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Sozinho na estrada

Viajar desacompanhado pode ser uma ótima oportunidade para conhecer melhor os lugares, as pessoas e, sobretudo, você mesmo

por Priscilla Santos

Seja bem-vindo, você acaba de embarcar numa viagem. Mas esqueça marido, mulher, filhos, cachorro e papagaio (claro que você os ama, mas é só por um tempo). Esta jornada é só sua. Desta vez, você vai viajar sozinho. Ah, não venha torcer o nariz e dizer que não gosta de solidão. Se você pensa assim, está na hora de rever seus conceitos, quem sabe preconceitos. Sim, mais do que na Europa ou em alguns outros lugares do mundo, existe aqui no Brasil a mania de achar que se alguém está sozinho é por falta de opção. Quase nunca passa pela cabeça das pessoas que é justamente o contrário: uma escolha consciente de dar um tempo para ficar com você mesmo, se abrir para os lugares e as pessoas e, se perigar, até se conhecer melhor. Se a idéia de viajante solitário, expressão (mal) traduzida do inglês, provoca calafrios em você, pense em viajante independente. De pronto vem uma sensação de liberdade bem mais inebriante.Começou a gostar da idéia? Antes de prosseguir, que fique claro. Ninguém aqui está propondo que você abandone as viagens em grupo.Mas que tenha, pelo menos uma vez, a experiência de sair por aí, dono do seu próprio nariz. E, se for bom, repetir quantas vezes puder, por que não? Agora pegue sua mala, que o trem já vai partir.

O caminho para o novo

Em seu livro A Fruitful Darkness (“Uma escuridão frutífera”, sem tradução no Brasil), a ecologista e antropóloga budista Joan Halifax diz que todo mundo tem uma geografia própria,que pode ser usada para mudanças. “É por isso que viajamos para lugares distantes. Saibamos disso ou não, precisamos renovar nós mesmos em territórios frescos e selvagens. Precisamos ir para casa passando por terras estranhas.Para alguns, essas são jornadas em que mudanças ocorrem intencional e cuidadosamente”, escreve.

A história é prova disso. Quando os ingleses foram colonizar os EUA, não queriam apenas um monte de terras. Estavam em busca de construir uma outra experiência de vida. O escritor e filósofo alemão J.W. Goethe (1749-1832) já não era mais o endiabrado poeta romântico quando partiu para uma jornada na Itália, entre 1786 e 1788, quem sabe para se libertar da atmosfera intelectual de Weimar e descobrir um novo lado seu, que pode ser conferido no livro-diário da jornada, Viagem à Itália. O filósofo, teólogo e humanista Erasmo de Roterdã (1465- 1536) viveu e trabalhou em diversas partes da Europa em busca de conhecimento, experiências e idéias que, para ele, apenas o contato com o novo poderia trazer. Assim, virou o precursor da mobilidade acadêmica européia.Hoje existe, inclusive, um programa de intercâmbio entre universidades da União Européia com seu nome.

Porém, para a maioria das pessoas atualmente, esse sentido de sair em busca do novo, do fresco, do desconhecido, está meio de lado. Ainda que sobrevivam exemplos como os intercâmbios acadêmicos e os períodos “sabáticos” seguidos pelos jovens israelenses, que logo após cumprir o exército correm o mundo antes de começar a vida profissional, a viagem exploratória há muito cedeu lugar à pura distração.Vivemos na chamada cultura da embriaguez,onde o que vale é o prazer.As pessoas viajam para descansar, se divertir, não para encontrar o desconhecido ou encontrar a si mesmas.Ninguém quer sair da zona de conforto, façamos o mea-culpa. Basta marcar as férias para começar a corrida atrás de uma acomodação com TV, ar-condicionado e frigobar.

Nada contra a mordomia, o único problema é tornar a viagem um prolongamento da vida cotidiana. “As viagens hoje em dia são superprotegidas, as pessoas se armam, querem levar todo seu conforto.É cada vez mais difícil elas se soltarem ao risco, estenderem a borda do limite”, diz o psicanalista da Faculdade de Educação da USP Rinaldo Voltolini.

Agora é com você

Ok. Mas o que isso tem a ver com estar ou não sozinho? Aí é que está o pulo do gato.Para ser transformadora, a viagem deve proporcionar um corte, uma perda de referências. E um acompanhante é sempre uma referência, talvez a mais forte de todas (também não adianta viajar sozinho e levar junto a zona de conforto). E é quando estamos assim, sem onde nos segurar,que sabemos quem realmente somos. Agora é com você.Hora de assumir as próprias decisões e de cair e sair sozinho de apuros. Quer ficar parado na barraca de praia ou fazer uma caminhada? Prefere comer bobó de camarão ou feijoada? Quem sabe numa dessas você descobre que nunca gostou daquela pizza que come todo santo domingo com a família, que na verdade prefere comida chinesa? “Viajar sozinho ajuda você a experimentar esse corte a que, se a realidade não lhe impõe, fica mais difícil chegar com as próprias pernas. Freud já dizia: o psiquismo é conservador, quando encontra um caminho não muda”, afirma Voltolini.

Um dia, o arquiteto mineiro Argus Caruso pegou uma bicicleta e foi dar a volta ao mundo sozinho. Pedalou 35 mil quilômetros em 39 meses, entre 2001 e 2005. Partiu de Cordisburgo, Minas Gerais, terra de Guimarães Rosa e de seu avô, e passeou pela Ásia, Europa e América do Sul. De tanto ver um mundo bem diferente do dele, chegou a uma conclusão: “O contraste faz bem para a gente. Quando você viaja e vê comunidades completamente diferentes da sua, aprende mais sobre seus próprios valores”.

Claro que, quanto mais exótico o destino, maior o abismo cultural e maior a perda de referências. Mas não é preciso ir tão longe. Num vilarejo no sul da Bahia, por exemplo, você já sente o tempo passar mais devagar, um jeito diferente das pessoas, um sabor mais apimentado nas receitas. Mas não adianta olhar tudo como um turista. Para valer o efeito, é preciso entrar no clima, abrir espaço para o novo, lembra? E também para o improviso.

Está aí algo a que não estamos acostumados no cotidiano: dar oportunidade para o imprevisível. Normalmente, temos horário para acordar, para ir trabalhar, para almoçar, até para dormir. Tudo bem traçar um roteiro de viagem, mas nada de se prender a ele. Se você se programou para ficar uma semana numa cidade mas lá pelo terceiro dia alguém disse que 100 quilômetros adiante tem uma praia linda de morrer, por que não zarpar? Aproveite mais uma vez que não é preciso fazer conferência e esperar um consenso entre todos os integrantes da barca. Desfrute da liberdade de ir e vir, de se desprogramar. A todo tempo a viagem pode se reinventar. Até parece que a cada dia é uma nova viagem, pois você nunca sabe as histórias e as pessoas que vão cruzar seu caminho.

Os outros

Quando está sozinho, você se abre mais para as pessoas. Primeiro nasce uma ânsia de se comunicar, afinal ninguém consegue passar horas ou dias a fio sem falar com ninguém ­ a não ser quando a proposta é essa,como em retiros espirituais. Por outro lado, as pessoas se sentem mais à vontade para se aproximar de você, pois não há a barreira do grupo. Depois você precisa saber onde dormir e comer ou onde fica a trilha para a montanha. Daí, passa um sujeito simpático, você pede uma informação e, conversa vai, conversa vem, de repente você está encostado no fogão dele tomando um cafezinho ou desfrutando do almoço da família.

“Pessoas são pessoas em qualquer lugar.Mas, às vezes, no cotidiano, a gente perde essa dimensão humana. Viajando você desperta o novo no olhar”, diz o oceanógrafo paulista Antônio Soares, que não se lembra de ter feito alguma vez na vida uma viagem em grupo.“Em hipótese alguma vejo como uma fuga.Viajo sozinho para encontrar pessoas e me encontrar através delas. Quando estamos em grupo há uma identidade definida, um código de conduta. Agora, viajando sozinho, tem a descoberta de o que eu posso oferecer ao outro. Acaba sendo uma descoberta para mim também”, diz Antônio.

Tão encantador quanto a facilidade de se conectar com as pessoas é o desapego a elas. “Você começa a ter uma outra dimensão do sentido de o que é conhecer e se despedir de pessoas”, diz Argus, o arquiteto que deu a volta ao mundo de bicicleta. No Irã, ele passou uma noite acampado na beira de um rio.Ao lado,morava um casal de velhinhos que, gentilmente, o convidou para tomar chá e ofereceu café da manhã no dia seguinte. Não falavam a mesma língua, só se entendiam por sorrisos. E ainda assim, quando Argus se preparou para partir, o senhor chorou como se o conhecesse há anos. “Faz parte da viagem saber partir, senão você não vai nunca”, diz o arquiteto.

E, mesmo quando você não ruma para um novo destino, saber se despedir das pessoas que você conhece ao longo da viagem é seguir independente. Se no primeiro dia você se entrosa num grupo e começa a acompanhar religiosamente a programação deles, acaba recriando a redoma de proteção que você tem em casa ou nas viagens em grupo. Muito bom se relacionar com as pessoas. Melhor ainda se isso não se tornar uma dependência. Pois no dia seguinte virão novas histórias com novos personagens. E assim a viagem volta ao início, à espera de um novo acaso que mude o dia, a semana, as férias e, no limite, a própria vida.

Só, somente só

Há momentos em que nos sentimos mesmo entregues a nós mesmos, sem ninguém para compartilhar uma emoção, um desabafo. Porém, vem junto uma sensação de cumplicidade com você mesmo,de que você é a única testemunha daquela história. Sem o amparo do outro, nos conectamos mais conosco. “Existe uma imersão nos próprios sentimentos, as vivências são muito mais claras.Você fica mais sensível e tem mais tempo para se dedicar aos acontecimentos”, diz o terapeuta de orientação antroposófica Corrado Bruno, de São Paulo. É bem verdade que, em certas horas, ter alguém ao lado só atrapalha um momento que poderia ser só seu.

Sozinho você tem menos distrações e pode prestar atenção naquilo que está acontecendo a sua volta e dentro de você. Remete a uma reflexão existencial, a estar mais presente, centrado, pois você está tomando conta de si. “Seus instintos ficam mais apurados. Você fica mais sensível aos cheiros ou aos barulhos de algo que vem de longe, até por questão de defesa”, diz o arquiteto paulista Rick Cukierman, acostumado a pôr o pé na estrada sem precisar de acompanhante.

A terapeuta e artista plástica Paula Marques, de São Paulo, já viajou muito sozinha. A intenção sempre foi curtir uma ocasião apenas dela,um momento de silêncio em que pudesse parar para prestar atenção no corpo, perceber a respiração, aquietar a mente. Praticamente uma meditação.“As pessoas têm uma busca louca para fora, de estar sempre fazendo coisas, não perdendo tempo. Não olham para dentro. Isso faz você se distanciar de você mesmo”, diz.

Talvez seja esse o ponto nevrálgico do viajar sozinho: não ser ignorante de si. Saber que sua vida é esta, mas pode ser diferente. Como foi para Rosalda, protagonista do filme italiano Pão e Tulipas, que ficou para trás na excursão em que estava com o marido e os filhos. Decidiu, então, conhecer sozinha uma cidade com que sempre sonhou: Veneza. Ali descobriu uma nova possibilidade de vida e a concretizou. “É bom quando você consegue ir além do medo”, diz Paula Marques. Na Idade Média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção.E, por que não,em filmes ou apenas em belas memórias. Se você quer encontrar sua própria história, escolha o destino e pegue a estrada. Agora de verdade.

Para começar

Logo ali
Faça viagens de fim de semana para lugares familiares, como a casa de praia

Um pé lá, outro cá
Quando resolver fazer uma viagem mais longa, não exagere no período para não abandonar a idéia pela metade

Destinos fáceis
Prefira os destinos fáceis, onde qualquer um tem prazer em andar na rua. Uma boa pedida são os lugares com movimento, onde você pode conhecer outras pessoas na hora em que a solidão chegar

Experimente
Saia da rotina, mesmo durante a viagem. Mude de hotel e experimente fazer novos caminhos.

Mova-se
Mudar de destino é uma maneira de espantar o marasmo. Se começou a sentir monotonia ou solidão, corra para o destino mais próximo

Mate a saudade
Entre em contato com a família e os amigos por telefone ou e-mail quando quiser. Não adianta ficar sofrendo de longe. Mas cuidado para não exagerar na dose: dê um tempo a eles e a você, e aproveite o passeio

Escute-se
Se você não estiver muito bem emocionalmente, melhor esperar passar a fase. Viajar sozinho nessas condições aumenta a sensação de desamparo e você pode não ver o lado bom da experiência

Dicas para o viajante desacompanhado

Pesquise
Antes de escolher o destino, faça uma busca básica na internet para informar-se sobre clima e temperatura na época, se há alguma festa local (que pode deixar a cidade mais cheia e cara). É bom procurar informações culturais também

Aposte no guia
Compre um bom guia de viagens e estude as opções de hotéis, restaurantes, transporte e circulação na cidade. Mas lembre-se: o guia é só uma referência, a viagem é só sua

À luz do dia
Prefira chegar ao destino durante o dia, ainda com o céu claro. Assim fica mais fácil e seguro encontrar as coisas

Bom e barato
Se houver possibilidade, fique em albergues. São uma boa opção de economia e sociabilidade. O conceito de albergue da juventude mudou. Hoje se vê gente de 30, 40, 50 anos de idade ou mais nesses locais, que melhoraram muito em conforto. Alguns até oferecem quartos privativos com banheiro

Acorde
Leve um pequeno despertador para não perder a hora. Lembre-se: você precisa ser auto-suficiente em todos os momentos da jornada

Cuide-se
Faça um seguro de saúde, principalmente se for para o exterior. Vale muito pela orientação, mesmo em países onde o serviço de saúde é gratuito. No Brasil, confira se o seu plano cobre todos os estados. Vale também levar uma caixa de primeiros socorros com curativos e os remédios que você costuma tomar

Anote
Faça um caderno de viagens. Nele, você pode anotar endereços, telefones, contas e também impressões dos lugares por onde passar

Faça contato
Use a internet ou telefone para avisar amigos ou parentes onde você está. Caso aconteça algo, eles devem ter como encontrá-lo

Letras e sons
Leve livros e aparelhos de som portátil. Pode valer para passar o tempo principalmente se você for de transporte terrestre. Prefira as versões de bolso (livros leves, acessíveis e fáceis de carregar)

Use mapa
Ao chegar ao destino, vá até o posto de informações turísticas e veja se há um mapa da cidade. Se você não falar a língua local, mais importante ainda: o mapa torna-se a forma mais fácil de se encontrar

Olho nos documentos
Digitalize a imagem da sua carteira de identidade, carteira de motorista, cartão do plano de saúde e passaporte, caso vá para o exterior, e envie para sua conta de e-mail. Assim, se você os perder, terá pelo menos os números à mão. Facilita um monte. Basta se dirigir a um cibercafé e imprimi-los

Para saber mais

Livros:
Viagem à Itália, J.W. Goethe, Companhia das Letras
A Arte da Peregrinação, para o Viajante em Busca do que lhe É Sagrado, Phil Cousineau, Ágora
Viajante Solitário,Jack Kerouac, L&PM Pocket
Guia Criativo para o Viajante Independente na Europa, Zizo Asnis e Os Viajantes, O Viajante/Trilhos e Montanhas

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