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Baile da vida

Como o retorno da dança de salão mostra que podemos ser mais sociáveis, gentis e muito mais saudáveis

por Marcia Bindo

Pequenos redemoinhos se formam no salão.Embalados pela orquestra, pares enlaçados buscam o equilíbrio. Os pés dão a cadência e orientam o parceiro enquanto os braços em contato conciliam o movimento.Na dança a dois há essa ritmada e necessária dependência.Aqui é bem melhor quando um mais um é igual a um. Exige a interação entre as pessoas, a sutil comunicação entre os casais.Por essas e outras, também é conhecida como dança social: ajuda a aproximar as pessoas, a estreitar as relações familiares, as amizades e até mesmo os romances.

Portanto, senhoras e senhores, moças e rapazes: deixem de milongas, preparem os pisantes, ajeitem a lapela, arranjem um bom par e virem a página porque o baile vai esquentar.

Mas, antes de sair rodopiando por aí, vale entender um pouco mais do riscado. Lembra os primeiros bailinhos, ainda na adolescência, quando meninas e meninos acanhados dançando com os braços bem esticados arriscavam seus primeiros passos a dois nas matinês? Depois viriam aquelas poucas festas em que os bailes ainda têm alguma tradição: festas de 15 anos, formaturas, casamentos. Pois hoje há uma retomada desse bailado antigo, junto com o descobrimento de ritmos do passado e o reconhecimento de que faz bem dançar a dois.

Passo 1: socialização

É verdade que a dança é uma das manifestações mais remotas da humanidade. Nos primórdios, dançavase em grupos, em rituais dedicados aos deuses e à natureza.Mas a dança a dois só foi surgir de fato na Europa, na época do Renascimento, a partir do século 15. Cheia de não-me-toques e regras de etiqueta, tornou-se uma forma de lazer da aristocracia, nos pomposos salões das cortes. Chegou ao Brasil trazida pelos colonizadores portugueses ainda no século 16 e, mais tarde,pelos imigrantes de outros países da Europa que vieram para cá. Professores de dança europeus, principalmente franceses, eram contratados para manter a nobreza brasileira em dia com os bailados que estavam na moda no Velho Mundo. Não tardou e a dança de salão foi se popularizando e se mesclando aos ritmos dos povos indígenas e africanos, diz a antropóloga e pesquisadora de dança de salão Jussara Vieira Gomes. Em 1900 e lá vai fumaça, dançava-se no Brasil a valsa, a polca, a mazurca, o xote e a quadrilha, que na época (veja só!) era uma dança refinada e só mais tarde se transformou na quadrilha caipira das festas juninas que conhecemos hoje. Ao tentar copiar a dança da burguesia, o povo foi modificando a forma de dançar e criando outras maneiras de bailar, com mais jogo de cintura e molejo, como o maxixe e o samba de gafieira, diz Jussara. Até a década de 1960, os bailes eram uma verdadeira coqueluche, um dos eventos sociais mais importantes e populares entre todas as camadas sociais.

Passo 2: redescoberta

Essa tradição começou a sair de cena de fininho, com o aparecimento da disco music. A palavra de ordem nos anos 70 era libertação: os casais passaram a dançar sem se tocar, de maneira mais livre e solta, sem regras nem muito menos a necessidade de um parceiro. As discotecas reinaram por duas décadas, deixando quase no esquecimento as danças sociais tradicionais, que acabaram ganhando fama de dança da terceira idade.Nesse período, foi praticada em poucos lugares, quase sempre em bairros de periferia das grandes cidades e no interior do país.

Quem imaginaria que o sucesso internacional da lambada no fim dos anos 80 e, na década seguinte, a disseminação do forró nos centros urbanos iriam contribuir para que os mais jovens descobrissem o prazer de dançar a dois? Esse foi o pontapé para o descobrimento de outros ritmos de dança de pares. Daí para a multiplicação de escolas de salão foi um pulo. Até então, dava para contar nas mãos o número de escolas no Rio e em São Paulo.Hoje existem mais de 150 só na Grande São Paulo, diz Milton Saldanha, bailador e editor do jornal Dance, que circula nas escolas de dança de salão pelo Brasil afora.

A volta por cima também aconteceu com as casas e clubes de baile dedicados a ritmos latinos como bolero, salsa, merengue, tango e os brasileiríssimos samba e forró. Que o diga o baterista Domenico Lancelotti, um dos fundadores da Orquestra Imperial, uma big band carioca que, com seu repertório sentimental de músicas antigas, está revitalizando a idéia da orquestra de baile.Sinto que cada vez mais pessoas estão buscando o ambiente de confraternização dos bailes antigos, diz.

Passo 3: galhardia

Foi na universidade que os irmãos Andrei e Vladimir Udiloff criaram gosto pelo bailado.Era um perna-depau, tímido e travado, um desastre.Na formatura, minha mãe ficou frustrada porque eu não sabia dançar a valsa e me fez prometer que eu ia entrar na aula de dança. Comecei a praticar e não parei mais, conta Andrei, que em cinco anos deu no pé da engenharia e abriu com o irmão uma escola de dança de salão em São Paulo. A dança de salão é como uma linguagem universal, uma possibilidade de romper barreiras raciais, culturais, econômicas. Os alunos chegam com vontade de aprender a dançar e acabando descobrindo como se relacionar, se integrar melhor em grupo.O público que não quer pisar em falso é variado: mulheres e homens, na faixa dos 25 aos 55 anos, predominantemente solteiros.O advogado Marco César Sampaio começou a fazer aulas para destravar e, quem sabe, arranjar um par. A maior dificuldade do homem é aprender a conduzir. Ainda mais hoje, que a mulher se tornou mais independente e tem mania de querer levar o homem, afirma.Na dança de salão é assim: se os dois quiserem guiar, a dança não flui. Existe a entrega da dama, que precisa se deixar levar livremente, enquanto o cavalheiro dá as coordenadas.

De lambuja, as aulas de dança de salão exercitam a gentileza.O homem é estimulado a praticar o cavalheirismo, a delicadeza no trato com a dama. E o casal exercita o respeito com o parceiro e com os demais pares no salão. Sem pretensões de ser um Fred Astaire ou Gene Kelly, há três anos o casal de médicos Anália Reis, 48 anos, e Edson Paiva, 47, começaram a ensaiar uns passinhos em uma escola.A dança ajuda a dar uma liga com o parceiro, conta Anália. Hoje a dupla consegue curtir festas dançantes e ainda quebra a rotina fazendo uma atividade prazerosa juntos.

Passo 4: bem-bom

É de tirar o chapéu o benefício da dança de salão para a saúde. Por ser uma espécie de ginástica de baixo impacto, pessoas de todas as idades e em diferentes estados de condicionamento físico podem praticar sem maiores dificuldades. Para a educadora paulista Marta Coelho, 45 anos, a dança é um momento de encontrar os amigos e descarregar tensões, e ainda traz relaxamento e descontração. Minha postura ficou mais garbosa, elegante, e hoje tenho mais equilíbrio e coordenação motora, afirma. Também dizem que fiquei mais desinibida mas isso já são outros quinhentos.

Para não meter os pés pelas mãos na dança de salão, uma dica é freqüentar bailes, observar outros casais, ficar atento aos ritmos e escutar muita música. Fazer aulas, claro, também dá um norte.

O pé-de-valsa Carlinhos de Jesus explica que o principal é perceber a dança como uma meditação.Me concentro na música, deixo o corpo ser contagiado pelo ritmo, me conecto com o par e começo a dançar. Nesse momento, todo o resto deixa de existir, conta. Se uma pessoa chega para dançar toda marrenta,durona,primeiro tem que se desligar de preconceitos. Se você se entregar, quando vê, está fazendo coisas que nem imagina.

Para saber mais

Filmes:
Vem Dançar, Leonardo Heffe, 2006
Vamos Todos Dançar, Marilyn Agrelo, 2005

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