Origem e destino
Desvios e retornos também fazem parte do caminho
— Você vai deixar de conhecer um novo caminho só para não se atrasar pro almoço? A proposta transgressiva foi feita enquanto caminhávamos pela subida íngr eme de uma estradinha na serra da Mantiqueira, empurrando as bicicletas. Éramos esperados para o almoço alguns quilômetros adiante. Meu filho caçula, Raul, então com 10 anos, propunha um breve desvio no caminho. Queria explorar uma possibilidade na paisagem. De onde estávamos, víamos uma estradinha secundária que serpenteava morro abaixo até chegar a uma casa cercada por canteiros. Sabíamos que descer de bicicleta aquela ladeira toda poderia ser muito divertido. Sabíamos também que na volta teríamos de fazer uma longa e pesada caminhada morro acima. Eu já estava com fome e cansado. Mas, quer saber? Melhor foi descer aquela ladeira de bicicleta.
Fomos bem recebidos pelos moradores. Comemos morangos. Rimos à beça. Na volta estávamos mais alegres do que cansados. Valeu a pena. Poderia não ter valido? Talvez. Só sei que valeu.
Lembro-me disso sempre que escolho um novo caminho a seguir e procuro percorrê-lo mais com a alegria de uma criança de 10 anos que com a desconfiança dos quarentões. Você me dirá que um adulto já não pode agir com a ingenuidade de uma criança. Que já perdeu o entusiasmo movido por essa ingenuidade. E eu direi que, se isso for verdade, cabe ao adulto cultivar o entusiasmo e temperá-lo com, digamos, a sabedoria que os anos lhe deram, se é que deram. E, ainda que o adulto já não tenha todo o brilho genuíno da curiosidade da criança, que possa ver nela menos o símbolo de uma pequena pessoa inconseqüente e mais o que ela é em essência: um ser livre para praticar generosidade consigo mesmo.
Alguém já disse, ou deveria ter dito, que o adulto tende a ser justamente quem perde essa generosidade consigo, com os outros, com o ambiente. Só mais tarde fui conhecer os versos do poeta americano Robert Frost, que, diante de uma bifurcação na floresta, escolheu a estrada menos trilhada – e isso fez toda a diferença para ele. Era mais ou menos esse o espírito naquele fim de semana. E continua a ser agora, nestes tempos de insustentabilidade ambiental, econômica, social, afetiva.
Se o homem se vê diante de novos problemas, criados pela maneira como vem agindo desde sempre, será sábio refletir sobre o que acontecerá se continuar a se comportar do mesmo modo como se comportava ontem. O que acontecerá se continuarmos no mesmo caminho? Só muito mais tarde ainda soube da releitura que outro americano, o humorista Jerry Seinfeld, fez das palavras de Frost: “Às vezes há uma razão para que uma estrada seja menos trilhada”.
Ambas as idéias fazem todo sentido. Aquele passeio de bicicleta tinha em si mesmo essas duas idéias, livres de qualquer palavra que quisesse explicá-las. Não era um conceito verbalizado, mas uma experiência viva de quem escolhe uma estrada, tanto faz que seja mais ou menos trilhada. O que importa é que se escolha um caminho que leve aonde se quer chegar. Isso faz toda a diferença.
Caco de Paula, jornalista, vive prometendo a si mesmo que um dia voltará a passear de bicicleta. homemdebem@abril.com.br
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