molho feito em casa", brinca Leo.

De lá para cá, Leo incrementou cada vez mais seus conhecimentos culinários e é famoso entre os amigos por suas "pizzadas". É fascinante chegar a sua casa na praia de Santiago, no litoral norte de São Paulo, e ver pendurado numa das árvores o saquinho de algodão com o tomate processado - um "truque" para que a água do fruto escorra bem e não molhe a pizza.

Com habilidade profissional, o empresário abre e assa as massas, falando com orgulho do forno, obra de arte de um especialista, a um preço justo. Minha pizza preferida foi a de escarola. Já a de catupiry foi a eleita da garotada - estavam lá seus filhos, um casal de adolescentes, com uma turma. Excelentes, as redondas não são as únicas especialidades do empresário que, generoso, dispõe receitas e fotos em seu blog (http:// tabembom.blogspot.com/).

São João com petit gâteou

No feriado que coincidiu com a noite de São João, tive a grata surpresa de me juntar à família na cozinha. E veio de um sobrinho, que nunca havia visto no fogão, a novidade culinária: o petit gâteau de chocolate e doce de leite, que se juntou aos pratos típicos juninos. Pode? Claro que sim

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