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Nova Iorque esteve poucas vezes na minha lista de destinos preferidos para ir com as crianças por algumas razões: primeira, porque é o templo do consumo e para quem preza o companheirismo e não a busca por “compras” durante as viagens em família, fica difícil escapar de tantas vitrines. Outra razão é que sempre tive a impressão de ser uma cidade para executivos, jovens e solteiros. Estive diversas vezes lá, mas sempre para participar de reuniões, feiras de negócios ou cursos. Imaginava então ser pouco apropriada para os pequenos. Uma boa revelação!
Há dois meses atrás, estive lá para escrever meu segundo guia da série Ciranda do Mundo e mudei minha percepção sobre cidade. Agendei antecipadamente todas as minhas visitas, empacotei nossas tralhas para passar 15 dias lá e embarquei com o meu filho Lucas.
Ao chegar, nos hospedamos num hotel bem localizado para podermos desvendar a Nova Iorque além de Manhattan, indo para o Brooklyn, Queens e Bronx que eu, como executiva, não conhecia. Usamos todos os meios de transporte: trem, ônibus, táxi, barco, metro (ufa!), para poder descobrir todos os trajetos. Cada dia tinha um roteiro pré-definido. Todas as noites, eu contava para o Lucas na hora de dormir qual seria o nosso passeio do dia seguinte. Após o café da manhã, tínhamos o ritual da aventura: olhávamos o mapa, programávamos o tipo de transporte, organizávamos a mochila e seguíamos em frente para mais uma descoberta. Nesta viagem, achamos pequenas pérolas como um teatro de marionetes no meio do Central Park, escondido por dentre as árvores. Fomos ao Queens, aonde vimos bandeiras brasileiras estendidas nas janelas das casas e visitamos lugares fascinantes como o Museu da Imagem onde criamos nosso próprio desenho animado! Fomos ao Brooklyn conhecer o primeiro museu ecológico para crianças e ao Bronx fazer um safári urbano em um dos maiores zoológicos do mundo. Parece tudo fácil, mas devo confessar que em alguns passeios nos perdemos, mesmo tendo mapa e informações detalhadas nas mãos.
Lembro num final de tarde, quando estávamos voltando do Jardim Botânico quando nos perdemos no meio do Bronx. Um dia antes, eu havia lido que o ônibus (MX011 que não me esqueço até hoje!) tinha horário limitado durante os dias da semana e que sua última parada para retorno era às 17:40h. Porém, estávamos tão entretidos no passeio que me esqueci completamente do horário da volta. Ao chegar ao ponto de ônibus: cadê ele? Não tinha ninguém e nada ao meu redor. Andamos, andamos e andamos (o Lucas no carrinho) até encontrar alguém. Feliz eu perguntei a uma senhora, aonde eu podia tomar uma condução para Manhatan. Ela sorridente me disse: querida, eu sou de New Jersey e não conheço nada aqui. E você de onde é? Eu disse: eu sou do Brasil e estou desesperada por uma condução. Continuei andando, quase sem fim. Pensei em tomar um táxi, mas ao consultar um guarda de rua, ele me disse: aqui não tem táxi, somente carros-ciganos, portanto, não pegue. Enquanto isto, o Lucas me perguntava: mãe onde estamos indo? Eu disse (mantendo a calma aparente) que estávamos um pouco perdidos, mas que não podíamos desistir de achar o nosso ônibus de volta. Ele então, com um olhar confiante me disse: desistir, jamais! Continuamos a andar até enxergarmos um posto de gasolina. Entrei na loja de conveniência e pedi ajuda para o caixa, um senhor indiano. Ele fez questão de me acompanhar até o ponto de ônibus e muito solidário, me perguntou seu eu precisava de água ou comida.
Agradeci e só de saber o caminho de volta já era a melhor notícia do dia. O ônibus chegou e ao entrar nele, respirei fundo e sorri para o Lucas. Disse para ele: filho, você tem razão a gente não pode desistir nunca, mesmo quando aparecem estas pequenas dificuldades. Ele então, olhou para mim e disse de novo: desistir, jamais! E depois descansou a cabeça no meu braço e dormiu durante o caminho de volta.
* Anna Chaia é consultora.
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