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Todo mundo gosta

Respeito é bom. Mas você sabe como se fazer respeitar? Percebe quando está desrespeitando alguém sem querer? Entende que do respeito depende o futuro da humanidade?

por Liane Alves

Imagine a Fernanda Montenegro. Por mais amigo, ou amiga, que você pudesse ser dessa que é uma das maiores atrizes brasileiras, você teria coragem de, de repente, dar um tapão nas costas dela e dizer: “E aí, Fernanda, tudo jóia?” Ou pior: “Tudo bem, nega? Quando é que a gente sai para tomar um chope?” Ninguém teria essa ousadia. Tem uma parede invisível ali, um campo de força. E esse campo magnético, que vem da própria presença dela, certamente não iria permitir essas intimidades.

Porém, também tem um pulo do gato nessa nossa hipotética atitude: reagimos assim simplesmente porque Fernanda Montenegro sabe como se fazer respeitar. Se alguém tivesse coragem de fazer essas perguntas, seria apenas porque ela teria concedido essa liberdade, seja por uma amizade profunda e real, seja por uma admiração recíproca. Senão, não. Ninguém se meteria a besta.

Tem admiração no meio, tem uma grande consideração por quem ela é, mas também tem algo que emana da sua postura, alguma coisa física, palpável, que garante existência concreta para essa aura de intangibilidade. “Respeito de verdade a gente não impõe. Ou a gente se respeita, e exterioriza esse sentimento, na postura física, nos gestos, no discurso, ou a gente não se leva a sério, e todo mundo percebe isso”, diz a terapeuta corporal carioca Ângela Moraes. Isto é, tem muita coisa a se considerar, tanto no ato de respeitar quanto no de ser respeitado. E é disso que a gente vai falar.

Virtude

De acordo com definição do bom Aurélio, respeitar significa honrar, acatar, considerar e reconhecer. Quando essa virtude existe em abundância, não é quase notada, e passa a fazer parte da paisagem. Porém, quando é rara e escassa, facilmente se percebe sua importância. “É como a água”, dizem sabiamente Ted e Jenny O’Neal no livro infantil Respeito É Bom e Faz Bem. “Só no deserto é que se tem uma idéia de como ela faz falta.”

Mas hoje em dia não se dá muita bola para essa qualidade que tem o poder de facilitar as relações e garantir bons acordos de convivência. É como se ela fosse uma virtude menor, não muito importante, uma coisa chata, antiga. Pais têm dificuldade de obter respeito de seus filhos, assim como professores de seus alunos, e filhos aparentemente não encontram o que respeitar em seus genitores e mestres. Também vivemos numa sociedade em que o desrespeito é constante, seja pelo exemplo de maus dirigentes, seja por uma realidade social bastante injusta, seja pela nossa própria fraqueza ante o desrespeito.

Mas por que está acontecendo tudo isso exatamente agora? Por que estamos assistindo de camarote à crise dessa virtude? “É porque estamos vivendo uma transição social”, diz a pedagoga Alice Rocha Mattos. O modelo patriarcal, rígido e solene, em que o respeito era sinônimo de medo e subserviência, está acabando ou, pelo menos, sendo posto em xeque. Só que tem um problema: ainda não há nada definitivo no lugar. O que o modelo patriarcal ensina, basicamente, é como impor limites e exigir obediência, sem questionamentos. Os verbos mais usados com relação ao respeito nesse sistema são exatamente esses: “impor” e “exigir”. “A obediência era garantida pelo exercício do poder, pelo temor. A autoridade se impunha porque as pessoas tinham medo das conseqüências em desafiá-la”, diz ela. Enfim, o que se chamava de respeito era, na verdade, puro medo. Funcionava, é claro, porque toda a sociedade tinha esse modelo como referência. Tinha-se medo do chefe, do patrão, do professor. E obedecia-se cegamente. Mas isso está mudando - não uniformemente, de uma vez só, mas aos poucos. A sociedade fragmentou-se em outros modelos e a obediência cega parece estar com os dias contados, pelo menos nos países ocidentais mais democráticos.

Mas será que a falência do patriarcalismo significa que não se deva mais estabelecer alguns limites para se obter respeito? “Não, é claro. Os limites ainda devem existir e ser observados, senão é o caos social. Hoje, porém, a dinâmica é outra: a obediência, ou consentimento, é obtida por meio da compreensão, do diálogo, da consciência. É completamente diferente”, explica a pedagoga Lúcia Amarante Correa. Isto é, quando um limite é estabelecido, a outra pessoa sabe o porquê. Existe, portanto, uma razão, não é simplesmente algo arbitrário, sem motivo e sem sentido. “É mais fácil se concordar com algo quando é assim, quando se sabe por que alguma coisa foi estabelecida, qual sua razão de ser”, diz a pedagoga.

Limite

O respeito geralmente nasce da nossa atitude diante do limite. Se não aprendemos a respeitar limites ainda na infância, mais tarde ficará natural invadir, abusar e desrespeitar, seja o outro, seja a natureza, seja uma instituição. “Uma criança sem limites se tornará um adulto com dificuldade nos relacionamentos, com resistência em aceitar regras, enfim, um indivíduo que não saberá respeitar idéias que não sejam iguais às suas”, diz a psicóloga Patrícia Gugliotta Jacobucci, da Unicamp. “Mas o limite pode ser estabelecido com afetividade para a criança, mesmo que seja empregada a firmeza”, complementa. “Quem recebeu o valor do amor, atenção e cuidado em casa, vai saber discernir com mais facilidade quando e a quem se deve respeitar.”

Por isso é que é tão importante explicar o motivo do “não”, conforme a compreensão e a idade de cada filho. Até no clássico exemplo da criança que quer colocar o dedo na tomada, o “não” deve ser dito com todas as letras, mas com explicação do “não” logo a seguir. Ou seja, por exemplo: “Porque faz dodói”. Mesmo uma criança de 2 anos é capaz de entender que aquele “não” tem seus motivos e que, se ela insistir, pode se prejudicar. O “não” bem explicadinho dá mais trabalho, exige mais presença dos pais, abre até mais margem de contestação, porém é o mais eficaz, porque ensina a razão do limite. Essa informação vital deveria ser impressa em nosso manual de instruções.

Segurança

Certo, tudo muito bom, tudo muito bem, mas para muitas pessoas só a demonstração de força é capaz de inspirar o respeito. “Bom, é possível que elas só se detenham diante de um rosnar de dentes”, afirma a terapeuta corporal Ângela Vieira. Mas, como isso nem sempre é possível, a melhor solução é estabelecer seus pontos de vista com firmeza, franqueza e seriedade. “Não é preciso gritar nem ameaçar para sermos firmes. Na maioria dos casos, a clareza no que se decidiu, e no que se quer comunicar, resolve”, diz. E não é apenas firmeza na voz. O corpo todo tem de acompanhar essa postura, com olho no olho, coluna reta, centramento. “Não é preciso ficar rígido, duro. Mas só seguro, calmo, convicto do que diz”, afirma a terapeuta. Por isso, é sempre bom termos o assunto bem resolvido dentro de nós antes de começar a falar. “A outra pessoa vai sentir essa limpidez, essa clareza”, diz. E vai começar a respeitá-la, sem dúvida. Mesmo se não concordar com o que é proposto, a negociação será feita em outros termos, com uma maior possibilidade de se chegar a um acordo comum. Pelo menos, já fica implícito que aquele não vai ser um osso fácil de se roer, e que vai ser necessária uma negociação.

Obstáculos

Mas como se chega a esse estado mais lúcido e firme? É o x da questão. Em primeiro lugar, conseguimos estar mais equilibrados e seguros quando temos auto-respeito. Tudo bem, mas o que viria a ser isso mesmo? Um livro prático, A Paz Começa Com Você, é bem direto em relação a isso: não se consegue ter auto-respeito quando se duvida de si mesmo, do seu valor. Ken O’Donnell, o autor (além de ser presidente da Brahma Kumaris, entidade que ensina valores humanos em escolas e cursos), elabora uma lista de perguntas capazes de deixar evidente nossa falta de auto-respeito. Por exemplo: você critica a si próprio diante dos outros, se desvalorizando? Superestima o que os outros dizem e subestima o que você pensa? Sente-se incapaz e tem medo de assumir responsabilidades? Ou não suporta que falem mal de você sem se deprimir muito? Se você respondeu “sim” a essas perguntas, é possível que seu autorespeito esteja em baixa.

Esse estado pode ser agravado pela insegurança, que traz um excesso de comparação com os outros, sentimentos de rejeição, busca incessante de segurança através de uma pessoa ou de uma situação e muita instabilidade emocional. Claro, todo mundo sente isso de vez em quando, mas o que se fala aqui é de uma incapacidade generalizada e até paralisante de ver as situações como elas são. E qual a solução para isso? Mais conhecimento sobre si mesmo, valorização dos seus aspectos positivos, reconhecimento de sua singularidade, diminuição do valor que atribuímos ao que os outros dizem ou pensam. Meditação, nunca é demais dizer, também ajuda muito nesse distanciamento da opinião alheia e na formação de uma estrutura interna psicológica mais firme e eqüidistante.

Isso não quer dizer que vamos deixar para trás a consciência de nossos defeitos ou que de uma hora para outra vamos nos achar o máximo. Mas sim que, mesmo com nossos defeitos e limites, estamos conscientes de que temos um valor intrínseco. Isto é, que merecemos ser ouvidos, considerados, e que nossa voz tem importância, da mesma forma que iremos considerar e ouvir o que é proposto pelos outros. Em resumo, só pode respeitar e reconhecer o valor alheio quem é capaz de ter respeito por si mesmo.

Hora e lugar

Você já riu com o total desrespeito praticado pelo pessoal de programas humorísticos como Pânico na TV e Casseta e Planeta? O desrespeito é uma das maiores fontes de humor da humanidade, desde a época de Aristófanes, o dramaturgo grego considerado o pai da comédia. Com piadas e tiradas supostamente desrespeitosas, o humorista exerce a importante função de liberar, por alguns momentos, o peso que a pressão social se faz sentir sobre nós e aliviar o domínio massacrante do superego, a parte de nossa psique que, segundo Sigmund Freud, exerce o controle social e regula nossos relacionamentos. Mais ou menos é o que faz a válvula da panela da pressão: possibilita um escape.

Isso quer dizer que o desrespeito, puxa vida, também tem sua hora e lugar. E sua época também. Na adolescência, por exemplo, o desrespeito a algumas regras e convenções é a forma com que o jovem experiencia a nova vida que se apresenta a ele, até que possa formular seu próprio código de conduta. Ele está apenas experimentando, testando “ser” de várias maneiras, inclusive as mais rebeldes, até conseguir expressar mais verdadeiramente o que realmente é. Desrespeitar faz parte. Tudo com algum limite, evidentemente. Como tudo na vida.

A falta de respeito às regras é também uma forma de exercer a liberdade diante de sistemas totalitários. O que nos diz a célebre imagem do trabalhador enfrentando um tanque na praça da Paz Celestial, em Pequim, em 1989? Ou as verdadeiras batalhas campais travadas nos subúrbios franceses depois da morte de dois jovens descendentes de imigrantes, supostamente causada pela ação truculenta da polícia, em 2005? De um ponto de vista, o desrespeito às regras vigentes, oficiais. De outro, um protesto contra leis arbitrárias que aviltaram a liberdade do ser humano. A arte e a literatura também são outros campos onde as regras podem ser completamente desafiadas em nome de uma nova expressão. Em outras palavras, não vamos ser hipócritas: desrespeitar, ou desafiar, também pode, dependendo de quando, de onde e do porquê. E, principalmente, o que não merece respeito.

Consciência

Também temos de reconhecer que demos passos largos em direção ao respeito nas últimas décadas. Há 40 anos, por exemplo, ninguém tinha idéia do desrespeito que o homem estava fazendo à natureza e à própria vida nas cidades. Ou que, por desrespeito, tínhamos destruído 95% da mata Atlântica ou arrasado mais de 100 nações indígenas. E que, pela mesma razão, ainda mantemos um vergonhoso quarto lugar entre os países que mais contribuem para o aumento do efeito-estufa. Constrange, mas é exatamente essa verdade constrangedora que nos pressiona na direção de um futuro melhor, onde se considere mais o meio ambiente e as populações carentes, por exemplo. O respeito anda de mãos dadas com a consciência e com a verdade. Muitas vezes desrespeitamos porque não sabemos que estamos fazendo isso. Quanto mais consciência e mais informação, mais respeito, seja na educação, na política ou em nossa vida pessoal. Saber disso já é um bom começo.

Para saber mais

Livros:
Estabelecer Limites, Respeitar Limites, Ansel Grün e Ramona Robben, Vozes
O Respeito na Sala de Aula, Denise d’Áurea Tardeli, Vozes
A Paz Começa Com Você Ken O’Donnell, Gente

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