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Janeiro de 1927, verão carioca tipicamente chuvoso. Naquele fim de década aconteceram na então capital do Brasil fatos que ficariam para a posteridade: Cartola fundou a Estação Primeira de Mangueira, perpetuando em sua bandeira o verde da esperança e o rosa do amor. Aloysio de Oliveira criou o Bando da Lua, grupo que fazia bonito ao lado de Carmen Miranda aqui e nos Estados Unidos. E o Cristo Redentor, como que pairando sobre o Corcovado, foi inaugurado para olhar a cidade para sempre.
No dia 25 daquele janeiro, na rua Conde de Bonfim, 634, no tradicional bairro da Tijuca, nascia Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Seu nascimento certamente não provocou comoções gigantescas como a inauguração do Cristo, muito menos deve ter gerado batucadas como as ouvidas no morro da Mangueira. Porém, naquela noite chuvosa, sem que ainda se soubesse, o mundo ganhava um dos maiores músicos de todos os tempos.
A frase acima pode parecer exagero, lugar-comum, clichê. Mas ouvindo músicas como Águas de Março(o samba mais bonito do mundo, nas palavras de Chico Buarque, e motivo de admiração de um poeta como Carlos Drummond de Andrade),Wave,Triste, só para ficar entre as mais conhecidas, dá para perceber que não é exagero. Na verdade, o difícil mesmo é entender o que a música de Tom assim apelidado por sua irmã Helena provoca na gente.
Tom nasceu na Tijuca, mas logo iniciou uma série de mudanças que marcariam sua infância. Em 1931 a família trocou o bairro por Ipanema, na época ainda um areal quase desabitado. Ficaram por lá um breve período, logo indo para Copacabana. Em 1935, Jorge Jobim, seu pai, faleceu. Tom, Helena e a mãe foram morar numa pensão no mesmo bairro. A mãe de Tom logo se casou novamente e a família voltou para Ipanema, numa casa com fundos para a lagoa Rodrigo de Freitas. Naquele tempo, a zona sul carioca ainda não provocava o fascínio que a geração de Tom ajudou a fomentar com música, poesia e atitude: no fim do século 19, a região do Jardim Botânico era um bairro fabril e a lagoa, uma área desvalorizada. Nessa época, de acordo com Tom, a lagoa era transparente, com algumas conchas no fundo, garças, marrecos, gaivotas, martim-pescador. Esse lado ainda selvagem do bairro foi muito explorado por ele, que tinha uma relação intensa com a praia: nadava, pescava e às vezes arriscava um mergulho das pedras do Arpoador. Tal fascínio pela natureza iria aparecer em sua obra mais tarde, em canções sobre o mar, a floresta e os pássaros.
Ao lado da intensa vivência com a natureza, já existia a paixão pela música. Por volta dos 14 anos,Tom deparou com um piano na garagem de casa.Era alugado, para que Helena aprendesse a tocar.Mas ele é que seria fisgado pelo instrumento a irmã queria ser escritora. Começou a aprender e a exercitar seus conhecimentos em escala, composição, harmonia, além de estudar compositores clássicos como Chopin, Debussy e Villa-Lobos. Foi nessa época que Tom compôs Imagina, valsa que na década de 1970 ganhou letra de Chico Buarque para o filme Para Viver um Grande Amor, e que também entrou no CD Carioca, recentemente lançado por Chico.
Tom cresceu, e também cresceu nele a vontade de viver de música. Um ditado antigo dizia que música não dava dinheiro a ninguém, e, como era bom em desenho, prestou vestibular de arquitetura. Em 1949, com 22 anos, casou-se com Thereza Otero Hermanny, sua namorada desde os primeiros anos da adolescência. Deveria haver outro ditado dizendo que segurança não traz, necessariamente, felicidade. Tom logo percebeu isso: abandonou as plantas e as réguas e foi fazer o que mais sabia: tocar piano.
Tocar piano na noite carioca dos anos 1950, mais precisamente. E Tom foi parar justamente onde tudo fervilhava: em boates como Drink, Sachas e Vogue, encerrando a noite no boteco Far-West, no Posto 6.Uma Copacabana regada a hectolitros de uísque e movida por paixões fulminantes. O jovem Tom tocava em boates que seriam berço de grandes nomes que logo estourariam com a bossa nova, como Newton Mendonça, Johnny Alf, Dolores Duran e Silvinha Telles.
As andanças de Tom pelas madrugadas foram curtas, ao menos como pianista: em 1952 ele tornou-se arranjador da gravadora Continental.Foi lá, passando para a pauta sambas alheios (mas não quaisquer: alheios como Pixinguinha,Assis Valente,Ary Barroso, Dorival Caymmi, Ismael Neto), que ele se animou a compor.O gaúcho Radamés Gnatalli, maestro da Continental e grande pianista, regente e compositor, adotou Tom como seu mais ilustre afilhado musical.
Em abril de 1953, Tom estrearia como compositor em disco gravado por Muricy Moura, com o samba Incerteza, em parceria com Newton Mendonça. Dois meses depois, mais duas composições em um disco de Ernani Filho: Pensando em Você e Faz uma Semana.
Sinfonia do Rio de Janeiro, parceria de Billy Blanco com Tom Jobim, de acordo com a versão do primeiro, nasceu a bordo de uma lotação, em pleno verão de 1954. Billy estava a caminho de casa, em Ipanema, quando percebeu a paisagem exuberante a montanha, o sol, o mar de Copacabana , que lhe rendeu uma inspiração musical instantânea: Rio de Janeiro, que eu sempre hei de amar/ Rio de Janeiro, a montanha, o sol, o mar. Com medo de esquecer o mote, saltou da lotação, entrou no primeiro botequim e ligou para Tom, pedindo que ele anotasse tudo. Assim nasceram os primeiros compassos da Sinfonia do Rio de Janeiro um tremendo fracasso de vendas, mas que consolidou a reputação de Tom e antecedeu o primeiro grande sucesso do compositor, Tereza da Praia, também de 1954.
O fim dos anos 1950 trouxe para Tom aproximações que renderiam frutos para a história da música popular brasileira. Em 1956 ele conheceu Vinícius de Moraes, diplomata e poeta já famoso nas rodas boêmias. E fizeram, logo de saída, a ópera Orfeu da Conceição (cujo título foi sugerido por ninguém menos que o poeta João Cabral de Melo Neto), de onde saíram obras-primas como Se Todos Fossem Iguais a Você e Lamento do Morro.
Já instalado no apartamento da rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema, Tom fazia valer a amizade com Vinícius: uísque, madrugadas em claro e criação de samba era o que não faltava. Além disso, mais um novo amigo viria para a turma, e ainda trazendo um violão: um baiano cabeludo e esquisito, ninguém menos que João Gilberto.
Pois Tom foi um dos pais da bossa nova meninos como Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e Nara Leão acharam na batida de João Gilberto e nas composições de Tom seu lugar no mundo. Ou pelo menos no Brasil. E não era qualquer Brasil. O país que Tom revelava em suas harmonias e acordes vivia de promessas: de desenvolvimento, com a construção de Brasília, a nova capital. De modernidade, com os automóveis Kharmann Ghia, os vôos da Panair, as belas meninas de vestido tubinho, cílio postiço e biquíni. E, especialmente, promessas de elegante e sutil delicadeza que pairava sobre as canções: Muita calma pra pensar/ E um cantinho pra sonhar/ Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo, dizia Corcovado, uma de suas incontáveis obras-primas.
A música de Tom Jobim nos transporta a esse lugar repleto de poesia, natureza e encontros. Pois é. Fundamental é mesmo amar.
Se Este teu Olhar, Meditação e Garota de Ipanema, nos anos 1960, já revelavam a beleza das canções de Tom que gravaria com Frank Sinatra um álbum clássico do cantor americano , as canções seguintes ainda trariam muitas surpresas. Só de saída, as muitas parcerias de Tom com Chico Buarque (quando o Tom entra com um acorde dele, parece que abriram uma janela), cada uma mais fenomenal que a outra. Só para citar algumas: Retrato em Branco e Preto, Sabiá, que inclusive protagonizou a célebre briga entre alienados e engajados ao vencer o III Festival da Canção e ser vaiada pelo público.
No auge da ditadura militar, começou a fase ecológica de Tom Jobim. Chamar de ecológicas músicas como Matita Perê, Águas de Março, Boto e Correnteza não define nem de longe o mergulho de Tom na natureza, perpassado por melodias sofisticadas que recuperavam ritmos como o baião e a embolada.Mas o fato é que o compositor conhecido pelos temas urbanos e modernos voltou-se para as raízes naturais que estavam nele desde a infância perdida entre a praia e as montanhas cariocas.Por muito tempo,Tom foi um grande defensor da natureza: um verdadeiro ambientalista, saindo em defesa dos rios e florestas.
Águas de Março foi escrita em papel de pão em meio às obras do sítio de Poço Fundo refúgio num vale fechado por onde passava um vento forte que Tom apelidou de vento redondo. Era março e a casa do sítio estava em construção, o que serviu de mote para uma das mais belas criações do compositor. Águas de Março alterna a força da natureza (É peroba do campo, é o nó da madeira/ Caingá, candeia, é o matita-pereira) com o estado natural das coisas que são levadas pela enxurrada do cotidiano, como as enumeradas na canção: é o fim do caminho.
Nos anos 1970 aconteceram mudanças na vida profissional e pessoal de Tom. Em 1977 separou-se de Thereza para casar-se com Ana Lontra, fotógrafa, com quem futuramente teria dois filhos: João Francisco (morto em um acidente de carro alguns anos depois da morte do compositor) e Maria Luiza. Nos anos 1980, além de trilhas sonoras de novelas e filmes (como Para Viver um Grande Amor e Gabriela), nasceu a Banda Nova, que contava com a participação de Danilo Caymmi, Paulo Jobim, Tião Neto, Paulo Braga, Ana e Beth Jobim, Simone, Paula,Miúcha (que faziam os vocais) e Jacques Morelenbaum.
Paratodos, canção de Chico Buarque de 1993, faz uma homenagem definitiva a Tom Jobim: Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro. Numa toada também inspirada numa música de Tom, Stone Flower (em que ele fez um de seus diversos autoplágios), Chico enumera grandes nomes da música brasileira (como Dorival Caymmi e Ary Barroso), numa jornada musical e poética que começa e termina em Antonio Carlos Jobim.
Um ano antes, ele recebera outra grande homenagem: ter sua obra como tema do samba-enredo da Mangueira. E lá foi Tom para a avenida, desfilar em cima de um carro com mais de 6 metros de altura.Morrendo de medo de cair, é verdade... mas firme no samba verde-e-rosa.
A celebração apoteótica na avenida, o reconhecimento popular de sua música (o que ele mais queria era que fosse entendida por todos), imortalizava Tom como Maestro Brasileiro, antecipando a canção de Chico: na avenida, era nascente e afluente de muitas tradições. Piano na Mangueira, feita em parceria com Chico, é um depoimento de quem parece não se importar com a própria grandiosidade: A minha música não é de levantar poeira/ Mas pode entrar no barracão.
Não apenas no barracão: a música de Tom já faz parte do entendimento do que somos ou do que queremos ser como brasileiros.Uma música que revela e recria o Brasil, tendo compromisso unicamente com algo que parece cada vez mais raro: a beleza plena, simples e verdadeira. Música que certamente só poderia ter sido inventada por alguém que certa vez chamou a si próprio de um aprendiz de ternuras.
Tom faleceu em 1994, aos 67 anos. Mas é urgente que viva, sempre, em suas canções, para que a gente não esqueça que o mundo pode e deve ser muito mais bonito.
Livros:
- Um Homem Iluminado, Helena Jobim, Nova Fronteira
- Três Canções de Jobim, Lorenzo Mammì, Arthur Nestrovski, Luiz Tatit, Cosac Naify
- Cancioneiro Jobim, Jobim Music/Casa da Palavra
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