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Ora é um cuco que precisa de conserto, ora um pêndulo que precisa de ajuste. Às vezes, é necessário esperar que a corda se descarregue para atestar se o reparo funcionou. Isso pode demorar até um mês um cuidado importante para quem faz do tempo seu ganha-pão, como é o caso do seu Shigueo Cadecaua, 65 anos, 46 deles dedicados ao trato com os relógios. Entre sua clientela, famílias tradicionais que mantêm antigos exemplares, passados de geração em geração. Nosso relojoeiro arqueia as sobrancelhas e define: São coisas de bisavô. Numa galeria da paulistana rua Augusta, sua oficina serve de vitrine para vários modelos europeus clássicos. O mais antigo, vindo da Inglaterra, já completou um século. Até a década de 1970 (quando chegou a pilha), ele fazia reposição de peças, mas, hoje em dia, muitas já não são encontradas e é preciso montar as engrenagens ele próprio, como se as fabricasse. Até aprendeu marchetaria, para refazer com esmero caixas de antigos relógios. Ele mesmo acredita que, em poucos anos, com os relógios cada vez mais descartáveis, sua profi ssão terá muito pouco espaço. Mas, para quem lida diariamente com a passagem do tempo, pensar no futuro não é prioridade. Seu Shigueo está mais interessado em reverenciar o passado e recuperar peças para o presente.
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