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Ande pelas ruas de qualquer grande cidade ou pegue um ônibus. Será impossível não perceber os sinais de uma mudança comportamental profunda que começou na última década e vem se acelerando. Repare como as pessoas ao seu redor quase não estão presentes, sem se olharem ou conversarem, como que distraídas com alguma coisa. Embora seja tentador procurar as causas na rotina cheia de compromissos que levamos ou na violência urbana, os causadores dessas modificações são muito mais prosaicos. Apesar de estarem tão presentes no dia-a-dia que ficam difíceis de enxergar, telefones celulares, câmeras digitais e tocadores de MP3 vêm mudando a maneira como nos comportamos e nos relacionamos com as pessoas ao redor.
Abraçamos essas tecnologias com entusiasmo, imaginando seus benefícios, para depois nos vermos envolvidos em situações imprevistas. Os custos sociais só se tornam evidentes muito tempo depois de sua adoção, diz Howard Rheingold, estudioso americano das conseqüências das tecnologias de comunicação modernas. Não faltam exemplos dos bons e maus resultados de novidades tecnológicas adotadas sem reflexão como o automóvel, que reestruturou cidades e é o principal responsável pelo aquecimento global.
Será que, se os cidadãos do início do século 20 tivessem prestado mais atenção em como as carruagens sem cavalos estavam mudando suas vidas, eles poderiam ter encontrado jeitos de usar a liberdade e conveniência dos automóveis sem transformar o habitat dos seus netos de maneira ruim?, pergunta Rheingold em seu livro Smart Mobs (Multidão inteligente, sem edição brasileira). Para ele, temos o dever de imaginar que perguntas nossos netos gostariam que nós fizéssemos às tecnologias antes de adotá-las.
Nenhuma tecnologia é inerentemente boa ou ruim, mas isso não quer dizer que ela seja neutra: todas as ferramentas reestruturam em maior ou menor grau a sociedade. Por isso Rheingold sugere que não questionemos só a tecnologia, mas também o modo como ela nos transforma.Tentar enxergar as mudanças no comportamento e na vida social é o primeiro passo para refletir sobre sua adoção e continuar (ou não) seu uso.
Parar de usar uma tecnologia qualquer é uma possibilidade que deve ser explorada, pelo menos hipoteticamente. Mas a questão é mais de intensidade do que uma solução simplista saber quando desligar o telefone celular pode manter seus benefícios e diminuir os prejuízos. O problema é que a escolha muitas vezes foge ao controle do indivíduo, porque as tecnologias criam expectativas sociais difíceis de ignorar.
Foi isso que o médico Antônio Barcelos, do Hospital das Clínicas, em São Paulo,descobriu sobre os telefones celulares depois que começou a dar seu número para pacientes com câncer. Sei que isso os tranqüiliza, mas fico angustiado toda vez que o telefone toca, porque pode ser um problema que não tenho como resolver, afirma. Por outro lado, ele fica ainda pior se desliga o aparelho.Fico imaginando se algum paciente ligou, por isso até durmo com o telefone do lado, diz o médico, que vive com mais intensidade uma sensação familiar para muita gente.
Há alguns anos, antes da popularização dos celulares, pessoas na mesma situação dos pacientes de Barcelos aceitariam que, em certas horas, seu médico não estivesse disponível.Hoje, poucos podem evitar ter seus momentos de sossego invadidos por ligações fora de hora porque os telefones estão sempre ligados em caso de emergência. Novamente, não é a tecnologia a culpada da situação, mas seu uso sem que se pense na necessidade dos outros.
É difícil negar que os celulares e tocadores de MP3 já causaram mudanças na maneira como encaramos o tempo e os espaços públicos. Estudos realizados na Itália e nos EUA mostram que as horas de trabalho diminuíram, mas a impressão é que o trabalho aumentou. A explicação é que o tempo se tornou para nós algo a ser totalmente preenchido simplesmente porque há a possibilidade de preenchêlo. Se a rua era um lugar onde éramos obrigados a estar de fato presentes porque estávamos inacessíveis, hoje ela é um lugar por onde passamos enquanto resolvemos problemas ao telefone ou ouvimos músicas que nós mesmos selecionamos por horas a fio.Criamos casulos ao nosso redor em público, reagindo a tecnologias anteriores que permitem a milhões de estranhos trabalhar juntos em cidades em escala inumana, explica Rheingold.
Esses efeitos são parte do que o escritor de ficção científica e crítico de design americano Bruce Sterling chama de o lado de baixodas tecnologias. Muita gente é paga para promover os aspectos positivos de todo tipo de produto, mas quase ninguém ganha para apontar os defeitos e efeitos colaterais inerentes a qualquer artefato tecnológico, diz Sterling, que acredita que essa preocupação deve ser um princípio orientador da criação, da crítica e da decisão de comprar (ou não) um produto. Como ele explica no livro Shaping Things (Formando coisas, sem edição brasileira), cada tecnologia tem um custo que vai além não só do dinheiro gasto nela, mas também da atenção exigida de cada consumidor. Cada um de nós deve, portanto, identificar e decidir se está disposto a pagar esse preço (em todos os sentidos).
É isso que torna tocadores de MP3 diferentes de walkmen, câmeras digitais mais complexas que analógicas e celulares mais incômodos que telefones fixos. Ao mudarem a escala de funcionamento dessas tecnologias mais músicas, fotos de graça, ligações em qualquer lugar , essas novidades criam novos usos e exigem mais atenção, tempo e disposição. Tanto uma câmara digital quanto uma analógica exigem que o indivíduo se distancie do momento para fotografar. Por outro lado, as digitais permitem que as fotos sejam partilhadas imediatamente por todo mundo. Há aspectos sociais e antisociais em todas as tecnologias, afirma Rheingold.
Se a maior parte das tecnologias modernas é de uso individual e isola as pessoas do seu entorno, a psicóloga america Michelle Weil, autora de Technostress: Coping with Technology (Tecnostress: lidando com a tecnologia, sem tradução em português), sugere estratégias para minimizar o aspecto anti-social. Uma boa idéia é criar atividades que envolvam a tecnologia e toda a família, sugere.
Viver o momento e aprender que as máquinas de todo tipo podem ser desligadas é importante para preservar nossa saúde física afinal, ninguém é capaz de funcionar no mesmo ritmo delas. Não é só porque a tecnologia é capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo que nós precisamos tentar o mesmo, diz Michelle. Para ela, a possibilidade de viver uma vida multitarefas faz com que tentemos fazer mais e mais coisas. Esse comportamento é uma fonte de ansiedade e causa prejuízos ao sono e à memória, diz a psicóloga, que acredita que tentar fazer uma coisa de cada vez não só diminui o estresse como também reduz a necessidade de refazer tarefas.
É importante reconhecer que há mais tecnologias por aí do que jamais conseguiríamos usar para lidar bem com elas, diz Michelle. Segundo a pesquisadora, a abundância de tecnologia é uma fonte de angústia porque nos preocupamos em aprender a lidar com todas, e isso é impossível. Selecione as tecnologias de que você realmente tem necessidade e que vão beneficiar você e ignore o resto, sugere ela para aqueles que sofrem de angústia tecnológica.
Sterling concorda e dá outra dica importante: tentar entender o ciclo de vida das tecnologias. Para isso, ele criou o Dead Media Project, que cataloga a história de meios de comunicação que desapareceram. Com elas aprendemos que muitos dos desafios que enfrentamos hoje são temporários e ligados a um momento técnico específico, acredita. Em outras palavras: relaxe, porque celulares não vão necessariamente tocar para sempre.
Livros:
Smart Mobs: The Next Social Revolution, Howard Rheingold, Basic Books
Technostress, Michelle Weil, John Wiley
Shaping Things, Bruce Sterling, MIT Press
Confira um site em que você pode saber mais sobre tecnologia. Um passo a mais para ter uma relação muito melhor e menos traumática com ela
www.deadmedia.org
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