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Para fazer um pote de cerâmica, Levi utiliza uma técnica que tem como um dos primeiros passos fazer uma corda de argila. Artesão da comunidade de Icoaraci, em Belém (PA), Levi explica que as cordas de argila são remendadas e postas uma sobre a outra manualmente até formar uma panela que, antes da queima, recebe ornamentos gráficos em tons de vermelho e preto. O vermelho vem de uma variação de cor de um tipo de argila encontrado na região, um pouco mais escuro. O preto é retirado da casca do cumatê, uma árvore amazônica.Ao reproduzir essa técnica de fazer e ornar a cerâmica, Levi mantém viva, com as mãos, a história do povo marajoara uma das primeiras civilizações de que temos notícia e que viveu por aqui antes mesmo de estas terras receberem o nome de Brasil.
O que Levi faz é artesanato, o assunto desta reportagem. Ele reproduz um objeto que, historicamente, nasceu para ser útil. Além disso, utiliza materiais da região e modos de fazer que, por si só, oferecem um depoimento sobre o povo que ali, na ilha de Marajó, vive ou viveu. Ele dá continuidade a um trabalho que começou há muitos séculos. Foi recuperado por seu pai, o Mestre Cardoso, e agora é o meio de sustento não só de sua família como de muitos grupos de artesãos da comunidade de Icoaraci. Por tudo isso, uma cerâmica produzida por Levi não é necessariamente um prato ou um pote. Ela representa a identidade do lugar onde ele vive. E, por isso, se encaixa no que estudiosos explicam como sendo artesanato.
Para entender essa história, vale recorrer ao começo de tudo.Desde sempre, nós, humanos, procuramos dar forma a matérias-primas disponíveis de acordo com nossas necessidades.Ao longo da história, transformamos argila, pedra e madeira, por exemplo, em objetos que nos fossem úteis. Nada mais sensato, pois ao fazer isso, como escreveu Fayga Ostrower em seu livro Criatividade e Processos de Criação, estamos a caminho da humanização, que é a necessidade nata que temos de dar sentido às coisas.
Assim, do barro, alguém fez uma tigela. E ensinou o amigo ao lado a fazê-la também.De um pedaço de madeira, surgiu uma canoa ou uma jangada, pois era preciso navegar, buscar o peixe para alimentar a família todos os dias. Sempre tendo como matéria-prima o recurso mais à mão em cada localidade. No início, era essa a serventia do artesanato: ser útil. Uma panela de cerâmica para cozinhar, uma boneca de pano para as crianças brincarem, uma rede para dormir, uma esteira para sentar, um cocar para reverenciar o líder, um ex-voto como símbolo de promessa de saúde inabalável.Mas a beleza muitas vezes nasce com o próprio objeto produzido. Porque, como escreveu o escritor mexicano Octavio Paz (1914-1998),o artesanato pertence a um mundo anterior à distinção entre o útil e o belo.Ou,em outras palavras, tudo aquilo que fosse útil inevitavelmente seria belo. E vice-versa.
E tudo que reconhecemos como belo, explica Ostrower, é porque detém algo que nos toca. Algo que sempre tem a ver com nossa cultura,com nosso meio, com nosso modo de sentir as coisas.Por isso mesmo,muitas vezes o artesanato é fonte preciosa de informação para se decifrarem antigas culturas que desapareceram do planeta. Porque, no modo de fazer e nos traços que ornam uma peça, é possível encontrar pistas essenciais para decifrar os modos de vida de uma comunidade. Por exemplo, as lascas de cerâmica que dizem tanto sobre os incas, no Peru, ou sobre os marajoaras, aqui mesmo, no Brasil. Quantas informações estão presentes num tapete persa sobre o povo que o inventou? Qualquer um de nós que bata o olho em um cocar de penas certamente será transportado para alguma aldeia indígena da Amazônia.
Peças artesanais podem ser objetos muito importantes, portanto. A cerâmicamarajoara é um exemplo. Os marajoaras teriam desaparecido denossas terras mais ou menos há 700 anos. Talvez por mudanças climáticas ou disputas com outros povos,afirma a arqueóloga Denise Pahl Schaan, do Museu Emílio Goeldi, em Belém. A cerâmica produzida por esse grupo indígena é o principal meio para decifrar quem foram e como viveram.Trata-se de um dos poucos registros de uma cultura que,em sua precocidade e complexidade, caracterizou uma das mais importantes sociedades pré-colombianas das Américas, diz Denise.
Ela explica que vasilhas de cerâmica, pratos e tigelas marajoaras eram usados para servir comida em festas e rituais.Era preciso agradecer aos espíritos pelas boas colheitas, diz.Nos grafismos que ornam esses objetos é possível identificar traços que representam crenças e mitos daquela cultura. A cobra é um deles. E, observando a freqüência com que o tema aparece em urnas funerárias, foi possível supor que os marajoaras acreditavam que seus antepassados chegaram às terras amazônicas navegando pelo rio numa cobracanoa, a jararaca, espécie da região.
Além de beleza e utilidade, há outro item inerente ao artesanato. Ele não é como uma peça de museu que parou no passado. Ele se transforma com o tempo, diz o designer Lars Diederichsen, fundador do Instituto Meio,ONG que trabalha com comunidades produtoras de artesanato. Nada mais natural. Pois a sociedade muda, e seus valores e necessidades também. E ninguém, ainda bem, está parado no tempo. Lá atrás, quando alguém começou a fazer uma panela de barro para cozinhar, trocou com aquele da comunidade mais próxima que sabia fazer uma esteira de palha.A vida tornou-se melhor assim, diz Lars.Hoje, sabemos, a moeda de troca é outra, é o dinheiro mesmo. E, uma vez que o artesanato traz significados do lugar onde é feito, nada mais natural que ele tenha se tornado, como aconteceu em meados dos anos 1970, um souvenir as famosas garrafinhas preenchidas de areia colorida das dunas do Ceará já nasceram com essa finalidade turística.
Lascas da cerâmica marajoara por muito tempo estiveram apenas na coleção do Museu Emílio Goeldi. Até que, um dia, um tal de Raimundo Saraiva Cardoso, pai de Levi, que depois ficou conhecido como Mestre Cardoso (morto em abril deste ano), chegou ao saguão do museu, há mais de 30 anos, e teve a idéia de produzir réplicas das peças. Ao fazer isso, ele não apenas resgatou uma tradição como criou um meio de renda para sua família e para tantas outras da comunidade de Icoaraci, hoje uma espécie de centro artesanal de cerâmica com inspiração marajoara.
A renda de bilro é outro bom exemplo. Veio de longe, de Portugal, e chegou até nós pelas mãos de freiras de antigos conventos. Hoje, essa tão complexa quanto delicada maneira de se produzir um pedaço de pano é uma das marcas de pequenas comunidades escondidas no Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Santa Catarina, que a exemplo da Associação de Rendeiras do Morro da Mariana, nas redondezas da cidade de Parnaíba, no Piauí conseguem fazer a produção chegar a pontos de vendas no resto do Brasil e no exterior. Tudo isso mantendo características que, embora vindas por mãos portuguesas, adquiriram traços bem brasileiros.
Hoje, o desafio que comunidades produtoras de artesanato têm é o de saber comercializar sua produção. Contam com o apoio do Instituto Meio, criado por Lars, e de instituições como o Sebrae e as frentes de trabalho do Ministério da Cultura e até da Unesco, que tentam levar informação aos artesãos para adequar seu trabalho ao mercado. O desafio agora é fazer com que artesãos possam ser remunerados justamente, sem jamais perder de vista a delicadeza de seu trabalho, seus traços originais e as formas de produção. Enfim, sem ferir aquilo que têm de mais precioso: sua identidade.
Adequar a produção de artesanato ao mercado vem ao encontro de uma demanda que, embora ainda pequena, só tende a crescer. Cada vez mais, no Brasil, estamos procurando artesanato, seja para usar na cozinha, seja para ornar a casa, seja para presentear. Por isso, o que parecia improvável há dez anos hoje tende a ser uma moda que talvez dure. Tem sido freqüente shopping centers contarem com lojas de artesanato preocupadas em não oferecer souvenir, mas o verdadeiro objeto que representa determinado lugar. É que, em um mundo globalizado, estamos buscando nossas referências, símbolos que representem nossa origem, nossa terra tudo para encontrarmos uma posição em um mundo tão cheio de informação. Em resumo, a velha e boa frase do escritor russo Tolstói: Se queres ser universal, canta tua aldeia.
Para atender a esse mercado globalizado, o artesanato passou a ser uma importante fonte de renda em muitas comunidades, movimentando a economia e oferecendo uma opção para aqueles que não querem engrossar as estatísticas sobre o êxodo rural no Brasil.
É uma boa notícia. Cada vez que a Associação de Rendeiras de Morro da Mariana, no Piauí, a Associação de Labirinteiras de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, a Associação de Ceramistas de Coqueiros, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, e tantas outras associações de artesãos conseguem atender ao mercado, criam-se empregos, oportunidades e aumento da renda em regiões muito pobres do Brasil. Ao mesmo tempo, dá-se continuidade a uma história que vem de longe, construída fio a fio, ponto a ponto, pedacinho a pedacinho. Ontem, hoje e amanhã.
Livros:
- Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo, Global
- Criatividade e Processos de Criação, Fayga Ostrower, Vozes
- Tempos de Grossura: o Design do Impasse, Lina Bo Bardi, Instituto Lina Bo Bardi
- Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara, Giovanni Galo, Museu do Marajó
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