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Corpo em expansão

EM TEMPOS DE FACILIDADES, O CORPO PERDE O IMENSO REPERTÓRIO DE MOVIMENTOS DESENVOLVIDAS PELA HUMANIDADE. ESTIQUE-SE. VOCÊ VAI ENTENDER PORQUE PRECISAMOS DE UM CORPO FLEXÍVEL

O campeonato da escola vai começar em uma hora. Nesse meio tempo, o professor de Educação Física passa as últimas orientações ao time de volei e começa a puxar o aquecimento. “Estica o braço na frente do peito, encosta a mão no chão, alonga a batata da perna, movimenta o pescoço em círculos”, ele orienta. Quando termina o estica e puxa, o corpo está preparado para a partida. Normalmente, é dessa forma que tomamos contato com o alongamento: uma atividade que serve para aquecer os músculos antes e relaxá-los depois do esporte. De fato, ele cumpre essas funções pois aumenta a circulação e prepara os músculos e as articulações para prevenir lesões e melhorar o desempenho.

Mas, encarar o alongamento como uma atividade à mercê de uma aula de musculação ou de uma partida de tênis é deixar de aproveitar seus inúmeros benefícios.

Todos os dias, sem perceber, alongamos o corpo com uma boa espreguiçada ao acordar, ao esticar os braços depois de muito tempo na mesma posição ou para alcançar um objeto no chão. Mas esse vai e vem não é suficiente, pois o que o corpo precisa mesmo é exercitar toda a amplitude de movimentos que o homem desenvolveu ao longo de anos de evolução. Antigamente era natural ir e vir a pé, fazer pão em casa, plantar e comer o fruto do quintal, lavar roupa na mão, coisas simples do cotidiano. Hoje em dia vivemos a tensão da imobilidade devido às facilidades tecnológicas, que favorecem hábitos sedentários e, por conseqüência, contribuem para a perda de flexibilidade. O processo acontece naturalmente com o avançar da idade, quando a vitalidade se reduz. Mas isso e só uma condição natural que pode ser imensamente retarda pela prática de movimentos que alongam, alinham e fortalecem o corpo.

O resultado do envelhecimento precoce é um corpo tenso, encolhido, atrofiado. “Com menos movimentos e flexibilidade, inicia-se um desinteresse natural pelo mundo. A maior dificuldade de viver apresenta-se na sua base: a perda da mobilidade e da independência de ir e vir”, diz Sandro Bosco, professor de Iyengar Ioga, de São Paulo.

Cresça e apareça

Alongar tonifica músculos, tecidos, ligamentos, nervos e articulações e é essencial para manter o corpo com grande mobilidade. “Se mantemos o corpo flexível, mais rico pode ser o repertório de movimentos”, afirma Sandro. E quanto mais movimentos o corpo humano for capaz de realizar no dia-a-dia, mais saudável e preparado para as adversidades corriqueiras ele estará, principalmente nas situações de imobilidade e tensão, como um longo período na frente do computador, onde a tendência é enrolar os ombros para frente e comprimir o pescoço.

O alongamento evita lesões, encurtamentos e retrações musculares e impede que as articulações enferrujem. “Quando um osso se amontoa sobre outro, as articulações e as vértebras cervicais, da coluna e da lombar se comprimem, causando dores. Se você se prepara fisicamente para a rotina, chega ao fim do dia mais disposto”, diz a terapeuta Mônica Caspari, da Associação Brasileira de Holfing.

É fácil entender por que tantos males têm a ver com a falta de alongamentos. O corpo é todo interligado pelos músculos, agrupados em cadeias musculares, unidas umas às outras. Quando parte de uma delas se mexe, a outra reage. Com uma relação de dependência tão forte, fica claro que todos os músculos de uma cadeia deveriam ter a mesma força e igual flexibilidade. “Se um trabalha muito mais que os vizinhos, a tendência é que os outros fiquem retraídos, pois o corpo tem mecanismos de compensação”, diz Dr. Oldack Barros, presidente da Sociedade Brasileira de RPG, em São Paulo. “O primeiro resultado dessa retração é desequilíbrio e dor”.

A vítima número um da musculatura contraída é a coluna. Ela pode se entortar devido às fibras repuxadas à sua volta ou perder parte da mobilidade por causa da rigidez em seus arredores. Ombros e pescoço são os campeões em acúmulo de tensão. Quando o corpo não relaxa, não temos um sono recuperador.

Um corpo alongado também é essencial para o bom funcionamento dos órgãos internos, pois tonifica e protege ossos, tendões e músculos, principalmente os da região abdominal. Um intestino contraído, por exemplo, atrapalha os movimentos peristálticos e pode levar à prisão de ventre. Se os órgãos estão fora do lugar, podem originar hérnias de disco, lordoses e outros problemas de estrutura óssea. Afinal, o interno rege o externo e vice-e-versa.

Quando uma pessoa está “engessada”, perde a amplitude de movimentos e gasta mais energia em tarefas corriqueiras. A reação comum é recuperar a saúde na academia. De acordo com Lela Queiroz, professora do Studio Dança Integrada, o peso do próprio corpo é suficiente para torná-lo forte. “Força significa fazer menos esforço, ter mais energia e resistência. A atenção da mente no corpo são mais importantes e eficientes que a força bruta”, explica.

Inteligência corporal

A idéia de que corpo e mente estão relacionados é a base do ioga, palavra em sânscrito que significa união. O mestre indiano B.K.S. Iyengar costuma dizer que “você mantêm-se jovem se mantêm-se flexível”. Assim como o ioga, diversos trabalhos de conscientização corporal procuram integrar corpo e mente através do alongamento, alinhamento e fortalecimento, pois entendem essas atividades não apenas como antídotos contra o encurtamento muscular, mas como um meio capaz de mexer com as emoções, com o sistema nervoso, com a respiração e os sentidos. “Quando uma pessoa faz um alongamento que a ajuda a compreender o funcionamento do corpo, ela faz ranger o que está acomodado e isso reverbera no campo das idéias e das emoções. A respiração, feita em sintonia com o alongamento, muda o padrão emocional, tranqüiliza”, conta Lela Queiroz.

Além das aulas de alongamento que têm como foco o sistema sensório motor, existem outras atividades que se baseiam na conscientização corporal para alongar, alinhar e tonificar o corpo, como holfing, ioga, reeducação postural global (RPG), pilates, dança contemporânea, artes marciais como o tai chi chuan e o aikido e a ginástica chinesa Lian Gong. Em todos, a orientação de um professor na condução do exercício é bastante valiosa para evitar riscos de lesões e melhorar o desempenho da prática, pois o instrutor conhece a biomecânica corporal e pode indicar a combinação de movimentos ideal para um determinado tipo de corpo.

E quando você conhece melhor seu corpo, vai descobrir que ele funciona como uma toalha de mesa: se você puxa de um lado, o que está acima se movimenta na mesma medida. Aqui dentro de nós, o pano é mais elaborado, tecido por fios de sentimentos, emoções, vitalidade e vontade de viver plenamente.

LIVROS
- A árvore do Ioga, B.K.S Iyengar, Editora Globo
- The Thinking Body, Mabel Elsworth Todd, Princeton Book Co.
- Anatomia para o Movimento, Blandine Calais-Germaine, Ed Manole

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