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Quando fui para a Copa da Alemanha com a perspectiva de passar 40 dias longe de casa, fiquei aliviada ao saber que teria um quarto individual na maior parte do tempo, com apenas alguns dias em quarto compartilhado com uma colega. O alívio, tenho certeza, era dela também.
Em uma viagem de férias, são grandes as chances de brigar com a melhor amiga por causa de hábitos diferentes. Uma gosta de deixar a roupa esparramada quando chega, acumulando tudo até o grande “dia da arrumação”. Outra prefere dedicar um pouco de tempo toda noite, por mais cansada que esteja, para não precisar se preocupar com isso num dia de folga. Uma gosta de acordar e fi car horas no banheiro; outra também! Uma lê para dormir, a outra vê TV. As chances de aborrecimento recíproco são infi nitas, mais ainda quando a situação não é de lazer. Na estrada a trabalho, o quarto do hotel é seu único refúgio depois de horas de serviço – em viagens assim, todo minuto é usado até o osso – e não poder gozar do seu jeito de tirar a roupa, usar o banheiro e ler-vendo-TV é fonte de muito estresse adicional.
Depois de semanas na Europa chegaram, enfim, os dias e noites em que eu e minha colega moraríamos juntas. E... foi uma tranqüilidade só. Ela não é do tipo “ultra-arrumadinha”. Também deixa as malas mais ou menos abertas, mais ou menos bagunçadas. Que bom, não fico tão preocupada com a aparência das minhas. Dorme com os olhos e ouvidos protegidos, e garante que eu posso fazer o que quiser antes de dormir que não serei capaz de perturbá-la. Topa ar-condicionado ou janela aberta, tanto faz. É superdiscreta quando chega e sai. Um sonho de acompanhante.
Mesmo assim, tem uma tensão inevitável. Ela não me dá nenhum motivo para desconforto, mas será que eu não a incomodo? Será que ela quer usar o chuveiro agora e acha que estou demorando debaixo d’água? Será que está preocupada comigo e toma um banho mais apressado que o necessário para não me atrasar?
Quando voltamos a ficar sozinhas, alívio outra vez. Posso entrar correndo, largar minhas coisas – papéis, livros, chocolates – de qualquer jeito em cima da cama ou do aparador e sair. Posso pendurar os casacos no encosto da cadeira. Posso deixar a TV ligada com volume alto enquanto tomo banho. Liberdade!
Mas... sinto falta da companhia, às vezes. E em um momento em especial lamento ter ficado sozinha: na hora de arrumar as malas para mudar de cidade. Quando o quarto era dividido, mesmo sem haver qualquer pressão por parte dela, minhas coisas ficavam mais arrumadas e sob controle. A diferença ficou escandalosamente visível na hora de empacotar a bagagem. Levei o dobro do tempo.
Disciplina interior é muito importante. Para ser mais organizada e menos dispersa, preciso estar firmemente disposta e aplicada nisso. Mas um pouco de “coerção social”, a presunção de algumas regras simples e lógicas, faz um bem danado à disciplina interna. Entregue à minha total indisciplina, percebi o quanto preciso de alguém para (eu) dar um jeito em mim. O quanto levar o outro em conta me faz bem.
Soninha Francine, 39 anos, gosta de viajar tanto só quanto com um bando de amigos. almafeminina@abril.com.br
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