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Meu caro caderninho de notas, você não é um diário. Livre do calendário solene e dos compromissos e rodeios sentimentais, você é limitado apenas por seu pequeno tamanho. Pronto para ser usado a qualquer hora, é o abrigo ideal para o que der (e vier) na telha: uma receita, o começo de um conto, uma frase ouvida no metrô, a lista dos livros a se levar para uma ilha, um telefone ou e-mail, o preço de uma bicicleta ou uma idéia que vai revolucionar o mundo. Democrático, você acomoda lado a lado banalidades e insights “dignos de nota”. Desenhos, paisagens, detalhes de arquitetura também cabem em seus modestos, porém valiosos domínios, assim como rabiscos cifrados pela aleatoriedade dos gestos. No fim das contas, anotar é mesmo um verbo à parte, algo entre a ação e a reflexão, um pescar de pensamentos antes que se cristalizem completamente ou se percam no redemoinho do dia-a-dia. Oscar Wilde disse: “Só viajo com meu caderno de notas - é sempre bom ter algo sensacional para se ler no trem”. Picasso e Hemingway, entre muitos outros, concordavam com o pai de Dorian Gray. E empilhavam cadernos e cadernos de notas por onde passavam, com a urgência íntima do talento, mas também com a leveza do que é pouco mais que passageiro.
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