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Além do arco-íris

As velhas receitas para fazer o salário render, manter a saúde em dia, ser feliz e preservar o planeta já são conhecidas de quem fez as promessas de fim de ano. Porém, muitas vezes ficam apenas na vontade. Preparamos uma série de dicas possíveis para você se sentir renovado

por Lívia de Almeida

Lembra a história da menina Dorothy no clássico O Mágico de Oz, que sai de sua terra natal em busca de um lugar sem problemas, muito além do arco–íris? Todos nós já imaginamos a vida assim, como um cenário ideal, num filme colorido, em que nossos desejos se realizam sem a menor dificuldade. No entanto, às vezes, você não faz nem idéia de como chegar lá. E pior: a jornada sempre tem percalços. O Homem de Lata está enferrujado. O Espantalho busca a felicidade. Após a farra consumista do final de ano, o Leão tem vontade é de sair correndo. Você passou o ano anterior sem exercícios, comendo sem cuidado e o bem-estar parece distante. Ou seja, a vida em preto-e-branco, o caos de um furacão. Como aqueles quatro amigos, você pode botar o pé na estrada e tentar encontrar o Mágico de Oz, que atenderá a todos os seus pedidos, ou lembrar que os tesouros mais preciosos estavam o tempo todo mais perto do que se imaginava. Veja este guia que VIDA SIMPLES criou para desvendar os segredos que aparecem no caminho.

O HOMEM DE LATA

Cenário real
A gente sempre arruma desculpas para adiar a visita ao médico ou para mudar hábitos do dia-a-dia. “O brasileiro não é muito disciplinado: esquece da consulta, tem medo de achar algum problema”, diz o gerente de Oftalmologia do Hospital Cema, Pedro José Cardoso. O médico e escritor Drauzio Varella toca na questão em seu site: “Sabemos exatamente o que fazer para não passar fome naquela semana, como reservar algumas horas para dormir, trabalhar ou fazer sexo, mas somos incapazes de modificar o mais elementar de nossos hábitos mesmo sabendo que as conseqüências poderão ser fatais. Não me refiro apenas a mudanças radicais como largar de beber, deixar de fumar ou de ter relações sexuais desprotegidas com múltiplos parceiros, mas especialmente aos comportamentos rotineiros: comer um pouco mais do que o necessário, passar o dia sentado, esquecer de tomar remédios e de fazer controles periódicos de saúde”.

O que você precisa saber?
Segundo o Censo do IBGE, no ano 2000 já havia 25 mil centenários cadastrados no Brasil. Para fazer parte deste grupo e envelhecer bem (ou, pelo menos, tentar), teremos que planejar as mudanças necessárias. Mas não é só isso: é preciso também criar metas realistas, para que a expectativa não seja alta demais e a gente acabe frustrado. Samia Simurro, psicóloga e vice-presidente da ABQV (Associação Brasileira de Qualidade de Vida), explica que existem diferentes estágios de amadurecimento para uma mudança: “Existe uma fase de pré–contemplação, quando a pessoa visualiza a mudança; a fase de contemplação, quando ela se informa; e a de ação, que marca o momento da mudança, na qual criamos estratégias para que a decisão funcione”.

E agora?
Trate da saúde do seu corpo antes que ele resolva reclamar. Um exemplo clássico é aquela famosa visita ao dentista apenas quando a dor de dente não pode mais ser ignorada. “A prevenção é o meio mais eficaz, mais barato e menos invasivo de investimento num sorriso bonito e saudável”, diz a dentista Andréa Dahdal. “Cuide de seus dentes na frente do seu filho, e faça isso com prazer. No futuro, ele vai gostar de ir ao dentista cuidar da saúde da boca”, afirma. Outra dica de prevenção, tão importante e tão simples quanto escovar os dentes e passar fio dental, vem do otorrinolaringologista Leandro Franchi: “Respirar nos grandes centros quer dizer respirar um ar poluído, com dificuldade; então, devíamos lavar o nariz com soro fisiológico, com a ajuda de uma seringa, todos os dias”.

A cada momento precisamos fazer escolhas, rever decisões, desde as mais simples até as mais complexas, projetando o futuro que realmente queremos. José Roberto Borin, assim como todos nós, nunca soube quanto tempo de futuro ainda poderá desfrutar, mas levou um susto quando seu irmão morreu de câncer e sua mãe teve um AVC isquêmico. Fumante desde os 15, sedentário, com histórico de diabetes na família, ele tremeu: “E agora?” Hoje seus filhos sempre sabem onde o pai está às 7 da manhã, em pleno domingo: correndo atrás da saúde e do bem-estar no parque Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo. É que Borin está se preparando para encarar os 87 km da Ultramaratona de Comrades, na África do Sul. Mas não pense que ele resolveu ser uma pessoa saudável da noite para o dia; levou algum tempo: “Em 99, eu entrei para o primeiro programa antitabagista do Banco do Brasil e parei de fumar. Aí, engordei. Então resolvi caminhar meia hora por dia junto com a Fátima, minha mulher. Passei para uma hora por dia. Só que dava um tédio... Comecei a trotar, a fazer uma corridinha de 1 minuto e andava 1 minuto, intercalava. Tomei gosto, e a corrida foi substituindo a caminhada”. Sempre com acompanhamento médico para conferir sua evolução, José Roberto Borin acredita que o mais importante mesmo foi ter chegado aos 53 anos com disposição e alegria de viver. “O meu conceito de vida foi mudando: eu criei um grupo de amigos, é um esporte que espairece a minha cabeça e eu posso interagir com gente de tudo quanto é idade e condição social.” Só não vale não fazer nada.

COMO PENSA O ESPANTALHO?

Cenário real
Todos buscam a felicidade, mesmo sem saber onde ela se encontra. Mães que trabalham fora cobram, de si mesmas, mais tempo com os filhos; executivos estão sempre em débito com as empresas; profissionais liberais são dependentes de seus telefones celulares. Ninguém parece estar satisfeito com o próprio corpo, com a conta bancária, com o tempo livre disponível, com o sentimento de solidão. Casamentos se desfazem, parentes e vizinhos brigam. Às vezes, conseguimos aplacar o estresse e a ansiedade comprando pequenos prazeres, que nos dão um alívio passageiro. Outras vezes, tudo perde o sentido e adoecemos: a Organização Mundial de Saúde calcula que 20% da população mundial já sofreu ou vai sofrer de depressão em alguma fase da vida.

O que você precisa saber?
Que não há uma resposta pronta e definitiva sobre o que é felicidade, porque ela se manifesta de forma diferente para cada um. Filósofos e poetas, em épocas diversas, tentaram defini-la. E pesquisadores buscam decifrá-la: Jorge Oishi, doutor em estatística pela Universidade Federal de São Carlos, (SP), assessorou um projeto de pesquisa, em 2004, com 6000 entrevistas em 74 municípios paulistas intitulado Mapa da Felicidade: “Sentimos, na análise dos dados, a importância dos relacionamentos interpessoais”. Além disso, um dos fatores que apareceu com força e que chama a atenção nos resultados da pesquisa (em 3º lugar) foi a importância da religiosidade ou espiritualidade como principal mola propulsora da felicidade. “Considerando que uma pessoa religiosa tem muito mais probabilidade de ser sociável, é bom saber que esse número de pessoas está aumentando, principalmente entre os jovens”, explica Jorge Oishi.

No livro O Amor Companheiro – A Amizade, Dentro e Fora do Casamento, o psicanalista Francisco Daudt mostra que a nossa espécie tem uma característica formidável chamada neotenia, que significa podermos continuar com qualidades da infância pela vida afora - como a imaginação, a curiosidade, a capacidade e o gosto de aprender, de se deslumbrar, de se encantar. Mas, em primeiro lugar, é preciso respeitar-se. Isso vale também para os enamorados que só andam grudados e querem saber, a todo instante, o que o outro está pensando: “Não deixe que a instituição do casamento seja maior do que vocês dois, como indivíduos; dane-se o senso comum que pede que vocês andem de mãos dadas no shopping”.

E agora?
O escritor americano Joseph Campbell (1904-1987), um dos maiores estudiosos de mitologia e história das religiões (inspirador, inclusive, do cineasta George Lucas na concepção de Guerra nas Estrelas), dizia que o que estamos procurando não é um sentido para a vida, mas a experiência de estarmos realmente vivos, de forma que a realidade exterior tenha ressonância no interior do nosso ser. Djair Guilherme e Claudia Pucci tinham sempre a sensação de que o que estavam fazendo era apenas “uma gota no oceano”. E sofriam de solidão nas principais fases de transição da vida diante das dificuldades de cada etapa. Encontraram sua maneira sua de viver dentro do Movimento Humanista, criado na década de 70 por um argentino chamado Silo (Mario Luis Rodrigues Cobos) para estudar as causas e as alternativas ao sofrimento do homem. Entre seus princípios, está considerar o ser humano como valor central, a nãoviolência ativa e a não-discriminação. “Temos práticas de trabalho pessoal, de meditação e retiros. E temos frentes de ação, onde organizamos grupos para desenvolver atividades”, conta Claudia. Djair começou ensinando a mexer na internet e criando projetos de reciclagem e doação de computadores. Mas bem podia ser a criação de uma publicação independente ou um grupo de teatro - na periferia ou em um bairro chique da cidade. Eles explicam que essa necessidade de reconhecer seu próprio valor e sua força existe em todo lugar. Hoje, casados, querem educar o filho Pedro dentro dessa mesma postura: “Quando você sabe que está construindo alguma coisa, isso é um alimento espiritual muito forte, é revolucionário”.

CORAGEM DE LEÃO

Cenário real
Apesar da expectativa de vida chegar aos 72 anos, apenas 16% da população brasileira já se preocupa com um plano de previdência, segundo o consultor financeiro e autor do livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, Gustavo Cerbasi. “Segundo dados da Serasa, 50% dos inadimplentes são jovens de até 30 anos”. Ou seja: é preciso pensar agora no seu amanhã.

O que você precisa saber?
Que nossa relação com o dinheiro diz muito sobre o que a gente pensa sobre segurança, as ambições e desejos que cultivamos, a nossa auto-estima. Você sabe onde gastou os últimos 100 reais? Despesas pequenas, que a gente costuma desprezar, abocanham um bom montante, na ponta do lápis. Quanto ficaram os filmes que você devolveu à locadora sem ter assistido? Por falar nisso, já reparou como nosso convívio familiar e social está quase sempre mediado pelo consumo? Quando a gente quer uma pausa no trabalho ou vai folhear uma revista, faz o quê? Vai tomar um cafezinho na padaria. Sábado à noite é dia de sair para comer fora; programa de pai é levar a criançada ao cinema do shopping. Às vezes é preciso ter coragem para ousar: que tal uma reunião em que cada amigo traz um prato? Ou levar o filho para dar uma volta no parque? Agora, não precisa exagerar também: depois de equilibrar as contas e guardar um percentual para a futura aposentadoria, não é pecado se dar o direito de alguns luxos quando sobra um dinheirinho na conta: gastar em um jantar romântico, criar uma nova poupança para a viagem sonhada, dar uma renovada no guarda-roupas. “É dessas oportunidades que vem a verdadeira sensação de bem-estar financeiro. Consumir sem culpa. Recarregar as pilhas”, afirma Cerbasi.

E agora?
Faça uma planilha simples, anotando todos os seus gastos, para decidir o que pode ser cortado do orçamento. Mas não transforme isso numa nova burocracia para a vida porque, daí, as chances de se cansar e desistir são grandes. Para começar, uma hora ao final de cada mês é o suficiente. Agora, se você descobrir que gasta mais do que ganha, não tem jeito: declare guerra às dívidas. Segundo Gustavo Cerbasi, o ideal é ter, na poupança, três vezes o seu consumo mensal. Quem tem uma reserva de emergência estaria preparado para eventuais surpresas e tem tempo para retomar a vida normal. Portanto, cuidado com as compras a prazo, porque elas podem desequilibrar todo o seu orçamento. Hoje, o crédito está fácil e os juros são baixos... mas só para conseguir o financiamento. “Para o inadimplente, os juros podem chegar a 14% ao mês, num atraso”, diz Diógenes Donizete Silva, do Procon-SP. Então, é melhor guardar o dinheiro, esperar e pagar à vista. De preferência, negociando um desconto com o gerente da loja - porque os juros altos já estão embutidos no preço.

E AÍ, DOROTHY?

Cenário real
Segundo o Instituto Akatu, se os padrões de consumo e produção se mantiverem como hoje, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas Terra para atender nossas necessidades básicas.

O que você precisa saber?
Uma boa parcela da população já aderiu ao consumo consciente de água, eletricidade e combustíveis. Uma torneira pingando significa 46 litros de água por dia indo pelo ralo, à toa. Por isso, é importante estar bem informado sobre o estado do nosso planeta. Ângela Antunes, diretora do Instituto Paulo Freire, que trabalha com educação sustentável, dá a dica: “Poderíamos nos perguntar quantas coisas boas aprendemos com pessoas diferentes de nós. Mas, também, lembrar quem (e o que) está ausente: o que está faltando - e para quem. Como podemos incluir mais pessoas na perspectiva do bem-viver?”A chave está no diálogo. E no aprendizado.

E agora?
A preocupação com o planeta passa pela conscientização de todo o seu círculo de conhecidos. Vai longe o tempo em que era considerado chato aquele que falava em sustentabilidade. Agora, é questão de sobrevivência. Gaste seu latim, forneça informações e dados para quem ainda não se convenceu de que defender o planeta é assegurar a vida das próximas gerações. Conversar e informar: eis uma receita sustentável para 2008.

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