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TV pode ser legal

Desde que não vire o centro do mundo

por Soninha Francine

Dez anos atrás, fui com minhas duas filhas mais velhas (que tinham 12 e 9 anos de idade) para Caraíva, no litoral sul da Bahia. Um lugar idílico, isolado entre um rio, o mar e o mangue, onde quase não havia energia elétrica (só alguns geradores), nenhum automóvel conseguia chegar e a vida das pessoas era regida literalmente pelas fases da lua. Nas noites claras, as crianças brincavam nas ruas até tarde e ficavam mais agitadas. No breu da lua nova, todo mundo se recolhia cedo.

Com a eletricidade super-racionada, quase não se assistia televisão por ali. E me parece que essa ausência fazia bem às pessoas. Quando eu era mais nova, era quase militante antitelevisão.Assisti a pouquíssimas novelas, minha mãe as detestava, então me acostumei a viver sem elas.Curtia algumas séries e desenhos, acompanhava esportes e até o noticiário (que crianças normalmente não gostam),mas achava um absurdo colocar a TV à frente de qualquer opção ­ jogar bola, passear, tocar um instrumento, ouvir música. Não trocava brincar na rua por programa nenhum.

Depois que casei e comecei a ficar muitas horas sozinha em casa com uma filha pequena, precisei admitir que gostava de ter como companhia a televisão. Acompanhava alguns programas porque os achava bons ­ como o inesquecível TV Mix, os jornais da Abril Vídeo, o Bambalalão da TV Cultura. Outros, simplesmente porque mostravam gente acordada se divertindo quando tudo mais parecia silencioso, lúgubre e ameaçador (como o programa da Hebe).

Às vezes, para entreter as crianças, TV é a opção mais cômoda. Elas ficam horas quietinhas assistindo a desenhos animados e filmes ­ sejam eles muito legais, como os recentes Toy Story e Monstros S.A., ou uma porcaria. Programas de adulto atraem também. Nunca tentei proibir minhas filhas de ver televisão, mas às vezes fazia esforços para desencorajá-las. Oferecendo alternativas ­ música, histórias, desenhar, brincar ­ ou mesmo restringindo horários e canais.

Em Caraíva, não se precisava fazer nenhum esforço para resistir ­ a televisão simplesmente não estava lá. De manhã e à tarde, o programa era tomar café, ir à praia, correr. À noite, conversar, assar queijo na fogueira, brincar.

A vida dos mais velhos também tinha muita conversa e lazer coletivo, contemplação e relaxamento. Depois de escurecer, todo mundo botava as cadeiras na rua. Se cada um tivesse uma TV, certamente se moveria para dentro de casa, e para fora dali ­ se ocupando de Brasília, congestionamento na marginal Tietê, comercial de automóvel, romances de mentira e trapaças de verdade.

Não quer dizer que as pessoas não devem receber notícias de outros lugares ou se distrair com a ficção. Mas temo que a TV seja fascinante demais para que se consiga viver com ela sem passar a tê-la como referência, bússola, bíblia.

Caraíva, a essa altura, já deve ter eletricidade e várias TVs. Será que as pessoas continuam conversando horas sentadas na calçada, que as crianças brincam até tarde na rua, que a lua ainda seja percebida? Torço para isso... mas infelizmente duvido.

Soninha Francine chegou a ver um pouco dos Jogos Panamericanos em Caraíva ­ mas ficou menos de meia hora na frente da TV. almafeminina@abril.com.br

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