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Luta, dança, brincadeira, jogo, esporte, música. Afinal, o que é que a capoeira tem que deixa todo mundo de queixo caído? Tem berimbau, atabaque, pandeiro e agogô, tem canto e palmas ritmadas, tem axé, muita ginga de corpo e malandragem. Dá para dizer que a capoeira é mais um dos jeitos brasileiros inventados pela necessidade de se comunicar.
A base da capoeira chegou ao Brasil com os negros escravizados vindos do Congo, Angola e Moçambique. Muitos dominavam o N’golo, uma luta inspirada na disputa das zebras na época do acasalamento. Em terras brasileiras, eles foram se adaptando para expressar sua cultura e ganhar agilidade para atacar e se defender dos feitores brancos.
Hoje, a capoeira é uma atividade física vigorosa que integra corpo e mente e mantém vivas as raízes da cultura afro-brasileira. Essa mistura de resistência e manemolência está na alma de quem gosta de jogar capoeira. Lutar contra a escravidão não é mais o principal. A roda se abre para quem quer aprender a lidar com a vida com jogo de cintura e bom humor. Cair faz parte, importante é levantar rápido e recomeçar de cabeça erguida.
Quem se inicia na capoeira aprende logo que a ginga é a base dessa arte, o que a difere das demais artes marciais. “É um andar sem sair do lugar”, dizem alguns praticantes. “Para a filosofia congolesa, viver é um processo emocional de movimento e movimentar é aprender”, explica Fu-Kiau Bunseki, estudioso da cultura tradicional africana.
A dinâmica do jogo é regida por movimentos de retração e expansão, de defesa e ataque, onde um dos jogadores oferece espaço para o oponente ocupar e impõe movimentos complementares. A capoeira inverte a lógica da competição para a cooperação, pois o objetivo da brincadeira é encaixar os golpes. “O movimento do meu parceiro só acontece no espaço que eu concedo ou perco e que ele usa ou conquista, e vice-versa. A oportunidade que ele me dá é a que ele me toma em seguida”, diz o engenheiro José Antônio dos Santos Prata, aluno do grupo Água de Meninos, de São Paulo. “Esse jogo de espaço se aplica à vida, ao trabalho, aos relacionamentos.”
Quanto mais próximos os jogadores estiverem, mais bonito e complexo fica o jogo. Tomé Borba, professor de Educação Física e contramestre de capoeira, gosta de lembrar o clima de êxtase que as rodas formadas pelos mais experientes produzem. “Os movimentos são tão intrigantes que todo mundo se desconcentra do que está fazendo, seja cantando, seja tocando ou batendo palma, para tentar desvendar o jogo”, diz.
Mascarar as intenções é a tônica dessa atividade que nasceu com espírito brincalhão e também guerreiro. “Antigamente a capoeira era muito manhosa, o capoeirista fingia que tinha sido acertado e que sentia dor e dava um golpe de surpresa. Era um artifício para se livrar da polícia”, conta Mestre Kenura, da escola Água de Meninos, em São Paulo. Assim, a capoeira ganhou malícia e agilidade e foi dando um jeito de passar por onde precisava, sendo perigosa com quem ignorava seu poder.
O esporte está dividido em dois estilos: o tradicional angola, mantido por mestre Pastinha, e o regional, criado por mestre Bimba. O primeiro leva à risca a origem manhosa: os movimentos corporais são executados bem próximos ao chão, com vagar e precisão, ao som de toques de berimbau próprios dessa modalidade. A capoeira regional inclui elementos das artes marciais em seu jogo, que é mais rápido e acontece com o corpo erguido, explorando quedas, rasteiras e cabeçadas. Enquanto Pastinha manteve a capoeira angola espontânea e popular, mestre Bimba organizou a regional em uma seqüência didática com oito movimentos que dão noção de espaço, tempo, reflexo e equilíbrio. O encadeamento básico prevê passos e golpes como bênção, esquiva, negativa, aú, meia-lua de frente, cocorinha, armada.
Não importa se você é grande, pequeno, se está magro ou gordo: a capoeira pergunta o que você precisa melhorar. Certos passos exigem, simultaneamente, flexibilidade, rapidez e força e deixam a pessoa consciente dos limites e das capacidades do corpo. “O começo do aprendizado pode causar ansiedade e angústia até o aluno adaptarse aos movimentos, às regras e à turma. Paciência e esforço são fundamentais para o jogo alcançar qualidade”, afirma o professor Tomé Borba.
Conforme vai se dedicando, o aluno passa a movimentar-se com mais precisão e agilidade, sabe a hora certa de entrar no jogo e de lançar um golpe e também passa a conhecer as canções. O músico Felipe Marmota Soares treina com afinco para assimilar as respostas que o jogo exige, mas sabe que precisa contar com a imprevisibilidade da roda. “Surgem coisas inéditas ali e você descobre que de outro jeito também é possível. Um jogo manjado pode até ser bonito, mas decoreba não é diálogo”, diz.
De acordo com Carlos Senna, autor de Capoeira - Percurso, por meio da observação atenta da natureza, a capoeira assimilou as qualidades de sobrevivência de quatro espécies de nossas matas: a agilidade e a destreza do macaco, a combatividade e a sagacidade da onça, a manha e a astúcia da raposa e a capacidade de envolver e enlaçar da aranha.
O pulo do gato do capoeirista foi misturar todos esses elementos num equilíbrio entre ataque e defesa. Mas, na roda da vida, às vezes usamos mais um que outro. Mestre Kenura acredita que se defender é mais importante que atacar, pois é mais difícil não ser acertado que deferir um golpe. Sábio é o aprendiz que leva o ensinamento para as situações da vida em que é preciso manter a integridade e a concentração em lugar de se tornar alvo fácil de provocações e vulnerável a estímulos externos.
A capoeira ajuda a canalizar a agressividade natural do ser humano em um jogo lúdico, de movimentos amplos e abertos, onde mais esperto é quem percebe o ambiente e o oponente. Há também os efeitos da prática no comportamento dos jogadores. A professora de ioga Maria Amélia Vieira de Souza passou a brincar com a vida e a sorrir para o inimigo. “A capoeira me propôs desafios. Hoje enfrento as dificuldades que surgem com mais capacidade de entendimento”, diz Amélia, que, assim como todo capoeirista, ganhou um apelido que traduz seu jeito doce de lidar com o mundo: Mel. Agora ela figura entre Besouro, Querido de Deus, Dois de Ouro, Magrão, Prata, Beija-Flor, Azulão, Bola Sete, João Pequeno, Cobrinha Verde... e por aí vai.
- MÚSICA Cantar as músicas e aprender a tocar os instrumentos da capoeira - reco-reco, agogô, pandeiro, atabaque e berimbau - favorecem a iniciação musical do aluno, aprimoram a noção de ritmo e a interação com a roda
- DANÇA Movimentar-se de acordo com um ritmo sonoro amplia a noção de tempo e espaço e dá a oportunidade de criar passos e golpes com mais plasticidade
- DRAMATURGIA Por ser um diálogo não verbal, as intenções do capoeirista são comunicadas com o olhar, os gestos e a expressão do corpo. É preciso encenar essa brincadeira
- CONDICIONAMENTO “Capoeira dá cintura”, diz mestre Pelé da Bomba, de Salvador. Os movimentos da capoeira produzem efeitos no corpo, que ganha tônus muscular, muita agilidade, reflexo, flexibilidade e equilíbrio
Livros:
Capoeira - Os Fundamentos da Malícia, Nestor Capoeira, Record
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