slideshow_transiberia_01.jpg|Nas primeiras horas de viagem ainda se percebe o balano e o som das rodas deslizando pelos trilhos. Com o passar dos 7864 quilômetros, no entanto, o pulsar do trem se torna to natural quanto a respiração. Você age como se fosse parte da engrenagem que rasga metade da Terra na maior travessia férrea do planeta. São cinco dias e meio de jornada confortável - em cabine aquecida - entre Moscou e Pequim. Um percurso cinematográfico ao pé da letra: assiste-se nas largas janelas a um filme magnífico. Os cinco fusos horários que separam as capitais russa e chinesa transformam a locomotiva e seus vagões em um universo paralelo, com horário e regras próprias. Lá fora, desfilam atrações como Ekaterinburg (cidade onde o último czar russo, Nicolau II, e sua família foram aniquilados pelos comunistas), a Sibéria, o lago Baikal (o mais profundo do mundo) e a Mongólia (a última nação nômade do planeta). Quando a composição chega a Pequim comeaça parte difícil do périplo: habituar-se à vida sem o embalo do trem, já misturado à alma e aos batimentos cardíacos.|slideshow_transiberia_02.jpg|Dentro dos vagões, a vida segue rotina própria, como se o mundo exterior fosse só uma lembrança. No carro-restaurante, as refeições são servidas em uma babel de idiomas e de costumes. Os russos não ligam muito se o turista não conhece as palavras do alfabeto cirílico. Falam na língua local e entendem as respostas no idioma do forasteiro, principalmente depois de secar as provisões de vodca.|Língua do silêncioslideshow_transiberia_03.jpg|Para matar o tempo, vale partida de dominó, álbum de fotos, carteado, cruzadas, livros ou simples trocas de olhar repletas de silêncio. Nada se compara, porém, às horas que escoam sem pressa na cabine vazia - momentos em que não há como escapar dos próprios fantasmas.|slideshow_transiberia_04.jpg|Sim, é possível ir de Moscou a Pequim (ou a Vladivostok, no extremo leste da Rússia) sem quebrar a jornada em etapas. Agora, basta abrir o mapa-múndi para logo se entusiasmar com os destinos atravessados pelos trilhos transiberianos. Só assim a imagem congelada que se vislumbra através da janela ganha vida. Se a região é inóspita, imagine a força de quem lá vive.|Paisagem vivaslideshow_transiberia_05.jpg|Pessoas que resistem ao isolamento, mas nem por isso falham no trato com o turista. Pelo contrário. Festejam a visita, celebram, sorriem. Gente alheia aos avanços da modernidade e que assiste ainda incrédula ao fim da União Soviética, sempre infinita nos livros de história. Ao regressar à cabine do trem, a jornada continua - e tudo volta a ser paisagem.|slideshow_transiberia_06.jpg|A água do Baikal, lago mais profundo do mundo, é tão pura e cristalina que duas curiosidades devem ser ditas: ela engarrafada sem tratamento e quem se atreve a mergulhar pelos seus 1 637 metros de profundidade pode ter vertigem. Apesar de abraçar 20% da água doce da Terra, o Baikal é um misterioso desconhecido. Cercado por florestas de taiga e picos nevados, dever ganhar as manchetes em breve, quando as reservas de água potável mundo afora secarem. Enquanto isso, a pequena mancha azul logo acima da Mongólia continuar abrigando 1600 espécies endêmicas (encontradas apenas ali), como a única foca de água doce do planeta. Nos arredores, restos dos temidos gulags (campos de trabalho forçado da época soviética) jazem entre calorosos povoados indígenas, que levam a vida em total simbiose com o sagrado lago. Aproveite esse sossego. A próxima e definitiva parada da Transiberiana é Pequim, onde, enquanto tenta se equilibrar em terra firme, o estrangeiro ainda precisa sair pedalando na enxurrada de bicicletas que inundam a capital chinesa.|Mancha azul