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Mesa para dois

Surpreenda sua cara-metade com um jantar especial e convide-a para ser cúmplice de bons momentos na cozinha

por Josimar Melo

Ao pensar num jantar a dois, você certamente imagina uma mesa ricamente ornada, com muitas flores frescas; uma meia-luz de velas bruxuleando docemente; uma louça retirada dos armários especialmente para a ocasião; John Coltrane entoando solos de saxofone ali ao lado; e uma seqüência de pratos pretensamente afrodisíacos (ostras, claro, para começar) desfilando entre as taças de champagne. Mas será que é assim mesmo que tem que ser um jantar a dois? Uma cena de comercial de TV? Não haverá também cumplicidade, até mesmo sedução, se um casal se encontra para comer e os dedos de quem cozinhou ainda recendem a alho, se no lugar de prataria ambos comem com as mãos, se a sobremesa é degustada no tapete da sala ­ mesmo que o tapete esteja atulhado de brinquedos fora de ordem deixados pelo filhos? Sim, não é possível ter um jantar a dois, aconchegante, mesmo que os filhos já tenham sido feitos, anos atrás, e não estejam previstos para serem concebidos somente dali a pouco, depois do café?

Nada contra jantares românticos, à luz de velas, onde os pratos refinados e os vinhos fantásticos talvez sejam apenas coadjuvantes de um cenário (e uma encenação) de sedução. Eu mesmo já fiz vários ­ para futuras namoradas minhas, mas até mesmo para mulheres que sequer conhecia (e jamais vim a conhecer); isso num tempo em que amigos me pediam para passar a tarde de sábado na casa deles cozinhando para suas vítimas ­ que até hoje, após a comilança, sequer suspeitam que não foi seu pretendente quem preparou os pratos...

Sendo assim, não posso mesmo ser contra o jantar romântico convencional, mesmo que o cardápio se torne secundário ­ o que é compreensível quando o principal acepipe é na verdade o parceiro convidado. Mas sobre isso já se escreveu bastante. Cada um deve ter em casa um mínimo arsenal para essas ocasiões ­ guardanapos de verdade (é indelicado receber uma convidada com guardanapos de papel, por favor) e música adequada (que não precisa ser um chavão: a escolha vai do universo de cada um; por que um casal punk teria que ouvir jazz?).

Resta escolher um menu que, além de simpático e gostoso, tenha três outros atributos. De um lado, não requeira muito tempo e sujeira na hora de finalizar: pode ser que os pratos tenham ocupado muitos dias de trabalho antes ­ se o anfitrião gosta mesmo de cozinha, isso não é um problema; o que pode se tornar um problema é deixar a convidada morrendo de fome porque na hora de comer nada está pronto ainda, e o jantar é precedido por uma espera angustiante. O segundo atributo é que o prato não produza muita gordura e fumaça na hora de ser finalizado: é meio desagradável ter que conversar com alguém no meio de uma nuvem de gordura, ou não poder sentir o aroma do vinho por causa do cheiro de fritura que ficou no ar. (A receita sugerida nas próximas páginas, de medalhões de vitelo grelhados em pouco azeite de origem extravirgem, não chega a produzir tal efeito colateral.) Por fim, o terceiro atributo: convém que o menu não seja constituído de pratos muito pesados ou de difícil digestão. Existe, para um brasileiro, coisa melhor que uma boa feijoada? Não. Existe, para um galanteio, coisa pior que uma feijoada à noite? Mesma resposta: não mesmo.

A quatro mãos

Mas um menu para dois não significa necessariamente uma cantada, uma surpresa para alguém a ser seduzido. Pode ser também um gostoso momento de convivência a dois, desde o princípio. Cozinhar a quatro mãos é um esporte delicioso, e pode ser praticado sob diversas modalidades. Um casal que gosta de cozinhar só terá a ganhar ­ em convivência, em afeto e também em crescente estímulo sensual ­ se dividir as tarefas na cozinha antes do repasto. Cozinhar junto é muito bom. Pode ser um ato de criação conjunta, ambos picando, misturando, grelhando ­ mas, nesse caso, atenção!, há uma regra básica: é preciso antes definir quem é o chef da ocasião. Sim, porque, da mesma forma que uma relação pode crescer ao longo de um mise-en-place ­ desde que combinado previamente quem vai decidir a quantidade de salsinha e o momento de colocar a manteiga (no sentido culinário, é claro) ­, a relação pode azedar se, mal-humorados, ambos disputarem quem decide quanto colocar da acidez do limão.

Pequenas rusgas podem deixar cicatrizes fundas como um corte da melhor faca japonesa. Então, antes de mais nada: é preciso definir quem decide como fazer a polenta, quem é o dono do bife, e cada um ter a humildade de aceitar o que o chef de cada prato mandar. Isso definido, a convivência na cozinha pode ser profícua, e o clima de camaradagem pode até mesmo suplantar os resultados culinários. A polenta ficou seca? A carne, muito passada? E daí? Afinal, quem é que quer comer, a essa altura, depois que as quatro mãos se ocuparam tanto mutuamente?

E, finalmente, é bom não esquecer que comer a dois ­ e igualmente preparar a comida ­ pode ser um gesto do cotidiano, e tão estimulante quanto aquele feito excepcionalmente nos tempos de sôfrega paquera. E mais: estar a dois na cozinha não requer prática e tampouco habilidade dos dois (apenas de um). Imagine-se cozinhando para alguém de quem você gosta.

Na melhor das hipóteses, claro, a pessoa estará compartilhando facas e fogões com você (“melhor das hipóteses” se ela souber o que está fazendo: pode também ser um desastre, mas o amor perdoa quase tudo). Entretanto, existem outras hipóteses.

Por exemplo, aquela em que sua cara-metade não sabe cozinhar um ovo ­ e nem mesmo ligar o fogão: mas, em compensação, sabe deixar sua louça um brinco! (Você sabe que, nas melhores cozinhas profissionais, o chef usa a frigideira e simplesmente a larga na mão do ajudante, que vai levá-la para lavagem e trazê-la impecável em minutos ­ o sonho de todo cozinheiro amador.) Um ajudante que, além de ir limpando toda a sujeira que você vai fazendo, ainda por cima te ama, é algo que não tem preço.

Imagine ainda ­ esta é outra hipótese ­ que você tem a seu lado alguém que te ama, que vai amar o que você está cozinhando, mas não cozinha nem lava. Se pelo menos estiver a seu lado, sentadinha na cozinha, saindo apenas para trocar o CD, compartilhando uma garrafa de vinho e as amarguras que o dia infernal deixou em vocês, já terá ajudado a criar um gostoso momento a dois.

Depois é comer juntos, acabar o vinho, a música. Sexo em seguida será um bônus não desprezível, mas na verdade, mesmo, pode até ficar para depois: às vezes uma sobremesa, um sofá, uma coberta e um bom filme (desses que antecipam o sono reparador) já serão por si só recompensa suficiente pelos bons momentos criados a dois na cozinha.

sugestão: prato principal - MEDALHÕES DE VITELO COM GREMOLATA E POLENTA (PARA DUAS PESSOAS)

A receita foi inspirada num prato do restaurante Café Boulud, do chef francês Daniel Boulud, de Nova York. Um prato sem grande complicação, que pode ser preparado rapidamente a quatro mãos. Apesar de o chef ser francês, o prato utiliza a gremolata e a polenta, duas receitas tipicamente italianas. Simples e ao mesmo tempo diferente. Bom apetite!

Ingredientes para a gremolata (um mix de condimentos):
• 3 colheres (de sopa) de salsinha picada
• 1 colher (de sopa) de casca de limao ralada
• 1 colher (de sopa) de pao esfarelado
• 1/2 colher (de sopa) de alho picado
• Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora

Ingredientes para os medalhões e o molho:
• 1 colher (de sopa) de azeite de oliva extravirgem
• 6 medalhoes de vitelo (cada um com 50 g aproximadamente)
• 2 colheres (de sopa) de manteiga sem sal, cortada em pedacinhos
• 1 chalota pequena, bem picada, lavada e enxuta
• 1/4 xícara de vinho branco seco
• 1 xícara de caldo de galinha
• 1 tomate pelado em conserva
• 1 colher (de sopa) de azeitonas pequenas sem caroco e picadas

Ingredientes para a polenta:
• 1/2 xícara de polenta instantânea
• Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora
• Água (a quantidade indicada na embalagem da polenta)

Prepare a gremolata: misture duas colheres da salsinha, a casca de limão, os farelos de pão e o alho. Tempere com sal e pimenta.

Prepare os medalhões e o molho: aqueça o forno em temperatura alta. Aqueça o azeite de oliva numa frigideira. Tempere os medalhões com sal e pimenta e coloque-os na frigideira em fogo alto. Deixe dois minutos de cada lado para ficar mal passado; ou mais tempo, se preferir mais ao ponto. Passe os medalhões para uma assadeira, salpique a gremolata sobre eles e por cima coloque os pedaços de manteiga. Reserve. Na panela onde fritou os medalhões, em fogo médio, coloque a chalota e mexa por um ou dois minutos, raspando o fundo. Adicione o vinho e deixe evaporar. Coloque o caldo e deixe reduzir à metade. Salpique o restante da salsinha, o tomate e as azeitonas. Corrija o tempero de sal e pimenta, se necessário, e reserve.

Para a polenta, siga as indicações da embalagem, mexendo na panela até que fique cremosa (uns cinco minutos). Se ela não vem temperada, acrescente sal e pimenta.

Para servir: leve a assadeira com os medalhões ao forno somente o tempo de dourar a gremolata, cerca de três minutos. Coloque em cada prato três medalhões, a polenta e o molho.

sugestão: sobremesa - PÊRAS EM CALDA COM ESPECIARIAS (SERVIDAS COM CREME INGLÊS)

Ingredientes para a pêra:
• 5 pêras maduras e firmes
• 1/2 litro de água
• 2 xícaras de açúcar
• 1 fava de baunilha
• 2 anises-estrelados
• 5 graos de cardamomo
• 400 ml de vinho tinto seco
• suco de 1 limão
• papel-manteiga (corte em círculo, no diâmetro da panela)

Modo de fazer: descasque as pêras, corte ao meio e retire o miolo. Se desejar, deixe-as inteiras e mantenha o cabinho. Misture os demais ingredientes e leve à fervura, adicione as pêras e cubra com papel manteiga (para não escurecer as partes expostas ao ar); reduza o fogo e cozinhe lentamente até que fiquem cozidas e macias. Retire as pêras, reduza a calda a ponto de xarope e côe. Sirva com o creme inglês.

Ingredientes para o creme inglês:
• 250 ml de leite
• 3 gemas
• 1/2 xícara (chá) de açúcar
• 1 colher de essência de baunilha

Modo de fazer: misture as gemas numa tigela. Ferva o leite com o açúcar e a baunilha. Jogue, aos poucos, o leite quente sobre as gemas. Volte tudo para o fogo bem baixo, mexendo até engrossar um pouco. Não deixe ferver, pois o creme pode talhar facilmente. Espere esfriar e sirva com as pêras.

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