A vida é minha
O prazer simples e insubstituível de chamar o chefe e pedir demissão
por Denis Russo Burgierman
Outro dia eu e a Joaninha, minha namorada, estávamos andando de bicicleta pela cidade. Aí vimos na calçada uma amiga querida, a Mila, que não encontrávamos fazia um tempão por causa da correria louca de trabalhar demais. Paramos e fomos abraçá-la. Eu disse para ela que tinha um monte de novidades para contar.
“Vamos casar e passar um ano estudando na Califórnia!”, falei.
Deu para ver que a Mila sentiu aquela alegria sincera pela felicidade dos amigos – seus olhos brilharam, ela deu um pulinho. E a Joaninha tinha mais novidades.
“Eu pedi demissão!”
Aí a Mila deu um grito de felicidade, correu e nos abraçou. De novo, ela estava demonstrando alegria sincera pela notícia. Mas o que me chamou a atenção foi que ela ficou mais feliz em saber da demissão que da viagem ou do casamento.
Fiquei pensando nisso. No quanto, neste mundo corrido de hoje, um dos atos mais fortemente simbólicos e importantes das nossas vidas é pedir demissão – mais até que casar, se bobear. Pedir demissão é declarar independência, é dizer para o “sistema” que não precisamos dele, é tomar as rédeas da vida na mão. É ser livre.
É claro que não é bem assim. Sei bem que está cheio de gente por aí amargurada e infeliz por não ter um trabalho. E sei também que o tal “sistema” não vale só para quem tem emprego – muitas vezes, logo que passa a euforia por pedir demissão, o sujeito se pega trabalhando mais que antes, como autônomo. Não tem jeito, a vida é dura mesmo.
Mas o fato é que pedir demissão dá uma imensa sensação de poder, de “a vida é minha e sou eu que decido o que fazer com ela”. E que essa sensação é especialmente prazerosa nos dias de hoje, quando há tanta gente se sentindo sufocada, incapaz de comandar sua vida.
Pedir demissão é para quem pode, eu sei. Quem tem um monte de filhos para criar, escola para pagar, 300 contas penduradas na geladeira, não tem muito como se dar esse luxo. Mas existe muita gente que pode e não sabe. Afinal, salário vicia. A gente se acomoda com o dinheirinho confortavelmente pingando na conta e às vezes nem percebe que dá para viver com menos.
Minha vizinha de coluna, a Sandra, já escreveu sobre isso: sobre o quanto é possível viver de um jeito diferente, e quanto a gente se acomoda com menos do que merece. Ela sabe do que está falando: largou um emprego estressante para comprar um veleiro e passar anos de sua vida navegando os sete mares. Claro que aventura assim não é para todo mundo, assim como não é para todo mundo realizar o sonho que eu e a Joaninha alimentamos faz tempo: o de nos jogarmos na estrada por um ou dois anos com nossas bicicletas.
Mas o prazer simples, e indescritível, de chamar o chefe, agradecer por tudo e dizer que está de saída, esse até que é bem acessível. Ok, depois se arruma outro trabalho, e a rotina volta, e a trabalheira continua. Mas todo mundo merece o prazer de pedir demissão, pelo menos uma vez na vida.
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