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Assim que desfizer suas malas em solo inglês, Adriano Caribe, 35, só terá uma coisa em mente: chegar logo ao Parque Olímpico de Londres. Faltam cinco anos para a abertura das Olimpíadas da Inglaterra, mas ele já tem cada detalhe minimamente calculado, dos gastos com hotel e passagens à lista das modalidades esportivas que pretende acompanhar. Eu também vou?, quer saber sua filha, de 8 anos. É claro que vai, querida.
Para incluir a mulher e a filhinha na viagem dos sonhos, Caribe vem fazendo suas economias antecipadamente. Apaixonado por esportes - não perde um jogo do Bahia, seu time do coração -, desde a Copa do Mundo do Japão/Coréia ele alimenta o desejo de acompanhar de perto cada decisão de pênaltis e goleada de uma competição mundial. Em 2002, reuniu uns amigos de colégio para abrir uma poupança conjunta e começar a guardar dinheiro para a Copa da Alemanha. Quatro anos depois, às vésperas de sacar o investimento para a viagem, uma mudança de rota. Decidi usar aquela grana para quitar meu apartamento, lembra Caribe. Mas meus amigos foram para Munique e a vontade de viajar aumentou ainda mais.
Com o fim da Copa de 2006 e o Brasil amargando aquele desastroso quinto lugar, o grupo se reuniu... e toca juntar moedinhas novamente para ir às Olimpíadas da Inglaterra. Escolados no assunto, Caribe e sua trupe criaram o Clube de Investimentos Londres 2012, que hoje conta com quase 30 torcedores fanáticos - entre professores, engenheiros, advogados, arquitetos, um veterinário e nenhum economista -, incluindo os amigos de amigos que também foram se animando com a idéia. Todos de olho no sobe-e-desce da Bolsa de Valores.
ReceitaProfessor de matemática do ensino médio de Salvador (BA), Caribe ensina como garantir o check-in: Cada um começou investindo R$ 50 por mês. Quem vai viajar com a família, como é meu caso, investe em dobro, em triplo, dependendo do número de pessoas que vai levar. E, a cada ano, aumentamos R$ 50. O clube conta com a orientação de uma corretora, que ajuda a escolher as ações mais interessantes e o melhor momento para comprá-las ou vendê-las.
Já percebi que essa coisa de ações tem um quê de jogatina, você fica na maior euforia se ganha, fica triste quando perde..., brinca Caribe, que já perdeu 10% do investimento em um dia, mas também comemorou uma valorização de mais de 50% em outros papéis.
Pois é, a maré alta da Bolsa de Valores costuma encantar marinheiros de primeira viagem, que vêem nas ações a oportunidade de fazer dinheiro rápido para pagar aquele tão sonhado pacote turístico. Especialistas alertam, no entanto, que as ações devem ser enxergadas como um investimento de longo prazo: se quiser entrar na Bolsa, pense em aplicar o dinheiro para não retirá-lo por uns bons anos. Exatamente como estão fazendo os amigos do Londres 2012.
Investir periodicamente e a longo prazo é o segredo para entrar na montanha-russa do mercado de ações sem sentir aquele friozinho na barriga. Investir todo mês, nem que seja pouco, ajuda a diluir as oscilações que o patrimônio sofre, sugere Giácomo de Oliveira, coordenador de clubes de investimento da corretora Spinelli. E essa é uma aplicação de longo prazo, o que significa que você não deve contar com esse dinheiro por uns cinco anos, no mínimo. Esquecer que ele existe e não sacá-lo nem em casos de liquidação no shopping ou exu tranca-rua dos brabos. Caso contrário, você começa a aplicação pensando em Roma e termina indo parar em Campos do Jordão, alerta o economista.
A essa altura, é possível que você já esteja pensando em investir na Bolsa sem ter de dividir seu rico dinheirinho com a galera do colégio. Antes de colocar sua moedinha número um numa redoma, pense nas vantagens que os clubes de investimento oferecem, como a possibilidade de reunir amigos em prol de um bem comum. Não satisfez o Tio Patinhas que mora em você? Oliveira explica que quem investe via clube de investimentos costuma ter um aporte inicial maior do que se investisse sozinho.
EsforçoOk, investir na Bolsa de Valores pode ser mesmo o primeiro passo para a viagem acontecer. Mas, convenhamos, essa saída só é boa para quem tem paciência e algum dinheiro para começar a aplicar. E quem não tem nem uma coisa nem outra fica a ver navios?
Ah, se eu for esperar sobrar dinheiro, não viajo nunca, diz o empresário Carlos Trujillo, 47. Com dois filhos pequenos, quem é que consegue poupar? Ainda assim, ele se prepara para a que deve ser uma grande aventura: uma viagem para o mar Vermelho. Serão seis noites, passando por Milão (Itália), Cairo e Hurghada (ambas no Egito), com direito a conhecer o famoso Vale dos Reis, onde estão algumas das mais belas pirâmides egípcias. Verdade seja dita, Trujillo nem liga para o que está fora da água. Afinal, vem tentando juntar dinheiro há alguns meses para passar o maior tempo possível submerso. Mergulhador e dono de uma escola de mergulho, ele sonha com essa viagem desde que comprou a primeira nadadeira. É lá que estão três dos mais importantes naufrágios do mundo, diz.
Ao contrário de Caribe, Trujillo não deve levar a família a bordo. Seria economicamente inviável, diz. Para fechar o pacote dos sonhos, ele vem fazendo sacrifícios. O mais sofrido: deixar de trocar seu equipamento de mergulho anualmente, como fazia antes. Também vai ao cinema apenas a cada dois meses. Ainda faltam 60% da viagem para pagar e Trujillo continua na ginástica com os números, aperta daqui, tira dali, para ver se consegue quitar a viagem antes de embarcar, em junho do ano que vem. Só a TV a cabo não consegui cortar, por causa das crianças, diz.
Todo esse esforço, no entanto, não é sem motivo. Mesmo sem dinheiro, ele conta que consegue fazer uma viagem por ano com a família. Trabalho para poder viajar. Assim que voltar do mar Vermelho, começo a juntar dinheiro de novo, para levar a família ao México em 2009.
Se você não é disciplinado como Caribe nem está disposto a viver no aperto, como Trujillo, não precisa rasgar o passaporte. Muita gente viaja sem planejamento e com pouco dinheiro no bolso. Quando não é possível programar bem o antes, o negócio é pensar no durante e, principalmente, no depois.
O truque é não voltar com dívidas, afirma Maristela do Valle, jornalista especializada em turismo. Tente pagar tudo antes de embarcar. Maristela dá algumas dicas de como cortar gastos durante a viagem. São coisas simples, como, por exemplo, fazer as reservas dos passeios e das peças de teatro com o próprio agente de viagens, ao invés de deixar para comprar no destino. Se for circular de trem pela Europa, compre Eurailpass, um passe que dá descontos nas tarifas. Durante a viagem, estabeleça um teto de gasto por dia - e seja fiel a ele, ensina.
Segundo Maristela, os pacotes costumam ser mais baratos porque as operadoras fazem acordos com os hotéis e conseguem reservar as tarifas mais baratas do avião. Mas isso não significa ficar engessado à programação do pacote. Você pode muito bem comprar pacote sem passeio nenhum ou mesmo desprezar o city tour incluído nele. Assim, pagará menos.
Partidas e chegadasA melhor coisa que fiz foi evitar usar o cartão de crédito. Preste atenção nessa dica. Afinal, a frase é justamente de uma gerente de banco, instituição célebre por emprestar o dinheiro que você não tinha - para pagar com um dinheiro que você não terá. Mas engana-se quem imagina que Silvia Maria Nunes, 27, viaja tranqüila só porque é bancária. Expert em colocar a conta dos outros no azul, ela diz que não conseguiu juntar quase nada para sua lua-de-mel na Argentina. Pelo contrário, tivemos de rever os planos porque, inicialmente, a gente queria ir para a Europa.
Opção internacional em alta, Buenos Aires foi escolhida como destino para os recém-casados por ser uma cidade romântica e de câmbio bem mais favorável. A solução de Silvia para não voltar da lua-de-mel com a conta no vermelho foi pesquisar passeios e bolar um roteiro equilibrado, que compensava o hotel cinco estrelas e alguns jantares nababescos com passeios espartanos. Gastamos 300 pesos num jantar, mas economizamos em outras coisas, conta.
O segredinho que Silvia só guarda para os amigos e clientes especiais é pechinchar: muito e sempre. Não importa qual é o destino de sua viagem dos sonhos. Se quiser fazer compras sem voltar endividado, o negócio é batalhar um desconto. No final das contas, acabei voltando com tantos presentes que tive que comprar outra mala e pagar uma taxa extra para embarcar, lembra ela. Comprei tudo o que eu queria e ainda voltei com 800 dólares no bolso. Mas essa façanha, pode esquecer, ela não conta para ninguém como conseguiu.
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