Um mergulho na floresta feita de água e verde, terra e homem
por Otávio Rodrigues fotos Araquém Alcântara
slideshow_amazonia_1.jpg|Olhando de cima, a hiléia exibe sua natureza imensa, vasta. Como se estivéssemos em alto-mar, forçamos a vista ao longe – e tudo o que vemos é a superfície verde. As copas das árvores, assim compactadas, estendendo-se até o infinito, compõem a imagem mais consagrada da grande floresta, tanto nas fotografias quanto em nosso imaginário. Ora, a Amazônia brasileira tem 6,86 milhões de quilômetros quadrados, algo como 60% de nosso território. É uma área tão grande que nela caberiam Alemanha, Áustria, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Holanda, Itália, Noruega, Polônia, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça – com folga. Mais do que impressionar com tal amplidão, esse conjunto natural colabora para a manutenção do clima do planeta: um desequilíbrio na bem resolvida trama da selva tropical, regida por ciclos de chuva e altíssima umidade relativa do ar, poderia trazer conseqüências perigosas às espécies vegetais, minerais e animais – o ser humano incluído, é claro.|slideshow_amazonia_2.jpg|Calcula-se que a Amazônia brasileira possua 22 bilhões de árvores. E em cada espécime desenvolvem-se e vivem dezenas, centenas de outras espécies da flora e da fauna. O ambientalista João Meirelles afirma que uma castanheira pode abrigar até 50 plantas diferentes. “Em uma única árvore dessas, com suas 700 toneladas e 600 anos de vida, pode haver 50 espécies como bromélias, orquídeas e cactáceas, e pelo menos 1700 espécies de invertebrados associadas”, calcula. Curiosamente, sob o dossel descobre-se um mundo onde a luz do sol nunca chega, impedida pela maciça formação de galharia, de folhagens, parasitas e cipós. Nesse ambiente escuro e úmido, a luz é rara, incerta, pontua o chão que nem pele de onça. Entre as sombras, surgem formas de vida que não existem em qualquer outro lugar do mundo, o que reforça a idéia de uma Amazônia tão grande quanto desconhecida. Sabe-se de cerca de 300 espécies de mamíferos, sendo que 64 delas são endêmicas – só existem ali. E o mesmo ocorre com quase metade de todas as aves amazônicas.|Sol não entraslideshow_amazonia_3.jpg|Mas a Amazônia engana... Trata-se da maior bacia hidrográfica do planeta, um sistema que drena 25% das águas da América do Sul. “A Amazônia não é terra, é água”, afirma o jornalista Washington Novaes, que dedica boa parte de seu tempo e de sua energia às questões ambientais. De fato, muito do verde amazônico esconde lá embaixo, sob a canópia, um universo de rios, igarapés, paranás, lagos e lagoas que, alinhados, dariam a volta ao mundo algumas vezes. E a variedade de peixes é tamanha que, em apenas um rio, é possível encontrar mais espécies do que em toda a Europa. No período de chuvas fortes, alguns rios, como o Amazonas – maior do mundo em extensão e volume de água – chegam a ter quilômetros e quilômetros entre uma margem e outra: de um lado é impossível ver o lado de lá. Nas cheias, rios grandes e pequenos se misturam, e já não se sabe onde um termina e onde outro começa, compondo alagados fenomenais.|A Amazônia é águaslideshow_amazonia_4.jpg|Nos anos de 1970, a doutrina desenvolvimentista do governo militar atraiu milhares de brasileiros à região. O raciocínio: “No Nordeste sobra gente e falta terra, no Norte sobra terra e falta gente”. A presença humana ali, contudo, remonta a cerca de 12 mil anos, e há indícios de que grandes populações ribeirinhas tenham se formado, algumas inclusive em aldeias fortificadas, conforme estudos do arqueólogo Eduardo Góes Neves, autor de Arqueologia da Amazônia. Ele defende que o homem seja parte da floresta, uma vez que vem contribuindo historicamente para a disseminação de espécies vegetais e animais. Dizendo de outro jeito, a floresta não seria o que é se não houvesse gente vivendo ali, nos alagados, nas barrancas dos rios, nas casas de palafita. Nada mais sensato, portanto, que se pense na manutenção dessa natureza com a participação humana, necessariamente por meio de projetos de desenvolvimento sustentável. A Amazônia é a casa de mais de 20 milhões de pessoas e essa é, no fundo, a circunstância que pode ajudar a preservar a grande floresta.|20 milhões de brasileiros