Podemos dizer que o ser humano é um animal que pensa - e, portanto, pedala. Ou deveria: o uso regular da bicicleta melhora a capacidade respiratória, queima calorias, ajuda a prevenir doenças cardíacas, ativa a musculatura de várias partes do corpo (ao mesmo tempo que poupa as articulações, por ser uma atividade física de baixo impacto) e está relacionado a uma menor propensão a determinadas doenças crônicas, como o diabetes. "A bicicleta é um meio de transporte excepcional porque torna o passageiro ativo", diz Dan Oizerovici, médico do esporte do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo.
E nada de relegar as pedaladas somente aos fins de semana. Para a maioria dos médicos, a atividade física, seja ela qual for, deve fazer parte do dia-a-dia. O ideal - do tipo que deixaria seu cardiologista cheio de orgulho - seria inserir atividades físicas nos nossos quatro campos de atuação da vida diária: trabalho, lazer, afazeres domésticos e transporte. Viu só? A bicicleta cabe em ao menos dois deles: lazer e transporte. Agora, se você contar as visitas ao supermercado e à farmácia como atividades domésticas, ahã, olha só a bike outra vez. Mas, antes de sair pedalando por aí, é preciso um preparo mínimo, principalmente se você for sedentário.
Músculos em ordem O bancário Cristiano Carvalho Dantas da Silva, 28 anos, era um sedentário absoluto até um ano e meio atrás, quando, numa medida de economia, decidiu deixar o carro em casa e ir de bike para o trabalho - ele percorre 40 minutos por dia de bicicleta, somando ida e volta. Mas Cristiano fez tudo certinho. Antes de transformar a bicicleta em seu meio de transporte diário, foi se preparar numa academia. "Quem começa do zero precisa fortalecer a musculatura das pernas e do abdome antes de partir para o uso diário", afirma Dan Oizerovici. A musculatura do pescoço também precisa ser trabalhada, por causa da postura do corpo ao pedalar - mas basta você explicar seu objetivo ao instrutor de musculação que ele saberá como orientá-lo. Se você odeia academia, calma, esse estágio nos aparelhos de musculação não é obrigatório. Você pode começar a pedalar aos poucos em um parque. Outra opção, intermediária, é procurar uma academia ao ar livre, o que pode deixar a malhação mais atraente para você.Mas o preparo muscular não é a única recomendação para um sedentário aspirante a ciclista. "Se você tem algum indício de doença cardíaca, pulmonar ou metabólica, consulte seu médico", recomenda Emerson Franchini, professor do Departamento de Esporte da Universidade de São Paulo (USP). Homens com mais de 40 anos e mulheres com mais de 50, ainda que aparentemente saudáveis, devem fazer o mesmo. De qualquer forma, faça uma visitinha a seu médico, se o trajeto que você tem em mente é muito longo ou tem subidas íngremes.
Pela rua afora Para começar, trechos que podem ser percorridos com facilidade em 20 minutos são os ideais, como ensina o professor Emerson. "Se você mantiver esse tempo três vezes por semana, pode aumentá-lo gradualmente a partir do segundo mês", diz ele.Se você não pedala desde a infância, um parque ou um sítio podem ser ótimos locais para os primeiros passeios - e tombos. "O importante é respeitar os próprios limites", orienta o médico Oizerovici. "Não há nada de errado em descer da bicicleta para empurrá-la ladeira acima. Forçar a barra logo no começo pode deixá-lo com dores nas pernas", afirma.
Para circular pela cidade, é bom evitar vias muito congestionadas. "O ciclista fica muito exposto à fumaça dos carros, que é nociva à saúde", explica o doutor. Uma pesquisa da British Heart Foundation, realizada em 2005, revelou que, depois de uma hora entre nuvens de fumaça, a absorção das partículas emitidas por veículos a diesel causa enrijecimento dos vasos sanguíneos e redução de uma proteína que quebra os coágulos de sangue no coração. Com o tempo, esses efeitos podem aumentar os riscos de se desenvolver uma doença cardíaca.
É um assunto controverso, porque há quem acredite que os malefícios da poluição são compensados pelos ganhos da atividade física. "Entre levar uma vida sedentária e pedalar na poluição, digamos que a segunda opção seja a 'menos ruim'", diz Paulo Zogaib, médico do esporte e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mas o melhor mesmo é trocar uma avenida movimentada por uma rua interna mais tranqüila. "Com essa medida simples, você evita a inalação da fumaça direto da fonte", diz ele.
Aqueça-se Esticar-se é uma prática muito saudável, pois ajuda no aquecimento muscular antes do exercício e previne o encurtamento dos músculos depois dele. Outra dica de aquecimento é pedalar devagar nos primeiros minutos. No mais, a própria pedalada pode servir de aquecimento para outros tipos de atividades físicas. Cristiano, o bancário que você conheceu no começo da matéria, vai de bike para a academia e já chega aquecido. O mesmo acontece com o professor de ioga Holy Souza, de 35 anos, que já chega ao trabalho conectado com o corpo. "Bicicleta tem dessas coisas: é um gasto de energia que te deixa energizado", diz.Para Holy, que mora em São Carlos, no interior paulista, o ritmo mais tranqüilo da cidade influencia o modo de pedalar dos habitantes. "Na pressa da cidade grande, muita gente exagera nas marchas e acaba aumentado demais o nível de dificuldade e rapidez que se impõe", diz. Mas o princípio da bike, acredita ele, é o do prazer. "Você pisa macio no pedal e, depois, é só seguir a cadência natural da bicicleta", ensina. Aprendeu? Que bom, porque lições de bicicleta, você sabe, a gente nunca mais esquece.
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Malhação na avenida