Encravados no coração da Turquia há milênios, repousam os vestígios dos primórdios da humanidade
por Fernando Naigeborin
slideshow_capadocia_1.jpg|No meio do caminho havia uma pedra. Uma não, milhares. Fruto das sucessivas erosões no solo vulcânico, o infinito pedregoso que se descortina no interior da Turquia abriga algumas das paisagens mais insólitas do planeta. Em meio à superfície lunar despontam formações rochosas esculpidas pela ação do vento e da água. Monumentos naturais que se equilibram por entre os vales da Capadócia, como as retratadas nestas páginas, na vila de Zelve. Aqui e ali despontam picos de formas cônicas, que remetem a cogumelos, chapéus, chaminés – e a tudo aquilo que a imaginação quiser ver. Sempre emoldurados pelo céu e serpenteados pelos raios de sol que acentuam volumes e dimensionam sombras. É nelas, aliás – no silêncio do escuro –, que se escondem mitos e cavernas. E, quem sabe, a pedra fundamental de nossa civilização.|slideshow_capadocia_2.jpg|Alguns arqueólogos sugerem que o primeiro esboço da natureza realizado por um homem seja o desenho de um vulcão em erupção. Em exposição na parede de uma das cavernas da Capadócia, já está ali há mais de 9 mil anos. Mas, se por um lado ainda restam dúvidas em relação a essa obra de arte rupestre, por outro é certo afirmar que a origem vulcânica das rochas trouxe grandes benefícios aos que lá moraram. Por serem fáceis de cavoucar, pequenas cavernas naturais foram expandidas, interconectadas e transformadas em habitações com bom acabamento e isolamento térmico.|Pedra polidaslideshow_capadocia_3.jpg|Somados a esse fator estão o solo fértil e o eficiente sistema hídrico da região, que, segundo estudiosos, deram as condições necessárias para a existência contínua de comunidades humanas desde o Neolítico. Assim, diversas civilizações aportaram e fincaram suas raízes nessa confl uência de Ásia, África e Europa. Assírios, hititas, persas, romanos, cristãos bizantinos, árabes seljúcidas e muçulmanos otomanos deixaram suas marcas registradas nas rochas deste museu a céu aberto. Mas é das comunidades cristãs a maior herança cultural da Capadócia.|slideshow_capadocia_4.jpg|Nos primeiros anos da nossa era, seguidores da recém-criada religião cristã fugiam das perseguições do Exército romano. Muitos encontraram abrigo nas cavernas escondidas entre as paisagens sobrenaturais da Capadócia. Àquela época, já existiam no local cidades subterrâneas, que aproveitavam falhas naturais preexistentes e ligavam todas as casas a um emaranhado de salões escavados embaixo da terra, distribuídos em inúmeros pavimentos. Dessa forma, milhares de pessoas puderam se proteger de eventuais ataques e invasões. (Detalhe de um afresco com passagens da vida de Jesus).|Pedra sacraslideshow_capadocia_5.jpg|Como resultado, floresceu aqui uma das mais importantes comunidades cristãs da Antiguidade, que teve seu apogeu entre os séculos 4 e 11 e preencheu com igrejas, monastérios e tumbas milhares de buracos da região. (Ruínas da entrada da igreja de Karanlik, próxima ao vilarejo de Goreme).|slideshow_capadocia_6.jpg|Até há bem pouco tempo, Goreme era apenas um pequeno ponto no mapa da Turquia. Antes agrário e sonolento, o vilarejo é hoje a principal porta de entrada para a Capadócia, um dos principais destinos turísticos do país. As plantações de abóbora e os antigos vinhedos ainda se espalham nas bases de imensos monolitos, muitos deles escavados e habitados séculos atrás. Em meio a isso, ruelas levam a casas de alvenaria que abrigam hoje pensões e restaurantes, como se pode ver na foto. E nesse contexto, exatamente agora, ainda há gente morando em cavernas escavadas. Os poucos habitantes que permanecem na região podem ser a chave para entender como viver e prosperar com tão pouco, sem deixar de lado a simpatia e a alegria de viver. Deve haver algo relacionado à forma dessas pedras. Suspiros.|Pedra preciosaslideshow_capadocia_7.jpg|Entrada de acesso à cidade subterrânea de Derinkuyu.|slideshow_capadocia_8.jpg|Do alto, a topografia lunar da Capadócia se revela em detalhes.|slideshow_capadocia_9.jpg|Detalhe de uma ruína de antigo puleiro de pombas.|slideshow_capadocia_10.jpg|O poente ilumina o interior de uma casa abandonada há séculos.|slideshow_capadocia_11.jpg|Em forma de cupinzeiro, esta antiga construção abrigou uma antiga basílica.|slideshow_capadocia_12.jpg|Porta de entrada para a igreja escura, famosa por seus afrescos bem-conservados.|slideshow_capadocia_13.jpg|Interior do refeitório de um antigo monastério cristão com a mesa e os bancos comunais.|slideshow_capadocia_14.jpg|Só sobraram a porta e a janela para contar a história desta antiga residência.|