Muita calma
Uma ou outra lição que aprendi ao pedalar pelas ruas da cidade
Soninha Francine
Era perto de meio-dia e faltavam alguns quilômetros para chegar ao centro da cidade. A Zona Leste de São Paulo é relativamente plana, mas às vezes surge uma montanha para subir na forma de ponte ou viaduto. Eu não planejava pedalar 15 quilômetros naquele sábado de manhã. Tinha um compromisso na Vila Guilhermina/Esperança, ao lado da estação do metrô, e precisaria da bicicleta quando chegasse lá. Viajamos juntas no trem e era assim que planejava voltar. Mas os outros ciclistas presentes ao evento (a inauguração de um bicicletário, isto é, um estacionamento para bicicletas), muito mais em forma e acostumados do que eu, fariam o caminho de volta pedalando, acompanhando a linha do metrô, e me convidaram para ir junto. Tudo bem, se cansar, desisto em alguma estação e embarco. Vamos.
São Paulo é uma cidade muito feia. Ela tem, sim, muitas belezas, mas as feiúras são mais visíveis. Por isso mesmo, andar de bicicleta ou a pé pode ser uma surpresa boa. O lado ruim é fácil de enxergar: poluição, pisos acidentados, a ameaça dos automóveis, calor, frio, cansaço. Mas só a pé ou de bicicleta, em velocidade mais próxima da capacidade de apreensão humana, se percebem plantas, flores, olhares, vasos na janela, brincadeiras de criança, passarinhos e enfeites. Mesmo em um lugar inóspito como a Radial Leste, avenida expressa de muitas pistas, pedalando espremida entre a avenida e o muro que isola os trilhos dos trens. Daqui a um tempo, não será mais tão desconfortável e inseguro: aquele percurso será uma ciclovia.
Estávamos em um grupo de cerca de 20 pessoas. Se estivesse sozinha, talvez tivesse desistido antes, mas fui agüentando. Saímos da avenida quando ela se tornou impossível e passeamos por pedaços de São Paulo nem tão distantes, mas curiosos, surpreendentes. Arranjos inusitados de comércio, residências e serviços, desorganizados, até mesmo caóticos, mas harmonizados à sua moda, em bairros com nomes inesquecíveis como Vila Formosa e Vila Carrão (e era impossível não pensar na falta de uma Vila Bicicletinha).
E chegou mais uma ladeira, mais um viaduto para escalar. Eu já cansada, me soltei do grupo para deixar espaço livre à minha frente, tomar impulso, correr no último trecho plano e atacar a subida embalada, aproveitando a inércia da corrida. Foi quando ouvi o conselho do Arturo, ciclista mais experiente: ladeira a gente não começa, a gente termina. Não entendi na hora, ele teve de repetir, mas não pôde explicar melhor porque continuávamos pedalando e não era hora de conversar.
Depois a recomendação enraizou e fez tanto sentido que nem precisou de explicações. E, a partir do momento em que passei a pedalar sozinha por aí, testei e confirmei: funciona. Hoje, ataco as ladeiras devagar, sem querer forçar o ritmo na base, pedalando suavemente, respirando com calma. Às vezes não tem jeito, a subida é mais forte do que eu, então desmonto da magrela e empurro. Mas tem desafios que eu não venceria antes e agora venço.
Como é bom aprender, exercitar, conseguir. Tomara que eu consiga levar essa técnica para as outras ladeiras que aparecem por aí.
Soninha Francine mora entre Pompéia e Perdizes. Quem conhece sabe: tem ladeira que não acaba mais. almafeminina@abril.com.br
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