Expectativa e torcida
De nada adianta ficar sofrendo por antecipação
Soninha Francine
Às vezes percebo o quanto vivo em função de expectativa. Que às vezes se apresenta sólida, gritante, violenta – quando você tem uma festa “importante” para ir, aguarda o resultado de um exame, se prepara para um encontro ou as férias. O tempo começa a correr de trás pra diante, se transforma em contagem regressiva. A sensação pode ser de impaciência ou de medo razoavelmente agradável – aquele frio na barriga que, até certo ponto, apreciamos. Ou de medo totalmente desagradável, como ele quase sempre é.
Se é esse o caso, o desafio está claro e o jeito é lidar com ele. Procurar se distrair enquanto o tempo faz sua parte, ou mergulhar nos preparativos de modo a reduzir o desconhecido e dissolver a ansiedade – quando dá, claro. Qual o preparativo possível quando você já fez a prova de um concurso e só precisa saber se passou? Ou quando fez o teste de gravidez?
A gente sabe que não adianta nada sofrer por antecipação – mas sofre. O desafio supremo: viver o presente.Como pode ser tão complicado, sendo que é a única coisa possível? É o único tempo ao nosso alcance! No entanto, que dificuldade absurda temos em não nos deixarmos consumir por conjecturas ou reminiscências.
Falo das grandes expectativas, mas é preciso pensar nas pequenas, que tanto têm me feito sofrer.Como correr para o computador de manhã me perguntando: “Vai ter e-mail daquela amiga que se mudou para longe? Será que ela recebeu minha mensagem, entrou no site que eu sugeri, abriu o anexo com aquela foto?” Fico tão ansiosa e curiosa que antecipo a resposta – e decepcionadíssima se ela não estiver me esperando na caixa postal exatamente como eu previa.
O dia segue assim, entre pequenas frustrações ridículas, fruto de todas as coisas que fico torcendo, inutilmente, para acontecerem... Inutilmente por quê? Porque a torcida e a expectativa não farão a menor diferença! “Tomara que não tenha acabado o iogurte”;“A gasolina tem de durar até chegar ao posto”;“Será que deixei a janela aberta? Não pode chover de jeito nenhum!” Chego a acreditar que tenho superpoderes. Que, se desejar com força suficiente, as coisas acontecerão do modo que quero.Tento fazer telepatia com o semáforo, comandando as luzes vermelhas e verdes de acordo com minha necessidade.Consigo, no máximo, uma dor de cabeça.
Não é possível não desejar – em outras culturas, as pessoas podem até ter menos desejos que na nossa, em que eles são incentivados o tempo todo (compre, veja, leia, coma, beba). Só não podemos deixar que o desejo se apodere de nós (o que todo mundo admite no caso da dependência de algumas substâncias, sem nos darmos conta de que somos dependentes de muitos pequenos desejos). Se pudermos conviver com todo tipo de expectativas, grandes ou minúsculas, sem nos sentirmos arrasados cada vez que uma delas é frustrada, tudo bem. Podemos torcer para ganhar na loteria, receber um telefonema de um amigo, conseguir aquele emprego ou para o time ganhar o campeonato, sem problemas – desde que estejamos preparados para um futuro que vive contrariando nossos desejos.
Soninha Francine sabe que não adianta torcer. A bola entra ou não no gol conforme o chute, não o grito. almafeminina@abril.com.br
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