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Alegria não faz mal

Unir bilhões de pessoas em torno de uma paixão é bom e não ruim

Soninha Francine

Este foi o ano de Copa do Mundo. Para algumas pessoas, isso significa apenas um estorvo no desenvolvimento normal de suas atividades, um momento de absurda exceção no calendário.Para bilhões de outras, é um marco tanto na história pessoal quanto na de sua comunidade – a família, os amigos, a cidade, o país.

É inútil tentar resistir a um acontecimento que faz parte da história contemporânea. Por algum motivo que muitos já tentaram explicar e só conseguem em parte, um jogo de bola, que combina pontaria e conquista de território, talentos individuais e ações coletivas, tornou-se o esporte favorito da humanidade. Pouquíssimas coisas unem tão completamente pessoas tão diferentes – uma criança africana e um acadêmico dinamarquês; um monge no Tibete e um executivo alemão; um príncipe saudita e um padre irlandês.

Este ano tive a oportunidade, pela primeira vez, de ir a uma Copa. Às vezes é até estranho lembrar que tudo aquilo,a estrutura gigantesca, os preparativos e esforços, acontecem por causa do futebol.Vinte e dois caras jogando bola! E, às vezes, o jogo é até o menos importante – um detalhe, se é que é possível, no meio daquilo tudo.

Tanto que são pouquíssimos, em relação ao número de interessados, os que podem ir ao estádio. Muitos correm ao país-sede apenas para serem testemunhas mais próximas do evento e praticarem seu gosto por futebol junto com os demais aficionados. Para isso, foi muito legal a iniciativa alemã de instalar telões em praças públicas, oferecendo às pessoas emoções semelhantes às da arquibancada – a expectativa elétrica, a alegria explosiva compartilhada.

As pessoas têm temores (justificados, infelizmente) de que a Copa acirre nacionalismos xenófobos, idéias bestas de superioridade sob o pretexto da vitória esportiva.Mas, na maioria dos casos, acontece justamente o contrário. Pessoas do mundo todo se apaixonam pelo Brasil por causa do futebol brasileiro (que não correspondeu ao amor depositado, uma pena). Outros se descobrem gostando de Argentina, Ucrânia, Gana ou Equador. É muito bacana ver tanta gente vestindo a camisa de outro país com orgulho e alegria, por apreciar o desempenho do time em campo, o talento de um jogador. Neste mundo em que as fronteiras, meras convenções, se tornam cada vez mais sólidas na forma de muros e trincheiras, a Copa é ocasião propícia para o feliz desrespeito às divisões políticas, econômicas, sociais.

Terminada a Copa – que, como qualquer evento humano, tem problemas, conflitos, acidentes –, é possível que as pessoas guardem as marcas positivas das cenas de confraternização e gestos de cavalheirismo. E, mesmo que não sobre muita coisa, a alegria do momento não é prejudicial, como receiam alguns. Como toda alegria, logo passa. Não é possível que alegria faça mal.

O futebol é uma das poucas coisas capazes de fazer muitos adultos gritarem porque estão felizes. Depois que a gente cresce, só grita quando tem raiva.Gritar espontaneamente, incontrolavelmente, de alegria, comemorando um gol, é bom demais. Que poder tem esse ritual chamado futebol.

Soninha Francine comentarista de futebol, não sabe explicar por que é tão legal comemorar um gol. almafeminina@abril.com.br

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