![]() |
![]() |
Não há como negar que nós, seres humanos, estamos acostumados a nos vermos como uma espécie à parte do mundo animal, uma criação bem distante e superior da dos outros seres que habitam o planeta. Esse sentimento é tão profundo e antigo que, de acordo com o Gênesis, o próprio Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, enquanto a única função reservada aos outros animais seria se submeter ao domínio humano. E toda vez que os homens se distanciam da imagem de Deus, pecando, imediatamente culpam seu lado animal pelo desvio da conduta, como a serpente do Éden ou o bode expiatório. A bondade e a solidariedade, por exemplo, seriam exclusividade humana. A agressividade ou o impulso sexual fariam parte do nosso instinto selvagem. Não é por acaso que o demônio aparece sempre com chifres, rabo e outros traços de outras espécies e é também chamado de besta-fera.
Quando pessoas cometem genocídios, nós as chamamos de animais, mas quando fazem caridade, nós as elogiamos por serem humanas, lembra o biólogo holandês Frans de Waal no livro Eu, Primata, um fascinante estudo que compara o comportamento de chimpanzés e bonobos (espécie semelhante ao chimpanzé) ao nosso próprio comportamento. Após anos de observação dos nossos parentes mais próximos na evolução (os chimpanzés, como se sabe, compartilham conosco 98,6% dos genes), De Waal e uma série de outros pesquisadores estão derrubando as fronteiras que colocavam a espécie humana totalmente à parte de seus primos, como se nós não fôssemos primatas ainda que com menos pêlos. Não se trata de defender que seres humanos, chimpanzés, orangotangos, gorilas e outros primatas são iguais. Eles não são. Mas de reconhecer o que os especialistas sabem há muito tempo: somos bem mais parecidos com eles do que costumamos admitir e vice-versa. Assim como nós, os grandes primatas têm autoconsciência, cultura própria, ferramentas e habilidades políticas, reconheceu até o ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, no prefácio do World Atlas of Great Apes and Their Conservation (Atlas mundial dos grandes primatas e de sua conservação). Ao identificar em outras espécies traços que eram considerados exclusivos dos seres humanos, a forma como encaramos nossas próprias emoções e comportamento deve mudar nas próximas décadas. Mas como essa consciência vai mudar nossa maneira de encarar a vida?
Natureza humanaFoi o velho Sigmund Freud, há mais de 70 anos, o primeiro a reconhecer com maestria a origem do desconforto que sentimos ao vivermos em uma sociedade que barra a todo instante nossos impulsos e desejos. O contrato do casamento, por exemplo, nos lembra a cada minuto que devemos conter nosso desejo sexual a limites demarcados o que não necessariamente diminui nosso desejo de cruzar novas fronteiras. O poder do Estado nos lembra que a força física deve ser monopólio da polícia e das Forças Armadas o que também não diminui nosso impulso, vez ou outra, de querer revidar uma agressão com as mãos. Isso para não falar das milhares de convenções sociais não escritas que respeitamos com medo de sofrer retaliação do grupo em que vivemos.
Freud chamou essa tensão entre o desejo e sua restrição social de mal-estar da civilização, nome de um de seus ensaios mais importantes, que descreve o confronto entre o animal que somos e a sociedade que tenta domesticá-lo. Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor por que lhe é difícil ser feliz nessa civilização, escreveu o fundador da psicanálise. E completou: O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.
A diferença é que em 1930, quando Freud tratou desse tema, sabia-se bem pouco sobre a mente e o comportamento de outras espécies. Em meados da década de 1960, a observação de chimpanzés e outros primatas comprovou que eles compartilham conosco diversos traços que relutamos em aceitar como humanos.
Quem nega totalmente que tem traços agressivos, por exemplo, termina, no fundo, potencializando sua agressividade, afirma o psicólogo Antonio Carlos Amador, professor da Faculdade de Psicologia da USP. Por isso que o passo mais importante em uma terapia é a tomada de consciência da nossa ambigüidade, até para que possamos escolher e assumir a responsabilidade por nossos atos. Na prática, isso significa desfazer a idéia de que temos uma natureza animal separada totalmente de uma natureza social. Ou seja, elas estão juntas o tempo inteiro nos tornando vulneráveis a uma série de impulsos e desejos. Mas que impulsos são esses?
Desejo de poderDesde o século 4 a.C., Aristóteles já havia definido o homem como um animal político. No século 16, Maquiavel revelou de forma crua os mecanismos nem sempre nobres pelos quais os homens alcançam e preservam o poder. Por que, ainda assim, insistimos em dissimular o desejo humano por poder? Não consigo compreender o tabu que nossa sociedade cerca esse assunto, escreveu o biólogo Frans de Waal, especialista em primatas. Ele cita como exemplo o resultado de um estudo sobre a motivação com diretores de empresas. Eles admitiram, sim, a existência da ânsia de poder, porém nunca a aplicaram a si mesmo, escreveu ele. Candidatos políticos são igualmente relutantes. Vendem a imagem de que são servidores do povo, concorrendo ao cargo com o fito de consertar a economia ou melhorar a educação. Alguém já ouviu um candidato admitir que quer o poder?
Quando foi estudar os chimpanzés na Tanzânia, na década de 1960, a americana Jane Goodall fez uma descoberta fascinante: as coalizões e disputas entre os machos de um mesmo grupo eram cheias de lances típicos de parlamentares no Congresso. Ao contrário do que muitos imaginavam, Goodall percebeu que a força bruta não era suficiente para que os machos dominantes preservassem seu poder. Para isso, eles tinham que fazer alianças e conchavos, como qualquer candidato à promoção em uma empresa ou a um cargo político.
Admitir com naturalidade que sofremos, sim, toda vez que perdemos poder ou deixamos de ser reconhecidos pelos outros talvez seja o primeiro passo para evitar que tomemos medidas extremas para alcançá-lo. Quem não assume nem reconhece a origem do seu sofrimento, afinal, pode terminar descarregando sua frustração em pessoas que não estão ligadas diretamente ao problema e quase sempre as mais frágeis do grupo, diz Amador.
Mas essa inerente vontade de poder não significaria, segundo os especialistas, que estamos condenados geneticamente a viver em sociedades altamente competitivas. Para os pesquisadores, os primatas são bastante flexíveis para resolver conflitos de várias maneiras. Entre os bonobos, por exemplo, as tensões sociais são dirimidas por meio do sexo que, também entre nós, tem um papel muito maior que o da simples procriação.
Sexo por prazerSe você acha que o homem é o único animal capaz de fazer sexo como forma de aliviar um dia estressante, você precisa conhecer os bonobos. Conhecidos no passado como chimpanzés- pigmeus, hoje os estudiosos sabem que os bonobos são primatas com características físicas e traços sociais bem diferentes dos chimpanzés. Enquanto os chimpanzés são liderados por machos, os bonobos são dominados por fêmeas e costumam levar uma vida bem mais pacífica por meio de uma atividade sexual, digamos assim, bem movimentada. Os bonobos não só fazem sexo em uma infinidade de posições, mas também em praticamente todas as combinações de parceiro, afirma Frans de Waal. Eles refutam a idéia de que sexo se destina unicamente à procriação. Calculo que três quartos de sua atividade sexual não têm relação alguma com a reprodução, ao menos não diretamente. Com freqüência, envolvem membros do mesmo sexo ou ocorrem durante a fase infértil do ciclo da fêmea.
Após séculos de pregação religiosa, grande parte da humanidade se sentiu perversa ao ouvir que o sexo destinava-se exclusivamente à procriação. Defensores dessa tese costumavam usar exemplos do mundo animal, já que muitas espécies têm ciclos sexuais bem determinados. Ou seja: uma vez fora do período fértil, não havia função para o sexo. Como o estudo dos bonobos revelou que eles fazem sexo até mesmo para amenizar a disputa na hora de partilhar alimentos, as teses de que o sexo serve apenas para a procriação tiveram que ser revistas.
É claro que nós, Homo sapiens, sabemos disso já há algum tempo. Mas ao contrário dos bonobos, que fazem sexo sem constrangimento até quando estão procurando alimento, ainda há muita gente em nossa espécie que insiste em tratar o desejo sexual pelo prazer e não apenas como reprodução como uma espécie de desvio ou perversão.
O fato é que, assim como os bonobos, temos apetite sexual além daquele necessário para fecundar um óvulo de vez em quando, afirma Frans de Waal. Isso não significa, contudo, que seguimos o mesmo padrão sexual dessa espécie.
Ainda assim, a diversidade sexual dos bonobos seria uma lembrança constante de que não somos os únicos hedonistas sexuais entre os primatas. Assim como a luta pelo poder, a observação dos primatas tem nos ensinado que a busca do sexo por prazer é mais um traço da nossa natureza queiramos usá-la, ou não.
Guerra e pazPor muitos séculos, a discussão em torno da essência humana dividiu os filósofos em dois lados. De um, estão aqueles que acreditam que o homem é naturalmente inclinado à violência e à competição ou, como no velho provérbio romano, a idéia de que o homem é o lobo do homem. Prova disso seria o fato indiscutível de que a guerra, por exemplo, está presente na história de todas as sociedades. Do outro lado, estão os filósofos que acreditam que o homem tem uma natureza pacífi ca. Para eles, a violência da guerra, por exemplo, seria muito mais um desvio provocado por circunstâncias temporárias como a escassez de alimentos ou disputas territoriais que um traço humano inato. Por isso mesmo, toda guerra seria desumana.
De acordo com os pesquisadores do comportamento dos primatas, a disputa entre essas duas vertentes faz pouco sentido. Ou seja: não somos totalmente agressivos nem totalmente altruístas. Somos uma espécie bipolar, afi rma De Waal, lembrando nossa capacidade de, em alguns segundos, passar da compaixão à ira, do relacionamento estável ao sexo promíscuo, da cooperação à disputa feroz pelo poder. Ou seja: seríamos tão inclinados ao ódio quanto ao amor. Daí que qualquer tentativa de classificar o homem por apenas um desses pólos pode nos levar a ter uma visão simplista e deturpada da sociedade humana. Até porque nossas sociedades nunca são totalmente pacíficas ou competitivas, nunca são de todo regidas pelo egoísmo ou pela ética. Vemos bondade e crueldade, nobreza e vulgaridade, às vezes até na mesma pessoa, lembra De Waal.
De acordo com o pesquisador, mesmo que tenhamos, sim, predisposições inatas, isso não significaria que os humanos seriam espécies de atores cegos encenando programas genéticos da natureza. Assim como outros primatas, temos flexibilidade para improvisar e nos adaptarmos à natureza de diversas formas, mas com uma responsabilidade extra. Como nossa espécie conquistou a dominância sobre todos os demais, é ainda mais importante que ela se olhe com honestidade no espelho para conhecer tanto seu arquiinimigo como seu aliado, pronto para ajudar a construir um mundo melhor, diz De Waal. Ou seja: em vez de querer enterrar o fato de que somos primatas, devemos ter humildade para reconhecer que a beleza e a tragédia da vida do homem deriva do fato de que ser humano é ser um animal e não necessariamente no velho sentido negativo da palavra.
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição