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Tradição indígena

A sabedoria (quase esquecida) do povo nativo norte-americano

Texto: Karina Miotto

Todo ponto de vista era valioso e merecia ser ouvido durante as reuniões nas tribos

Em típicas cenas de filmes de faroeste, o caubói aparece valente com seu chapéu sobre o cavalo, segurando a rédea em uma mão e uma arma na outra, apontando-a para o indígena de pele morena e cabelos longos munido com seu arco e flecha. O mocinho enfrenta o primitivo – e o resultado é que o pouco que sabemos sobre os nativos norte-americanos vem filtrado nas telas de Hollywood. Agora esqueça a fantasiosa versão dos cinemas. Muito antes desses filmes, da descoberta das Américas e dos terríveis massacres dos colonizadores ingleses no século 18, esse povo praticava simples princípios de respeito à natureza e rituais intimamente ligados ao sentimento de gratidão.

Um conhecimento que está registrado em poucos livros e que sobrevive em pequenos grupos de descendentes. É que, dos mais de 5 milhões de nativos que habitavam os Estados Unidos em 1492, atualmente menos de 2,9 milhões vivem em diversas regiões do país e equivalem a apenas 0,97% da população americana, de acordo com o US Census Bureau. E a vida desses descendentes é bem diferente da de seus ancestrais. Muitos vivem abaixo da linha da pobreza em reservas determinadas pelo governo, outros foram para as cidades e alguns enriquecem com cassinos.

Porém, apesar da aparente distância de suas tradições, antigas cerimônias vêm sendo praticadas e alguns costumes, estudados, mantendo viva a sabedoria de um povo.

Reunião de respeito

Sentados em volta da fogueira, anciãos e guerreiros experientes reuniam-se para tomar decisões que afetariam toda a tribo. Ficar ao redor da Fogueira do Conselho tinha uma razão. “O poder que move o universo é circular. O céu, as estrelas, o sol, a lua e o planeta são redondos. As estações do ano vão e vêm e a vida do homem também é um ciclo”, afirma Black Elk, indígena lakota, no livro Black Elk Speaks, ditado a John Neihardt em 1932.

Atritos pessoais eram esquecidos – a comunidade vinha antes do eu. Além do crepitar do fogo que iluminava a noite, ouvia-se apenas a voz de uma pessoa, a que possuía o “bastão-que-fala”. Com ele em mãos, era permitido falar. Quem possuía a “pena-da-resposta” – quando a pedia – poderia responder. Os demais permaneciam calados, pois todo ponto de vista era valioso e merecia ser ouvido. Essa forma de organizar reuniões ensinava o respeito. Ao saber ouvir, além de respeitarmos as pessoas, refletimos mais antes de falar. E, como parte dos membros era anciã, isso demonstrava a confiança depositada na sabedoria dos mais velhos.

Lugar de poder

Os nativos sabiam que tudo no planeta está em interação. Como explica Noah Seath, mais conhecido como Chefe Seattle, no famoso discurso de 1854: “As flores perfumadas são nossas irmãs, os cervos, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, as seivas nas campinas e o homem, todos pertencem à mesma família. Somos parte da Terra e ela é parte de nós”. E, porque uma coisa está ligada à outra, cada centímetro da terra é sagrado e qualquer espaço pode servir de energização para alguém, explica Jamie Sams, estudiosa da cultura nativa americana no livro As Cartas do Caminho Sagrado.

E quando, por alguma razão, os índios sentiam que um cantinho era mais especial, batizavamno de “Lugar de Poder”. Cantavam, Ritutocavam tambores, dançavam, pois acreditavam que assim poderiam atrair virtudes pessoais. “A ligação com a terra favorece a energia necessária para que possamos desenvolver nossos dons, habilidades e talentos naturais”, afirma Jamie. Não por acaso, muitas pessoas procuram lugares na natureza com os quais sentem mais afinidade para relaxar a mente e o corpo: pode ser praia, montanha, cachoeira, perto de uma árvore, no quintal. Pense em um local de que você goste muito. Se ele o ajuda a refletir e a se sentir feliz, então esse pode ser seu lugar especial.

Os indígenas americanos compartilhavam experiências e agradeciam à natureza por meio de rituais. “Tudo é sagrado para nosso povo”, diz Arvol Looking Horse, indígena lakota e chefe pertencente à 19ª geração de guardiões dos conhecimentos nativos, que vive hoje em uma reserva da Dakota do Sul, nos Estados Unidos. Quer um exemplo? Quando as mulheres menstruavam, afastavam- se das atividades domésticas, partiam para a Tenda da Lua, uma oca separada do restante da tribo, e lá ficavam até o fim do período menstrual. Esse afastamento significava a oportunidade de religar-se à fertilidade da Terra.

Tempo de retiro e meditação, onde trocavam sonhos e experiências e refletiam sobre o que havia acontecido durante o último mês. Homens que desrespeitassem esse direito ficavam desmoralizados perante a tribo. Assim como as mulheres, eles se reuniam periodicamente para trocar idéias no Clã dos Guerreiros, onde elas não entravam.

Outra forma de compartilhar experiências é através do Pow-wow, popular até hoje. Nessa celebração, remanescentes de tribos do hemisfério norte se reúnem para cantar, dançar, realizar rituais, fazer novos amigos. Desde 1978, a First Nations University of Canada organiza Pow-wows entre diferentes etnias. A festa normalmente atrai 7 mil pessoas entre visitantes e participantes canadenses e americanos.

Cerimônia da doação

Imagine que em um determinado dia do mês você sempre consiga reunir certo número de amigos e familiares de diferentes gerações, cada um com seu pratinho de doce ou salgado, apenas para bater papo, juntar a criançada, trocar presentes. Essa era a oportunidade em que os nativos realizavam a Cerimônia da Doação, na qual as pessoas doavam aquilo que tinham de melhor: tempo para ensinar habilidades que possuíssem, como cozinhar, fazer um ornamento e meditar, além dos objetos pessoais de que mais gostavam. Porque é valoroso, eles acreditavam que era bom dividir com alguém. Dessa forma, honravam o outro ser humano com seu presente, explica o site da ONG Adopt a Native Elder Program, que cuida de nativos em idade avançada. Oferecer objetos em mau estado era desrespeitoso.

Os nativos também ensinam que ter um objeto e não utilizá-lo é não honrar seu poder pessoal. Livro não lido, roupa não usada, panela guardada. Talvez seja o momento de perguntar em que esses objetos estão auxiliando sua evolução. Uma atitude sábia é doar aquilo que está parado, para voltar a ser útil a alguém.

Agnes Baker Pilgrim, nativa americana de 84 anos, é considerada líder espiritual e faz parte do Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas. Desde 1994 realiza em Oregon, nos Estados Unidos, um ritual que ficou esquecido no tempo por 150 anos – o Ritual Sagrado do Salmão – em que as pessoas agradecem por terem esse alimento. De acordo com o livro Grandmothers Counsel the World, de Carol Schaefer, Agnes explica que preces de gratidão oferecidas a cada alimento são muito importantes. Looking Horse, quando come milho, faz uma prece ao “espírito” que produz os grãos, para que eles continuem a existir e assim alimentem as próximas gerações. Acreditam que nós, os duas- pernas (seres humanos), estamos sempre recebendo da Terra e raramente dando alguma coisa de volta. Agradecer é uma maneira de valorizar, afirma Agnes.

Na Tracker School, fundada em 1978 por Tom Brown Jr., um americano treinado por dez anos pelo chefe apache Stalking Wolf, as pessoas aprendem técnicas de sobrevivência e a filosofia dos povos nativos. No começo deste ano eu estava em Boulder Creek, na Califórnia, entre as 100 pessoas do curso básico. Foram sete dias de aprendizados intensos.

O maior legado daquela semana? Bem, aprendemos a agradecer. Como os indígenas, que agradecem à terra, ao ar, ao sol, à água, às árvores, aos animais, às plantas. E que, com sua simplicidade e sabedoria, já pensavam e praticavam muitos dos conceitos que estão sendo repensados hoje em dia.

LIVROS
As Cartas do Caminho Sagrado, Jamie Sams, Rocco
Carta do Cacique Sea.. le, Ted Perry, Versal Editores

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