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Mochilinha

Viajar com os pequenos para além de roteiros como Disney e resorts não apenas é possível, mas fundamental para o aprendizado e a integração de pais e filhos

por Anna Chaia

Poder ver o já visto e enxergar algo completamente novo. Perceber que o mundo pode ser menos complexo do que parece.Descobrir (e redescobrir) o mundo com crianças é algo fascinante, pois, além de nos conhecermos melhor ­ testando nossa criatividade, nossa paciência, nosso ritmo, nosso humor, nossa disciplina e nosso grau de maturidade ­, conhecemos os pequenos em momentos que vão muito além da rotina diária. Nas viagens, as crianças se revelam plenamente e é possível criar uma rede de confiança mútua que fortalece o vínculo entre pais e filhos.Um aprendizado que ambos levarão para o resto de suas vidas.

Qualquer passeio é válido desde que você, pai ou mãe, esteja por inteiro na aventura. Seja um passeio sensorial na feira livre do Pacaembu, em São Paulo, em busca de cheiros, cores, sabores e música, seja para conhecer as gárgulas da igreja de Nôtre-Dame, em Paris, ou mesmo percorrer as alas do museu da sua cidade. O mundo é nosso e de nossas crianças. Portanto, não importa o destino ­ mas a profundidade e o grau de autenticidade que você empresta a cada experiência.

Lembro uma vez, quando estava no 9º andar do edifício onde mora um amigo ­ meu filho Lucas pela primeira vez subia tão alto (nós moramos em uma casa). Ele olhou a paisagem pela janela do apartamento ­ de onde era possível avistar a represa de Guarapiranga, em São Paulo ­ e exclamou cheio daquela deliciosa surpresa infantil: “Mãe, como é grande este Brasil!”

Visão do futuro

Autor do livro O Valor do Amanhã, o economista Eduardo Giannetti apelidou esse comportamento de “miopia temporal”,uma anomalia em que tanto o indivíduo como a sociedade vêem com muita intensidade aquilo que está próximo, mas não conseguem ter a mesma clareza em relação aos seus interesses futuros. Em poucas palavras, temos uma gigantesca incapacidade de cuidar do nosso próprio amanhã. “O Brasil é muito impaciente, é como uma criança que não consegue esperar pelo almoço para ganhar o doce”, afirma Giannetti. “Esse comportamento se reflete em todas as esferas: dos governantes que não apresentam um projeto decente para a educação, algo essencial para as gerações futuras, ao brasileiro de classe média que não quer nem pensar na sua aposentadoria.”

Em seu livro, Giannetti faz uma profunda análise de como o conceito de juros não se restringe apenas ao mundo da economia, podendo ser encontrado tanto numa comunidade de esquilos como no momento exato em que um jovem decide usar drogas. Tudo, segundo ele,obedece à lógica dos juros, em que as ações de hoje têm um impacto positivo ou negativo no futuro, dependendo de nossas escolhas.

“As trocas no tempo são uma via de mão dupla”, escreve o autor.“A posição credora ­ pagar agora, viver depois ­ é aquela em que abrimos mão de algo no presente em prol de algo esperado no futuro. O custo precede o benefício. No outro sentido, temos a posição devedora ­ viver agora, pagar depois. São todas as situações em que valores ou benefícios usufruídos mais cedo acarretam algum tipo de ônus ou custo a ser pago mais à frente.”Ainda de acordo com Giannetti, essa eterna tensão entre presente e futuro é uma questão que permeia a existência dos seres vivos na Terra, do esquilo que guarda obsessivamente todas as nozes que encontra pela frente, como se sempre esperasse pelo pior, ao jovem drogado que, ao destruir os neurônios por causa da maconha ou cocaína, comete uma “exploração intrapessoal” ­ ou seja, explora o velho que ainda será em prol de um prazer imediato.

Encrenca?

Mas aí começam as perguntas. Viajar com crianças? Para fora do Brasil? Sem serem os já batidos resorts com monitores ou a Disney? É preciso quebrar os tabus. E aprender a viajar com crianças, seja para turismo, seja para uma reunião de negócios. O importante é fazer da viagem um capítulo a mais na história de pais e filhos.

Dizem que a vida muda depois que temos filhos ­ e é verdade. Alguns dizem que tudo fica mais difícil, outros dizem que melhora quando eles estão com 7 anos, ou então que tudo é mais divertido com as crianças e que os problemas começam a ficar muito pequenos. Ficamos mais fortes e corajosos com eles, não há dúvida.

Eu fui daquelas que demoraram oito anos depois do casamento para ter o primeiro filho.Executiva workaholic, adorava a liberdade de estar em qualquer lugar, a qualquer momento, sem planejar antecipadamente. Casei com 24 anos, cedo para os padrões atuais. Éramos um casal jovem com toda a possibilidade de explorar os cinco continentes. Um privilégio. Tivemos a oportunidade de viver milhões de aventuras em diversos países, histórias que contamos até hoje.

Só que chegou uma hora em que começamos a olhar as crianças dos amigos, dos vizinhos, e começamos a “babar” ­ e a idealizar como seriam nossos filhos.Ao mesmo tempo, eu tinha medo de uma criança chegar e privar-nos de nossa liberdade de viver, experimentar e descobrir o mundo.

Aventura na barriga

Mas o relógio biológico apitou ­ fiquei grávida.Na época estava de mala pronta para estudar em Boston por alguns meses. Estaria praticamente voltando para o Brasil com sete meses de gravidez e prestes a ter nosso filho aqui. Cheguei a pensar: será que vou mesmo? Ainda mais eu, que estava indo para a mais renomada universidade americana, a Harvard Business School. Não tive dúvida: arrumei as malas e fui fazer minha especialização.

Desde aquele momento eu já conversava com nosso filho na minha barriga. Contava como era o local, fazia caminhadas pelo rio Cambridge e admirava o outono por lá, quando as árvores ficam com as folhas coloridas,num elegante degradê de amarelo, marrom e vermelho, cena típica daquela região conhecida como Nova Inglaterra.

Voltei para o Brasil e três meses depois meu pimpolho Lucas nasceu. Daí veio a insegurança. E agora? Será que vou continuar a fazer minhas descobertas, viajar por diversos países, ter aventuras? Ou vou me prender porque não posso mais viajar com nosso filho? Será que vou ter que esperar até ele completar 7 anos? Alguns dizem que as crianças não se lembram de nada nos primeiros anos, mas tenho certeza de que despertamos muitas coisas nelas. A curiosidade, a explosão dos cinco sentidos e, mais que tudo, nos aproximamos ainda mais deles por meio de uma descoberta conjunta.

Cada fase, um passeio

Nós começamos cedo. Quando o Lucas completou 3 meses, fizemos a primeira viagem de avião com o trio completo (pai, mãe e filho). Como eu estava amamentando, decidimos fazer um passeio bem tranqüilo. Porque, dos 3 aos 8 meses de vida, o ritmo da criança deve ser preservado.

Pensando nisso, escolhemos lugares com pouca turbulência para viver o que alguns chamam de “turismo de contemplação”. Ou seja, quanto mais bonita a paisagem, mais gostoso é ficar na varanda admirando o cenário com o bebê no colo. Fomos conhecer diversos hotéis-fazendas (coisa que você só faz quando tem filhos) e algumas praias bem calmas, quase desertas.

Dos 9 aos 12 meses a criança começa a engatinhar e é preciso dispor de espaço com segurança. Surgem então as chamadas viagens de exercício. Quanto mais liberdade para os pequenos se exercitarem,melhor. Nesse período, fizemos a primeira viagem internacional com o Lucas. Acabamos indo para os Estados Unidos por conta da infra-estrutura. Fomos de carro de Miami a Key West, na Flórida.Um trajeto formado por estradas suspensas no mar que pudemos admirar pela janela do carro, enquanto o Lucas dormia no banco de trás.

A hora do banho era uma diversão à parte.Como no hotel não havia banheira, decidimos criar uma espécie de “microofurô” para o Lucas na pia do banheiro. Ele adorou, se olhava no espelho e dava risada daquela cena tão única. E nós percebemos o quanto é importante ter flexibilidade e bom humor para improvisar quando necessário.

Do primeiro ano de vida até os 2 anos, as crianças se movimentam ­ e andam sem parar.Na verdade, não param um segundo. A boa notícia é que elas precisam dormir 12 horas por dia para renovar as energias, deixando sempre um espaço no período da manhã e da tarde para passeios que sejam de interesse exclusivo do casal. E nada melhor do que ter um bom carrinho. É um investimento caro, mas, para quem gosta de viajar, necessário. Nós decidimos comprar o carrinho-triciclo, que, com rodas de bicicleta, enfrenta o asfalto, a areia da praia e a montanha sem causar maior desconforto para a criança.

A partir dos 2 até os 3 anos de idade, a criança já não usa mais fralda. Começa também a perceber o mundo ao seu redor, solta várias palavras, formando frases completas, e se interessa muito pela natureza, pelas paisagens visitadas e pelos animais.

Escolhemos destinos como a Patagônia, na Argentina. Fomos para Villa La Angostura, um pequeno vilarejo a quase duas horas de Bariloche, uma área argentina que lembra muito o oeste do Canadá.

Era fim de março, o verão dava seus últimos suspiros. Um clima maravilhoso e fresco, com céu azul todos os dias. Foi nessa viagem também que fizemos pela primeira vez trekking com o Lucas na mochila-cadeirinha. Fomos desbravar a floresta (toda hora respondíamos que não iríamos encontrar o lobo, somente fadas!) para chegar ao lago Correntoso. Acabamos não vendo as fadas, mas encontramos um vira-lata extremamente meigo que nos guiou direitinho até o lago.

Envolvimento total

Terminamos o ano comendo muitos pastéis-de-belém e travesseiros, um doce português feito de abóbora com coco. Fomos passar o Ano-Novo em Lisboa, e o grande acontecimento foi descobrir um novo papel para o mais famoso cartão-postal da cidade: a Torre de Belém. Para Lucas, a torre tinha foguetes de pedra nas laterais e por várias horas nos divertimos (dentro das guaritas), preparando a decolagem em direção ao rio Tejo! A fantasia das crianças alimenta os corações dos pais.

Dos 3 aos 5 anos começamos a aumentar a complexidade das viagens, pois os pequenos já falam bem, o grau de sociabilidade é maior, assim como o nível de curiosidade. Iniciamos então as viagens de conhecimento e começamos a visitar mais destinos durante um curto espaço de tempo.

Nas viagens para o exterior tínhamos uma grande preocupação quanto à língua.Nosso filho só fala português, e eu tinha receio de que ele não brincasse com outras crianças por não saber se comunicar.Uma grande surpresa! Estávamos num parquinho de bairro em Praga, na República Tcheca, quando Lucas interagiu muito com uma garotinha nativa. Depois de tanto brincar e rir, ele me disse que ela se chamava Tereska e que era sua mais nova amiga. Foi aí que eu tive a prova mais clara de que há uma linguagem universal entre as crianças.

Passamos a planejar com mais antecedência, procurando envolver Lucas na escolha do destino.Compramos um globo terrestre e contávamos histórias sobre a diversidade do nosso planeta.

Continuamos a explorar os paísesirmãos como Argentina e Chile, onde juntamos a vontade do pai com a do filho. Fomos a uma vinícola perto de Santiago, pudemos colher uvas na parreira e experimentar algumas diretamente do pé, sem ninguém perceber.

Nesse período estivemos algumas vezes em Paris, onde tive a oportunidade de ir muitas vezes a trabalho e onde me sinto relativamente em casa. Nunca imaginei voltar para lá com filho, mas tive dois bons motivos. O primeiro foi que minha melhor amiga, Adriana, foi transferida para lá. O segundo é que ela tem uma filha que se chama Sofia, com a mesma idade do Lucas ­ e os dois se conhecem desde bebês. Seria uma experiência única juntar os dois. E foi mágico! Conheci uma Paris diferente, repleta de diversão para crianças de todas as idades. Poucos sabem, mas a França tem a maior taxa de fertilidade da Europa ­ é o país com maior número de crianças por casal.

Baú de memórias

Mas há uma fase ­ lá por volta dos 6 anos ­ em que as viagens em família começarão a fazer parte do baú de memórias das crianças. O planejamento é fundamental, pois agora quem dita a melhor época é o calendário escolar. Nem sempre dará para viajar tanto, mas o que sempre prevalece é a qualidade das viagens e não a quantidade. Eu e meu marido ainda não vivemos essa fase, mas temos certeza de que as novas descobertas farão parte do nosso repertório.

O pequeno guia

PLANEJAMENTO: Faça as reservas com antecedência, principalmente quando há bebê e é preciso solicitar um berço no hotel.

SAÚDE E DOCUMENTOS: Cheque se as vacinas estão em dia, assim como os documentos ­ RGs, certidões e passaportes.

ENVOLVIMENTO: Compre livros, alugue vídeos, mostre o mapa do local a ser visitado e marque com um lápis o trajeto a ser realizado.

UMA LISTA: Tenha consigo desde remédios até acessórios necessários para a viagem.

UM POUCO DO MUNDO DA CRIANÇA: Se puder, leve o boneco de estimação para dormir com a criança, fazendo com que o companheiro de sono continue próximo.

MALA ORGANIZADA: Para as crianças, é um divertimento dobrar as roupinhas e colocá-las nas malas. Procure levar o essencial, sem excesso.

NO AVIÃO, NO CARRO, NO ÔNIBUS OU NO TREM: Leve sempre alguns brinquedos pequenos ou mesmo invente brincadeiras no percurso.

NO RITMO DA CRIANÇA: Não faça do passeio uma maratona. As crianças precisam descansar.

TAREFAS DIVIDIDAS: É fundamental que os pais ajudem e participem de tudo.

O REGISTRO DA AVENTURA: Fotografe ou grave as boas recordações. As imagens serão o registro desse capítulo da vida familiar.

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