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Meditação

Comer comendo Prestar atenção ao que se mastiga faz bem à saúde e ainda alimenta o espírito
Responda depressa: você janta assistindo ao Jornal Nacional? Toma café da manhã de pé porque vive com pressa? Não consegue nem lembrar o que comeu no almoço de ontem? Se você disse sim, confesso: somos dois. Na maior parte das refeições, não consigo comer comendo, isto é, saboreando o alimento com gosto e atenção. Ou mergulho em pensamentos ou me disperso com conversas, música e televisão. Ao comer perco completamente a atenção no momento presente, que tanto saboreio no resto do dia. É meu calcanhar-de-aquiles espiritual.

Não é falta de bons exemplos. Fui casada (anos e anos) com um chef e descendo de uma família de hoteleiros europeus. Portanto, mesa, em casa, era sempre com arranjo de flor, toalha combinando com a porcelana, copos de cristal. E com pratos de dar água na boca. Porém, se deixar só por minha conta, estando eu sozinha e sem compromisso, prefiro mil vezes o popular misto quente com picles na frente da tevê – pura preguiça de quem se habituou a mordomias.

Mas se você, como eu, também não se liga na hora de comer, sou obrigada a compartilhar uma constatação: alimentar-se assim não é bom. Quem come sem perceber o que manda para o estômago acaba engolindo mais do que precisa, não mastiga direito os alimentos e tem mais dificuldade para digerir. Assim, mais pela saúde e paz de espírito, decidi procurar uma maneira de me alimentar com mais atenção – que não exigisse pratos elaborados. E fui procurar quem entende do assunto.

Não mude nada
Esse é o primeiro conselho de Alicia Negri, professora de orioki (a arte de comer meditando) do grupo de meditação Shambhala, de São Paulo. Espera lá, meditação? O que tem isso a ver com comer? Bom, meditar tem a ver com qualquer coisa. Meditar, é bom lembrar, não é sentar-se em posição de lótus com os olhos fechados. Isso é só uma técnica. Meditação é um exercício de atenção plena, é estar consciente a cada bocado da vida (inclusive à mesa), sentindo o corpo e o ambiente ao redor, sem se perder em pensamentos. Corpo e espírito saem alimentados desse exercício, como já comprovou a ciência (meditar adiciona ao sangue uma pitada de substâncias que causam bem-estar, diminui a dose de hormônios do estresse, engrossa o caldo do sistema imunológico, fermenta a concentração e mais um monte de coisas).

No primeiro contato, Alicia, que é mestre-cuca em meditação, me pede para não modificar nenhum hábito. Sugere apenas que eu traga mais consciência e atenção para tudo o que fizer durante a refeição. Só isso. Quando ouço suas palavras, estremeço. Pressinto que meus dias de saborosa inconsciência diante da tevê estão contados.

Tento seguir sua receita já no dia seguinte, na hora do almoço. Ligo as antenas e percebo que, quando começo a pôr a mesa, todo o meu ser pede mais simetria nos arranjos de copos, pratos e talheres. Atenção e descuido decididamente não vivem em comum. O curioso é que o desejo de arrumar a mesa vem de dentro, não é fruto de uma imposição qualquer, seja do marido, da família ou da sociedade. É quase instintivo. Vejo também que acompanho os movimentos das minhas mãos, que fico mais atenta às sensações do meu corpo. É como se estivesse me vendo colocar a mesa de um ponto fora de mim. Extraordinário. A atenção continua me pedindo mais beleza e simetria. Começo a imaginar até a possibilidade de arranjar uma flor para colocar num vasinho.

Dou um pulo no jardim, colho um maço de manjericão e hortelã e faço um arranjo. Toalha e pratos brancos, folhas verdes. E não é só. De repente lá estou eu a procurar guardanapos com detalhes verdes para combinar com o resto. Quem diria. A atenção faz brotar dentro de mim um desejo de harmonia. Alicia tinha razão. Não é preciso fazer nada intencionalmente. A atenção, sozinha, inspira tudo o que precisa ser feito.

Ouça a comida
“Comer inclui todos os sentidos e não só o gosto”, afirma Alicia na segunda vez que nos falamos pelo telefone. Ela me diz que gosta de colocar alimentos crocantes aqui e ali na refeição (amêndoas ou amendoins torrados, maçãs verdes, salsão e até batatas chips) para despertar os ouvidos para a audição interna. Comecei a prestar atenção no “crunch-crunch” da erva-doce da salada, no barulhinho da granola no café da manhã, no croque da primeira mordida no pão fresquinho. Lembrei que antigamente, no Japão, os mestres de meditação tinham a audição desperta até para o som que o papel faz ao se virar uma página de livro ou para a diferença do barulho dos seus passos em diversos tipos de chão.

Quase por encanto, ao observar minha audição, os outros sentidos também despertam. Uma coisa puxa outra. Percebi, por exemplo, que gosto muito mais do cheiro do café que do café, do cheiro da pipoca que da pipoca. Notei também que preciso ver muitas cores nos alimentos porque, do contrário, sinto que não estou me nutrindo de algo fundamental. E é exatamente das cores, me diz Alicia. “Alimentamos-nos delas, tanto quando da comida”, afirma. Indianos e chineses, por exemplo, pedem no prato a presença de cinco cores (amarelo, verde, vermelho, preto e branco) e cinco sabores (amargo, azedo, doce, salgado e picante). A variedade é um estímulo a mais para se manter a atenção desperta. A rotina, um convite ao entorpecimento. Se for difícil ter todas as cores e sabores numa refeição, é possível aprender a desfrutar daquelas que estão presentes naquele momento.

Um último detalhe: estar mais consciente durante as refeições com certeza também vai modificar seu gosto com relação à qualidade dos materiais de copos e talheres. Com a atenção alerta, o que é grosseiro, feio e malfeito passa a incomodar muito. E vamos admitir: quem não se arrepia com o ruído da faca cortando um bife num prato de vidro?

Comendo impressões
O mestre armênio Georges Gurdjieff (1866-1949) dizia que nos nutrimos de três alimentos principais: comida, ar e impressões. Isso mesmo: impressões, aquilo que nos chega por meio dos sentidos. Ele também afirmava que podemos ficar um tempo sem comida e alguns minutos sem ar, mas nem um único segundo sem impressões. Elas estão constantemente nos alimentando. Isto é, segundo Gurdjieff, ao dar sua garfada de arroz com feijão diante da tevê vendo as cenas da guerra do Iraque, você engole junto todas as impressões – e emoções negativas – que você associa à guerra do Iraque. Salgado, não?

Tenho certeza de que meu melhor amigo não sabe disso. Ele é médico e não tem o mínimo escrúpulo em detalhar sua última cirurgia à mesa, não importando se o prato principal é galinha ao molho pardo. Também já ouvi de um namorado várias descrições de suas brigas com a ex-mulher durante a entrada que acabavam em sentidos soluços na sobremesa (e às vezes eu havia gasto horas fazendo o jantar...). Tem gente que não vê relação entre o que está dizendo ou ouvindo com aquilo que está comendo, como se estivesse completamente desconectada do momento presente. Aliás, como se estivesse não, está mesmo.

Até eu, que sou aquele horror que vocês já sabem, levanto para desligar o telejornal se o assunto pesa. O problema é que sempre pesa. Com atenção afiada, então, fica impossível. Notícias, portanto, só antes do jantar ou às 10 da noite, depois da digestão. Ou, melhor ainda, no dia seguinte.

Outra modificação fundamental: com atenção, a gente senta direitinho, com postura correta, mesmo se não houver ninguém olhando (você já deve estar se arrumando na cadeira). Percebo encantada que a elegância chega junto com a atenção, é seu efeito colateral principal. E ninguém precisa mandar ou ensinar. Estética e porte são seus derivados naturais.

Depois de falar pela última vez com Alicia e ela me dizer que meditar é apenas prestar atenção plena a algo, me veio uma cena do filme Corrida do Ouro, com Carlitos. Faminto e ilhado pela neve no alto de uma montanha, ele é obrigado a comer a única coisa que restava para mastigar por ali: uma velha botina. Mas com que elegância Carlitos põe a mesa, arruma os pratos e come aquela botina, com que graça lambe seus cadarços, com que delicadeza corta sua sola em pedacinhos... Poderia jurar que ele estava meditando, sem nenhum outro pensamento na mente a não ser desfrutar com toda atenção daquela delícia. Pensando bem, sim, é possível comer meditando com misto quente e picles.

Meditação na Água De volta ao útero
Água morna, a música suave da respiração, músculos relaxados, calma, aconchego. Perde-se a noção do tempo, do espaço e o momento presente é feito de suavidade e prazer. “A meditação na água traz de volta a felicidade do útero, a existência anterior às preocupações. Nesse estado, memórias registradas no corpo se desmancham e antigas dores se desfazem”, afirma o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, um dos mais entusiasmados defensores dessa técnica. “Em poucos minutos diários de prática é possível obter instantes de compreensão que talvez levassem anos de análise para acontecer.” Segundo Gaiarsa, a ausência de gravidade poupa o cérebro de um dos seus mais árduos trabalhos: manter o equilíbrio do corpo. “O ser humano é o único animal que tem a posição ereta e isso exige uma atenção contínua, um grande esforço do qual sequer nos damos conta.” Ele recomenda fazer a meditação na água de bruços, com um flutuador na parte baixa da barriga, além de um snorkel (máscara de mergulho com tubo de respiração).

A posição fetal pode ser ainda mais transformadora, já que remete o praticante aos áureos tempos de barriga da mamãe. “O ideal é que a temperatura da água seja morna, por volta de 27 graus”, diz ele. “Assim, o corpo não perde e nem ganha calor, num estado metabólico ideal.”

 

Passo a passo Com concentração no momento presente e respiração consciente é possível meditar até quando caminhamos
Em que você pensa durante o trajeto que faz até seu carro e do carro para o trabalho? Quando anda até a padaria? No momento em que caminha até o clube? Normalmente a cabeça já está lá em nosso destino, pensando no relatório que está atrasado, na comida que se vai saborear, nos amigos que vamos encontrar. Ou então em algo que já aconteceu e que ficou martelando na cuca enquanto andamos. Andar nem é a melhor expressão para usar aqui, já que quase sempre estamos correndo, marchando para dar conta das atividades do dia.

Se você está cansado de andar assim apressado, saiba que a solução para esse dilema moderno não está em fazer tudo mais rápido ou em gerenciar melhor a vida. Isso pode ajudar, claro, mas, pelo menos no caminho entre um compromisso e outro, há um jeito mais simples de evitar a ansiedade: meditar. Meditar andando. “Quando praticamos a meditação andando, chegamos a todo momento. Nosso verdadeiro lar é o momento atual. Nele, nossas queixas e preocupações desaparecem e descobrimos a vida”, diz em seu livro Meditação Andando o monge vietnamita Thich Nhat Hanh, grande divulgador da prática (veja sua história na página 33). O que ele quer dizer é que, quando andamos, devemos simplesmente andar e contemplar o momento presente. Claro que, se estivermos num parque ou numa linda praia deserta, a prática fica mais fácil. Eu mesma a experimentei algumas vezes em um calmo retiro de meditação. Mas o grande desafio é levar essa prática para as ruas movimentadas da cidade e aos corredores do trabalho. Conversei com praticantes experientes que explicaram como chegar lá – sem tropeços.

Primeiro passo
No começo, treinar com grupos em lugares calmos ajuda bastante. A monja budista Coen explica que andar com mais pessoas tem lá suas vantagens. “O ser humano tem tendência a ser preguiçoso e deixar as coisas sempre para o outro dia. Quando estamos em grupo, ele serve como um apoio, um incentivo para a prática.” Coen conduz dezenas de pessoas na meditação andando que faz no Parque da Água Branca, em São Paulo, um fim de semana por mês. Mas, se você não tem um grupo de prática nem um parque por perto, pode usar outros espaços, como a sala da sua casa, o quintal ou pátio do prédio onde você mora. “O importante é perceber que nossa vida está no lugar onde estamos e não naquele para onde vamos – ela está onde nossos pés estão.”
Foi isso que perceberam os monges budistas há cerca de 2 mil anos nos mosteiros: durante os intervalos das meditações sentadas eles saíam para andar e, assim, aliviar as pernas, que ficavam muito tempo paradas. E viram que, durante a caminhada, também era possível aquietar a mente – que é o objetivo da meditação.

De lá para cá, essa meditação foi incorporada por outras tradições e escolas de yoga, além de ser uma prática constante de grupos budistas, como o do monge vietnamita Thich Nhat Hanh. “Ele conseguiu transportar os grandes ensinamentos espirituais para os hábitos do cotidiano, como a meditação andando, que pode ser praticada em qualquer lugar”, diz a atriz Odete Lara, que deixou a carreira para se dedicar ao budismo. Odete conheceu o monge em 1981, em um mosteiro da Califórnia, e traduziu seus primeiros livros no Brasil. “Nós, ocidentais, temos uma certa dificuldade para ficarmos sentados em meditação, parados. Por isso, a caminhada é uma boa opção”, diz Odete.

Respiração consciente
Antes de sair batendo perna por aí, saiba que existem alguns conselhos preciosos para a meditação andando dar certo. A postura é importante: mantenha sempre o quadril encaixado e a coluna ereta. Com o corpo relaxado, preste atenção na respiração – ela é um elo entre o corpo e a mente. Durante a caminhada, um exercício simples é, ao inspirar, dizer para si mesmo “inspirando” e, ao expirar, dizer “expirando”. Outra técnica é contar os passos dados a cada movimento respiratório. Não tente controlar nem se esforçar. Deixe seus pulmões dizerem o tempo e a quantidade de ar que precisam para um caminhar suave e confortável. E observe quantos passos você dá enquanto seus pulmões se enchem e quantos passos dá enquanto esvaziam. A duração da inspiração não tem que ser a mesma da expiração. Evite conversar, para não dispersar.

Nas minhas primeiras semanas de meditação andando pela cidade, tive vontade de observar crianças brincando, canteiros e construções. A monja Coen havia dito para eu manter o olhar para a frente e, caso ficasse com vontade de ver alguma coisa, eu deveria parar, contemplar e depois continuar com a caminhada. Mas o que fazer com os pensamentos que pipocavam o tempo inteiro na minha cabeça? “Os pensamentos surgem, você os observa e depois volta para o momento presente”, disse Coen. “A impressão que as pessoas têm é que a gente desliga do resto, mas é o oposto: sentimos a presença de tudo, com todos os canais de percepção abertos, mas sem julgar.”

Desacelerar o passo
Thich Nhat Hanh diz que, como os bebês, precisamos aprender a andar de novo – de maneira mais vagarosa, com mais alegria e naturalidade. “Se prestar atenção, poderá observar todas as preocupações e ansiedades das pessoas impressas no chão enquanto andam. Nossos passos são em geral pesados, cheios de apreensão e medo”, diz o monge. Um jeito de reeducar cada passada é ficar atento ao contato dos pés com o solo. Existe até uma imagem poética para essa interação: caminhar como se estivesse beijando a terra com os pés.

Não importa tanto a velocidade dos passos: você pode andar lentamente, pé ante pé, e sua cabeça estar num tumulto, ou andar mais rápido e sentir prazer nisso. O importante é estar consciente. “Não devemos ser tão rígidos, por isso existe o caminho do meio. Uma das minhas melhores caminhadas aconteceu quando não me preocupava com nada, nem com a respiração nem com os passos – apenas desfrutando minha caminhada, aquele momento”, diz o monge Phap Nhan, da comunidade Thich Nhat Hanh do mosteiro de Maple Forest, nos Estados Unidos.

Confesso que no começo das minhas andanças eu meti os pés pelas mãos, dispersei um bocado, trombei com algumas pessoas, me distraí com outdoors e buzinas. Mas, depois, senti um certo alívio ao parar de pensar o tempo inteiro só no meu destino e nas intermináveis coisas que sempre tenho que fazer. Nem sempre acordo com o pé direito, mas aprendi a ficar menos ansiosa e a apreciar mais o meu andar. O monge Phap Nhan disse que uma maneira de saber se você está praticando bem é sentir muito prazer ao caminhar. A prática está fazendo efeito.

Para saber mais
Meditação Andando, Thich Nhat Hanh, Vozes
Caminhos Para a Paz Interior, Thich Nhat Hanh, Vozes
Paz a Cada Passo, Thich Nhat Hanh, Rocco
Comunidade de meditação do mestre Thich Nhat Hanh na França, www.plumvillage.org

Thich Nhat Hanh
Em todos os livros do monge vietnamita Thich Nhat Hanh há um ensinamento que é sempre destacado: a importância da conscientização de cada ato da nossa rotina diária. Para ele, a meditação não se dá apenas nos centros, mas nos pequenos atos do dia-a-dia, como ao arrumar a cama ou ao andar. É a importância do engajamento pessoal, do qual ele é um grande exemplo com sua própria história de vida. Thich Nhat Hanh nasceu na região central do Vietnã em 1926 e foi ordenado monge zen-budista com apenas 16 anos. Durante a guerra no Vietnã, renunciou ao isolamento monástico para ajudar seu povo ativamente. Criou junto a um grupo de professores e estudantes universitários a Escola da Juventude para o Serviço Social, na qual equipes de jovens ajudavam a fundar nos campos escolas e clínicas de saúde e a reconstruir os lugarejos destruídos pela guerra. Trabalhou pela conciliação entre o Vietnã do Norte e o do Sul, o que o levou ao exílio em 1966. Viajou pelo mundo para conversar com líderes de diversas nações em defesa da paz e seus ideais fizeram com que Martin Luther King o indicasse para o Prêmio Nobel da Paz em 1967. Hoje, vive no sul da França, em Plum Village, um centro fundado por ele em 1982, onde a prática de meditação andando é diária.

Brincar de meditar Com jeitinho, dá para ajudar o pimpolho a desenvolver práticas contemplativas
Em vez de passar os dias preenchendo os horários com judô-natação-inglês-balé-computação-escola, há crianças que reservam alguns minutos diários para a meditação. Sim, meditação, aquele ato consciente de retirar-se, normalmente em quietude, que parece impensável para seres tão ligados no 220 como crianças. Mas elas podem, sim, meditar. E fazem isso com prazer, desde que o ato de meditar não seja mais uma obrigação – como o judô-natação-etc.-etc. a que muitos pais submetem seus filhos.

Se você já imaginou aquele moleque que não larga o videogame transformado num anjinho sentado em posição de lótus, repetindo mantras por horas, calma lá. Embora tenha, em linhas gerais, os mesmos objetivos e benefícios que traz para os adultos, a meditação para crianças segue três regras básicas. A primeira delas é que a criança não deve se sentir obrigada a praticá-la. A segunda é que o baixinho deve meditar por pouco tempo, alguns minutos apenas – as crianças se distraem muito. A terceira dica é que toda meditação deve seguir uma orientação de adultos, pelo menos no início.

A criança não “aprende” a meditar e nem, quando os pais dizem “é hora de meditar”, ela, como por mágica, vai para o quarto e começa a prática, como se estivesse estudando para a prova de ciências. Não é assim. O ideal é que haja uma evolução natural: a criança começa com um minuto por dia, depois de ouvir uma história ou seguindo uma orientação passo a passo. Algo suave como: “Feche os olhinhos, pense no ar que está enchendo o seu peito, conte... ar entrando, ar saindo... ar entrando, ar saindo... agora preste atenção no toque do sino...” E por aí vai. A intenção é levar a criança a um estado ainda mais avançado que o do simples relaxamento; é como se o cérebro se desligasse de pensamentos por alguns momentos.

Depois de meditar por um minuto num dia, o pequeno pode conseguir por dois minutos, três, quatro. Em seguida, pode ter vontade de fazer por conta própria, quando quiser. Acredite: não é impossível. Com os gêmeos Bruno e Gabriel Damásio, de 10 anos, meditar faz parte do dia-a-dia. “Outro dia um deles me disse que às vezes repete um mantra durante a aula ou no intervalo”, conta a mãe, Luciana Damásio. Os meninos foram introduzidos muito cedo no budismo tibetano, mas sem obrigações: nunca foram ensinados a meditar, o interesse apareceu por conta própria.
Também foi assim com Alexandre, de 7 anos, filho da artista plástica Fernanda Valadares. “Eu gosto muito de repetir mantras, parece que eu fico descansado, é gostoso”, conta o menino. A mãe diz que Alexandre se aproxima espontaneamente enquanto ela está meditando com mantras. “Às vezes ele fica por um tempo até surpreendente, mais de 10 minutos”, relata Fernanda.

Olhar interior
E para que uma criança medita? Porque, como os adultos, elas também sofrem com o estresse diário, mesmo que não pratiquem judô, natação e outras 20 atividades semanais. Elas precisam escapar das preocupações – a proximidade de uma prova ou a desavença com um colega, por exemplo – e podem aprender a se conectar consigo mesmas. Verdade que a infância é momento de gastar energia e descobrir o mundo exterior. Mas há quem defenda a meditação por considerar que as crianças hoje estão superexpostas a estímulos externos. A prática ajuda a torná-las mais concentradas e relaxadas – e quem convive com os pimpolhos sabe o quanto isso pode ser benéfico
.
“Quando aplicada corretamente, a meditação ensina a criança a ter autocontrole”, diz a psicóloga norte-americana Deborah Rozman, autora de Meditação para Crianças. Segundo ela, estudos comprovaram que a meditação ajuda pequenos muito inquietos a controlar o temperamento. “Crianças arteiras ou hiperativas têm mais dificuldade de meditar, mas são extremamente beneficiadas quando conseguem”, completa Márcia de Luca, fundadora do Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda (Ciyma), de São Paulo.

Desligar-se por alguns minutos dos problemas passados e futuros tem efeitos físicos e psíquicos comprovados por diversos estudos. A meditação ajuda a liberar endorfina, que produz sensação de bem-estar, ao mesmo tempo que diminui a produção de adrenalina (que, nas crianças, está sempre lá em cima) e cortisol (hormônio ligado ao estresse). “Cinco minutos de meditação antes da aula ajudam a criança a absorver o aprendizado”, diz Márcia de Luca, que já deu orientação a professores.

Uma bela maneira de colocar a criança em contato com a meditação é através de atividades lúdicas. No templo de budismo tibetano Odsal Ling, em Cotia, acontece no primeiro domingo de todo mês a Ciranda do Dharma, voltada para crianças de 5 a 11 anos. O lama Norbu conta histórias com algum princípio budista e depois faz atividades relacionadas. Por exemplo: quando foi contada a história do padeiro sovina que aprendeu a dividir o pão, as crianças da Ciranda fizeram diversos pães.

No final, há meditação e recitação de mantras. Coisa rápida, que as crianças adoram. “Usamos algum instrumento de apoio, como um sino, para ajudar no foco da meditação”, explica o lama Norbu. No budismo tibetano, a meditação é feita por meio de um mantra ou verso indicado para cada pessoa. “Tradicionalmente, as crianças não recebem treinamento para a meditação antes dos 11 anos, mas, com orientação adequada, práticas simples de meditação podem ser introduzidas para crianças menores.”

A idade ideal para começar a prática não é consenso entre os iniciados. Um conceito muito utilizado é o de que a criança está pronta para meditar quando consegue acompanhar uma história, prestando atenção – algo como assistir a O Rei Leão até o fim. “Minhas crianças começaram com 4 anos”, diz Susan Kramer, norte-americana que começou a trabalhar essa meditação em 1965 e é autora de livros sobre o assunto, nenhum deles traduzido no Brasil. Ela diz que basta colocar a criança deitada de costas, “relaxada como uma boneca de pano”, para iniciar uma meditação guiada. “Contar a inspiração e a expiração duas vezes já é um começo.”

Márcia de Luca acredita que a meditação pode ser introduzida por volta dos 8 anos. O método de Márcia é o difundido pelo guru indiano Deepak Chopra, no qual se repete o que ele chama de som primordial individual, escolhido a partir da hora e do local de nascimento de cada pessoa.

Mais importante que descobrir quando começar é perceber quando se deve parar. Se a criança não se interessa pela meditação, não vale a pena obrigar ou se chatear. Ela pode se interessar pelo assunto mais tarde. Ou não. Só não pode achar que a prática é uma obrigação a mais no dia-a-dia. Isso iria contra todos os possíveis benefícios da meditação.

Retire-se Reserve um tempo só para você e aproveite as surpresas que um retiro pode trazer

Antes de começar a ler esta reportagem, queria convidar você a fazer um exercício. Experimente ir para um canto tranqüilo onde ninguém incomode por um tempo. Desligue o celular e certifique-se de que o lugar não seja barulhento. Leve papel e caneta. Preparado? Então vamos lá. Escreva no papel uma lista das coisas que você tem que fazer e que o estejam preocupando. Pense nos pepinos da casa, nas contas a pagar, nas tarefas do trabalho, nos desentendimentos dos seus relacionamentos, não deixe escapar nada. Pensou? Agora liste as situações que já aconteceram e que continuam atormentando por terem ficado mal resolvidas em algum canto lá no passado. O arrependimento por ter dito aquilo a um parente, o resultado do exame, tudo. Pronto? Certo. Se você fez a lista a sério, estão aí, na sua frente, todos os motivos para suas preocupações. Nesse papel está o conteúdo da maioria dos seus pensamentos. Bom, o exercício começa agora. Olhe bem para a lista e imagine dar férias de um dia para essas pendências. Sim, eu sei que são todas coisas muito importantes, que você não pode ignorar. Você vai voltar a elas, sim, mas só depois de amanhã
.
Pare um pouco. Sinta como é ficar livre, mesmo que por um instante, de todas essas preocupações. Que tal? Sem as pendências, o que sobra em você, o que fica? Bem, o que fica é... você. Isso mesmo. Essa é a grande descoberta de quem resolve dar um tempo e jogar as perturbações do cotidiano para escanteio: entrar em contato imediato consigo mesmo. Afinal, se nossa mente fica o tempo inteiro conectada às coisas que estão fora da gente, não damos nenhuma chance para nos observarmos internamente. Os retiros de meditação servem exatamente para isso: abrir uma brecha nas preocupações com o mundo para se preocupar com você.

Coisas de menos
Você deve estar se perguntando para que é preciso se afastar por um tempo da rotina. O que ocorre é que vivemos entre estímulos demais: há sempre coisas demais para fazer, distrações demais, barulho demais, problemas demais para resolver, escolhas demais. Precisamos sempre ir a mais lugares, querer mais coisas. Não é de espantar que cada vez mais pessoas busquem esses momentos de retiro, de solidão. O psicoterapeuta americano David Kundtz explica que nos acostumamos a lidar com o excesso de coisas a fazer de duas formas: ou tentamos encaixar diversas atividades apertando-as no espaço de tempo do dia ou então cortamos algumas atividades do cotidiano, elegendo as prioridades. Mas, segundo David, já chegamos a um ponto em que não conseguimos cortar mais nada e mesmo assim sempre restam coisas a fazer. Esse exagero, além de gerar estresse, nos afasta de nós mesmos.

A solução, diz ele, é aprender uma atitude simples, mas revolucionária: dar uma parada. Mas, veja bem, aqui o sentido de parar não é o de fugir da vida, jogar tudo para o alto ou evitar responsabilidades. Pelo contrário, é entrar na vida e suas responsabilidades de uma maneira nova: percebendo o que é realmente importante, quais são nossos valores, e trazê-los para o cotidiano. “Parar é ficar sem fazer nada por um período definido, com o propósito de se tornar mais desperto e saber quem você é”, diz David em seu livro A Essencial Arte de Parar (editora Sextante), uma espécie de guia para quem quer pisar no freio.

Essa prática, a bem da verdade, não é nada nova. Todas as tradições religiosas estimulam essa atitude de parar e ficar sozinho, em meditação, como algo necessário para uma vida mais plena. “No cristianismo é só lembrar o exemplo de Jesus, que freqüentemente passava longos períodos isolado. No budismo temos Sidarta, o Buda, que saiu do seu palácio e buscou sozinho na meditação a paz que procurava. E não podemos esquecer que, no islamismo, Maomé também se isolou”, diz Fernando Altemeyer, teólogo e cientista da religião, ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Mas, por favor, não se intimide pela estatura espiritual dos exemplos acima. É possível retirar-se e meditar sem querer ser um novo profeta. “O que dá significado ao retiro é que quase sempre ele vem acompanhado de uma busca da interioridade. Quando isso não acontece, a pessoa apenas está viajando ou praticando o ócio”, diz Altemeyer. Essa busca interior é o objetivo dos retiros de meditação, que podem ser feitos em alguma tradição específica ou não, em grupos ou sozinho, em casa ou fora, e durar de um dia a semanas. O que vale é perceber que a felicidade não está no mundo externo, nos outros, e sim dentro da gente.

Usufruir da solidão
Um dos objetivos de se retirar é ficar só, sem os elementos que nos conectam ao dia-a-dia. Isso serve para aprendermos a ficar mais à vontade a sós com a própria companhia, a nos conhecer melhor e a gostar mais de nós mesmos. “Quem decide fazer um retiro deve estar disposto a se desvencilhar de todos os contatos externos e do apego à família e amigos para dar um mergulho na sua própria essência e, assim, vivenciar o aqui e o agora profundamente”, diz Moacir Mazzarial, professor do templo budista Zu Lai, em Cotia, que fica a uma hora de São Paulo. No templo têm lugar diversos tipos de retiro com atividades de meditação sentada, caminhando e até durante as refeições.

Os retiros guiados, como os do templo Zu Lai, são feitos em grupo. Mas muitas pessoas preferem ficar em suas próprias casas ou então viajar para o campo para ficar a sós com seus botões, o que certamente exige mais disciplina. “Quando a pratica é feita em um retiro, tem sempre alguém apontando as faixas da estrada para você não sair da rota. Agora, se ela é feita sozinho, você precisa de mais determinação. Mas, à medida que vai trilhando o caminho e percebe que a experiência é boa, você vai se autoestimulando”, diz Moacir.

Foi o que aconteceu com a produtora carioca Denise Chaer, de 28 anos. Por muitos anos ela participou de retiros nos Estados Unidos e na Índia. Há dois anos, decidiu fazer um retiro em casa. “Estava sem dinheiro e cansada, então aproveitei que meu pai ia viajar no Carnaval e fiz da nossa casa um retiro.” Denise acordava por volta das 9 horas, meditava por meia hora, tomava café da manhã, lia um livro sobre meditação, escrevia em um caderno tudo que vinha à sua cabeça e caminhava na praia no final de tarde. Mais: passou a semana sem falar com outras pessoas. “O grande segredo para o retiro dar certo é você estar disposto a fazer essa experiência – e se preparar para isso. Da mesma forma que nos preparamos para dar uma festa, pensamos no convite, cuidamos da comida, chamamos um DJ, você precisa se preparar e criar um bom ambiente para esse seu encontro com você” (leia dicas de como fazer um retiro sozinho na página 40).

Aprender a relaxar
Outro ponto importante na prática do retiro é aguçar a percepção no momento presente, em todas as ações. As distrações são inimigas da atenção. Se estamos sempre ocupados e sobrecarregados, a vida fica quase automatizada. Se não percebemos o que estamos fazendo ou por que estamos fazendo, se não temos consciência dos objetivos, estamos distraídos. O importante, então, é estar desperto e atento a cada momento. Com essa idéia em mente, a professora de ioga Lílian La Page criou um retiro com cursos de autoconhecimento e meditação no meio da mata Atlântica em Garopaba, Santa Catarina. “As pessoas vêm para repensar a vida e ficar mais conscientes do próprio corpo, das emoções, da respiração”, diz Lílian. E também para relaxar.

Lembra do excesso de estímulos, citado lá no início do texto? Uma das conseqüências dessa dose exagerada é o estresse. Por isso, aprender a desligar-se voluntariamente é crucial para o bem-estar físico e emocional. Se isso não ocorre, o corpo dá um jeito de fazer isso sozinho, por exemplo por meio de uma doença. Que o diga o economista Vítor Caruso, que chegou ao limite e desenvolveu um câncer. Ele descobriu na meditação uma ferramenta valiosa para viver melhor. “Com a prática, consegui entender o que é a paz interna. É preciso primeiro experimentar o que isso significa para poder transmitir e desejar isso para os outros. Um retiro pode trazer esse estado de paz”, diz Vítor, que hoje, recuperado da doença, coordena o centro Ciência Meditativa, em Curitiba. Lá acontece uma vez por mês no final de semana o retiro de um dia em silêncio, sem foco religioso, onde são alternadas as práticas de meditação sentada e andando.

Escutar o silêncio
O silêncio é outro benefício da prática. Ele é a regra de ouro do retiro de dez dias de meditação Vipassana, que tem lugar em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. Sim, dez dias. Durante esse período, ninguém fala. E pratica-se meditação por dez horas diárias. “O barulho externo impede que a gente escute nosso barulho interno. Quando fazemos silêncio conseguimos ir mais a fundo em nossa estrutura mental e escutar o que ela tem a dizer”, diz o praticante Lucio Lambert, que tem cinco retiros na bagagem.

Existe uma metáfora muito bonita para esse momento de pausa. Tome a vida como uma melodia. Toda melodia tem notas – os acontecimentos. Mas sempre há uma pausa entre duas notas. Porque é exatamente durante a pausa que a qualidade das notas – e o significado da vida – nasce. Sem a pausa, a canção seria caótica, como uma sirene. É por causa desse momento breve, em que uma nota da música cessa e outra surge, que uma melodia ganha significado e beleza.

Faça um retiro de fim de semana sozinho
• Marque a data do retiro na agenda, para se acostumar com a idéia. E para ter tempo de se planejar.
• Se mora sozinho, a experiência pode ser feita em casa. Se não, deixe para um período em que ficará só ou hospede-se em algum lugar tranqüilo.
• Avise amigos e familiares. A idéia é deixar o telefone desligado e o celular só para receber ligações em emergências.
• Deixe a despensa e a geladeira abastecidas, para não se distrair com compras
• Alimente-se com comidas leves, como frutas e sopas.
• Leve roupas confortáveis e o mínimo de coisas possível. Não se distraia com escolhas banais.
• Esqueça televisão, computador, rádio e qualquer outro apetrecho eletrônico que o conecte ao mundo externo.
• Escolha um lugar para a prática de meditação sentado e estabeleça uma disciplina de prática (meia hora de manhã e à noite, por exemplo).
• Exercite o corpo com caminhadas e aproveite para praticar meditação ao andar.
• Lembre-se de levar a atenção para todos os momentos do seu dia – ao tomar banho, ao comer, ao caminhar.
• Procure escutar o silêncio – e a si próprio.

Para saber mais
Ciência Meditativa, (41) 242-6699, www.cienciameditativa.com.br
Meditação Vipassana, (21) 2557-0173, www.portuguese.dhamma.org
Retiro Montanha Encantada, (48) 354-1890, www.yogaencantada.com.br
Templo Zu Lai, (11) 4612-2895, www.templozulai.org.br

 

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