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O melhor dos mundos

Não é uma utopia nem um horizonte distante. Entenda como cada vez mais pessoas, dedicando seu tempo e talento, estão ajudando a transformar a sociedade

por Marcia Bindo

Há uma revolução silenciosa acontecendo em todo o globo. Não faz alarde nem aparece estampada nas manchetes dos jornais. Mesmo assim, quase imperceptível, se espalha feito areia ao vento. Os envolvidos? Pessoas comuns como você e eu.Gente que acredita que é possível transformar o mundo. E que arregaçam as mangas para mudar a realidade à sua volta.

A cada ano cresce o número de pessoas realizando ações voluntárias, voltadas para o bem-estar comum. São estudantes, executivos, donas-de-casa, aposentados, que, aqui e ali, doam sua energia e disposição para as causas comunitárias. Para elas, o mundo está longe de se parecer com o mapa-múndi que ilustra o jogo de tabuleiro War: um espaço hostil, onde a estratégia é conquistar territórios, fazer inimigos e acumular riquezas.Muito pelo contrário. É um lugar para compartilhar experiências e ser mais solidário. O sociólogo Betinho, que se definia “não como um otimista babaca, mas um otimista ativo”, batia sempre na mesma tecla: a importância da participação de cada um de nós.

Vontade de agir

Desde que o mundo é mundo existe trabalho voluntário. Acontece que, por muito tempo, a noção de voluntariado esteve atrelada à Igreja. Atividades de cunho social, sem remuneração, eram tarefa para padres, freiras e religiosos. Os demais cidadãos, estes sempre foram incentivados a fazer caridade, que não exige lá grandes envolvimentos: doa-se dinheiro, objetos e pronto ­ a consciência fica tranqüila.As coisas mudaram de figura a partir da década de 1970, quando as ditaduras em todo o mundo passaram a ser substituídas por governos democráticos. Foi nesse momento que a sociedade civil decidiu participar mais ativamente das questões sociais. Daí o surgimento das Organizações Não-Governamentais, apelidadas ONGs, o conjunto de organizações sem fins lucrativos com objetivos de promoção da cidadania. Em 2002 o Brasil já contava com 276 mil ONGs, de acordo com o IBGE.

Com a revolução das comunicações e a chegada da internet a partir dos anos 1990, os cidadãos se tornaram mais conscientes da destruição do ambiente, da pobreza, dos abusos de direitos humanos, das desigualdades globais. A conclusão: os problemas ficaram muito mais visíveis. E também a certeza de que os governos não estão dando conta de resolvê-los. Segundo a antropóloga Leilah Landim, doutora em antropologia social pelo Museu Nacional (UFRJ) e professora da Escola de Serviço Social da mesma instituição, o fortalecimento do terceiro setor ocorre quando o governo (o primeiro setor) não consegue suprir as necessidades sociais, apesar de arrecadar impostos, gerando a falta de confiança nas políticas públicas. “As atividades voluntárias são uma bela iniciativa da sociedade, mas não são uma solução mágica para os problemas do mundo nem devem substituir a função do Estado. São sobretudo uma forma de exigirmos nossos direitos”, diz Leilah, autora do livro Doações e Voluntariado no Brasil (7 Letras).

A questão é que há uma inquietação generalizada. “Ao invés de ficar de braços cruzados, as pessoas estão percebendo que podem mudar, aqui e agora, a realidade à sua volta”, afirma o jornalista americano David Bornstein, autor do livro Como Mudar o Mundo (Record). David rodou por diversos países durante dois anos para conhecer de perto o trabalho de empreendedores sociais: gente que, em vez de ficar chorando as pitangas, pensa e coloca em prática soluções criativas para melhorar algum aspecto da sociedade. Em todas as histórias, independentemente das motivações (de caráter religioso, cultural, filosófico, político ou emocional), há um ponto em comum: a vontade espontânea de agir.

Compartilhar talento

Em latim, voluntariu significa “aquele que tem vontade própria”. Nada mais adequado. Tome como exemplo o caso da economista Luciana Chinaglia, 43 anos, que desde 1998 divide seu tempo ao meio entre a atividade de empresária, seu ganha-pão, e a ONG Banco de Alimentos, criada por ela com a missão de ajudar a combater o desperdício e a fome.Um dia ela teve um estalo e percebeu que poderia usar seu conhecimento e experiência de economista e administradora não só para ganhar dinheiro. Luciana coordena a arrecadação de 30 toneladas mensais de alimentos que teriam como destino o lixo. Quatro carros coletam sobras em sacolões, mercados municipais, padarias e indústrias alimentícias de São Paulo.Depois é feita uma triagem dos alimentos em boas condições para o consumo, que são doados para 48 instituições beneficentes.

O trabalho não é mamão-comaçúcar, e Luciana já pensou em desistir. “Se você não tiver prazer com o que faz, não agüenta”, diz. Hoje ela conta com a ajuda de mais sete voluntários e alguns funcionários, que também dão cursos de nutrição e oficinas sobre aproveitamento e armazenamento dos alimentos. “Tenho certeza de que criamos a realidade à nossa volta. Então, é uma questão de bom senso: se mais pessoas ficam melhor, você também fica melhor.”

Fazendo parte

Além de partilhar uma habilidade, o trabalho voluntário ajuda a ampliar seu contato com o mundo. O “próximo” transcende a esfera dos amigos, da turma do trabalho e do círculo familiar ­ e você passa a ter uma dimensão mais ampla do outro quando começa a interagir com a comunidade. O artista plástico baiano Chico Maia se libertou da sua bolha justamente numa prisão. Em 1999, quando realizou um trabalho na penitenciária Lemos Brito, em Salvador, ele deparou com um depósito de pessoas abandonadas, à toa.“Aquilo me deixou deprimido, mas não no sentido de encolher as mãos”, conta. Chico sentiu a necessidade de fazer o “algo a mais”, escreveu uma proposta que buscava a inclusão social dos presidiários e a encaminhou à direção da penitenciária. Alguns meses depois já estava dando aulas gratuitas de marcenaria, serralheria e pintura aos detentos ­ que aprendem um ofício, exercem uma atividade artística, ganham um pequeno salário (com a comercialização dos objetos) e ainda diminuem sua pena. “A média de reincidência criminal de presos que são libertos gira em torno dos 70%. Para os detentos que passam por um processo de aprendizado com atividades profissionalizantes, a taxa cai para 5%, pois essas pessoas conseguem se reintegrar à sociedade”, diz Chico, que acredita que também se reconectou com a comunidade. Em 2004 a experiência virou a ONG ProjAL ­ Projeto Arte que Liberta, com mais 20 voluntários. O próximo passo é implementar o projeto em outros estados, e São Paulo é o primeiro da lista.“Vejo uma necessidade de todos nós sairmos um pouco do nosso mundinho e aprender a servir”, afirma Chico.

Mão dupla

Dizer que um voluntário é o “bonzinho”, que está se doando para ajudar os outros é conversa mole. Porque, quando você dá, também está recebendo em troca: contato humano, convivência com pessoas diferentes, oportunidade de aprender coisas novas, satisfação de se sentir útil.Foi o que aconteceu com a dona-de-casa carioca Rosimar Macedo Teykal. Quando nasceu sua primeira filha, há 26 anos, Rosimar começou a ter um monte de grilos referentes à amamentação. Sua ginecologista indicou um grupo de mães voluntárias que se reuniam para esclarecer dúvidas e compartilhar conhecimentos com as novas mães, que muitas vezes se sentiam desmotivadas, pela família e pelo trabalho, a amamentar o filho. Nos encontros, percebeu que dar o peito é importante para reforçar o vínculo com o bebê.Mais: que se está alimento o filho com carinho, amor e segurança. Da mesma maneira que foi amparada, Rosimar também quis ajudar. Desde então é voluntária do Grupo de Mães Amigas do Peito. “A amamentação foi uma das experiências mais ricas que eu tive. Me sinto grata em também orientar as novas mães”, diz Rosimar. E completa: “Nos encontros não falamos como profissionais, mas de mãe para mãe. A base do trabalho é a troca de experiências”.

Por seis anos o publicitário paulista Valdir Cimino, de 45 anos, foi um doador passivo. Dava dinheiro e brinquedos para hospitais, sem envolvimento. Mas se incomodava com a falta de tratamento mais humanizado nos ambientes hospitalares. De papo com sua sobrinha, percebeu que poderia contar histórias para as crianças e adolescentes hospitalizados. Hoje sua ONG Viva e Deixe Viver tem 750 voluntários contadores de história, que recebem treinamento e orientação para atender em 56 hospitais pelo Brasil em um trabalho de cerca de duas horas semanais. Muitos deles aposentados que descobriram o prazer de interagir com a molecada. Para Chico o voluntário precisa ter quatro “cês”: consciência do que quer fazer; compromisso com a causa; constância para desenvolver um bom trabalho; e o fundamental: fazer com o coração.

Pequenos atos

Mas ainda há uma lacuna entre a vontade e a ação. Por aqui, 53 milhões de brasileiros dizem ter disposição para fazer alguma atividade como voluntário, segundo pesquisa do Iser, Instituto de Estudos Sobre a Religião do Rio de Janeiro.Mas apenas 20 milhões declararam que já ter realizado algum trabalho voluntário nos últimos meses. “Isso acontece, em parte, pelo desconhecimento das formas de participação”, conclui Miguel Darte de Oliveira, sociólogo e diretor da Comunitas, organização que estuda o papel do cidadão e das ONGs na sociedade. Segundo ele, as maneiras de atuação extrapolam o universo das ONGs, grupos de auto-ajuda, clubes, associações culturais e instituições sociais. “Ela pode estar presente nos pequenos atos do seu dia-a-dia”, diz. É o vizinho que ajuda o outro na reforma da casa, ou o condômino que organiza a coleta seletiva de lixo no seu prédio. São pequenas atitudes, compromissadas, que têm o poder de transformar a vida de muitos.

• “Não faças aos outros o que não desejas para ti”

Os moradores de Vila da Penha, bairro popular do Rio de Janeiro, que o digam. Ganharam uma biblioteca comunitária graças ao pedreiro sergipano Evando dos Santos, 46 anos ­ que foi arrebatado pelos livros quando aprendeu a ler, aos 18. Tudo começou em junho de 1998, quando Evando saiu para consertar um vazamento ­ e no caminho avistou 50 livros num canto do lixo de uma loja de peças. Não deu outra: pegou os livros e decidiu criar uma biblioteca diferente, sem burocracias, em sua própria casa. Quem chega pode levar quantos livros quiser, não há prazos para devolução e a pessoa pode até ficar com a obra. “O livro engrandece a vida e precisa circular. Quero que mais pessoas ganhem, assim como eu, amor pela leitura”, conta Evando, que recebe cerca de 30 visitas diárias em sua biblioteca. São mais de 42 mil livros doados, empilhados pelos quatro cantos da sua casa. E agora, veja só, o pedreiro conseguiu financiamento do BNDES para construir uma nova sede da biblioteca, com projeto arquitetônico assinado por Oscar Niemeyer, que se comoveu com a iniciativa.Até o fim do ano deverá ficar pronta a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, em homenagem a seu escritor preferido, outro sergipano arretado, poeta romântico e amante das letras e dos livros.

Assim, tijolo sobre tijolo, como na história exemplar do pedreiro que ergueu a biblioteca, a atitude de voluntários ajuda a construir um novo mundo, muito mais solidário, com mais cidadania e respeito ao próximo. Um mundo que não está apenas em nossas cabeças e corações ­ na verdade, está bem ao alcance de nossas mãos.

Mãos à obra: como se tornar um voluntário

Algumas dicas para quem ficou com entusiasmo mas não sabe como começar:
FAÇA COM GOSTO: Ter prazer em participar de uma atividade voluntária é essencial. Então pergunte para si mesmo: quais são seus interesses e motivações? Pense nas atividades que você gostaria de fazer, relacionadas ao seu trabalho ou a algum hobby.

PESQUISE: Visite o centro de voluntariado da sua cidade, que pode dar orientações e indicar os locais que precisam de voluntários. “A internet também é um bom instrumento de pesquisa”, diz Bruno Ayres, coordenador do Portal do Voluntário (www.portaldovoluntario.org.br), onde é possível pesquisar instituições em todo o Brasil e se cadastrar como candidato a voluntário segundo suas áreas de interesse.

COMPROMETA-SE: Calcule o tempo de que dispõe e a freqüência com que você pode participar, para assumir o trabalho com responsabilidade. Pode ser decepcionante começar um projeto e abandoná-lo logo em seguida.

VÁ ATRÁS: Conheça pessoalmente algumas organizações sociais, converse com pessoas que já exerçam algum tipo de trabalho voluntário e veja se as necessidades da organização coincidem com suas possibilidades.

REFLITA: Cada pessoa pode ser voluntária a seu modo, não existem fórmulas. Perceba se você prefere trabalhar sozinho (alfabetizando adultos, dando aulas de artesanato), em grupos, juntando os vizinhos, amigos ou colegas de trabalho, ou ainda em organizações sociais.

VERIFIQUE: Se na empresa onde trabalha existem parcerias com programas de voluntariado. Há ainda organizações como a Ashoka (www.ashoka.org.br), que apóia empreendedores sociais ajudando a organizar a estrutura do trabalho voluntário.

PENSE LOCALMENTE: Escolha uma entidade próxima de casa ou do trabalho. “Todo mundo pode ser um agente de mudanças a partir da realidade à sua volta”, diz Maria Lúcia Meirelles Reis, diretora do Centro de Voluntariado de São Paulo, (www.voluntariado.org.br) entidade que dá assistência para quem quer se voluntariar.

EDUQUE: Estimule a juventude a se engajar em projetos sociais. Segundo a ONG Faça Parte (www.facaparte.org.br), que promove a cultura do voluntariado em escolas, a experiência fortalece o sentido de solidariedade e oferece novas experiências e oportunidades de aprendizado aos jovens.

Para saber mais

Internet:
• Veja os mapas feitos por várias personalidades para ilustrar a idéia “Como mudar o mundo”. Anime-se e faça o seu. O mapa está disponível para impressão no site. Vale pintar, bordar, desenhar, dobrar etc. Envie sua obra para a gente. A mais criativa será publicada na próxima edição. E acesse o Especial Voluntariado: uma lista de endereços eletrônicos das principais entidades e centros de voluntariado do Brasil: www.revistavidasimples.com.br

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