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Onde é que fui amarrar meu burro? Pensava com o rosto afundado em minhas mãos, em meio a uma cabeluda reunião de pais da escola comunitária que montamos em Paraty, onde estuda minha filha Clara. Batizada de Quintal Mágico, nossa escolinha tem hoje nove crianças e muita boa intenção, mas ainda há muito o que fazer.Começamos as aulas de maneira improvisada no andar de cima, enquanto o piso térreo era reformado.A obra está quase pronta para a mudança mas não é nas instalações que encontramos nosso desafio.Dureza é moldar a rotina das crianças com as linhas pedagógicas que nos inspiram e estabelecer procedimentos que estejam de acordo com os valores do grupo.
Adotamos um modelo de escola para crianças de 1 a 7 anos sem separação por idade ou classes. A idéia é criar um ambiente que seja uma extensão do lar e que propicie o respeito pelo outro.Mas colocar esse modelo em prática tem sido difícil. Como estabelecer limites para as crianças, trazer momentos de concentração, evitar que o comportamento agressivo de uma das crianças passe para as demais? Sentimos a necessidade de alguém mais experiente para orientar pais e professoras no dia-a-dia.
Quando uma das mães trouxe a questão para a nossa mesa de reunião, ficou um mal-estar no ar. A professora sentiu-se desvalorizada. Percebi de pronto que a situação era delicada. A escola vive um momento de definição de seu projeto pedagógico, e não seria justo exigir que as professoras tenham resposta para as situações cotidianas que se apresentam. Os pais concordam e reconhecem o esforço e a energia que elas dedicam ao projeto.Mas ainda assim algo parece errado.A dificuldade de diálogo existe e precisa ser superada.
A base para um projeto comunitário dar certo é a convivência harmônica do grupo. Isso não quer dizer que todos tenham que concordar com tudo, pelo contrário. A diversidade faz parte, o questionamento amadurece os valores que sustentam o grupo. O desafio está em como lidar com as diferenças e garantir que todos se sintam representados no processo.
Não foi só a professora que se sentiu incompreendida. Senti na pele essa questão, quando percebi que o modelo de escola que nos inspirava não estava sendo considerado por algumas pessoas.Me senti mal, como se estivesse empurrando uma idéia. Não quero isso.Mais importante que a linha pedagógica que será adotada pela escola é que todos possam compartilhar suas experiências e que essas idéias sejam debatidas e consideradas.
Hoje buscamos uma pessoa que possa facilitar esse diálogo, que traga experiência no traquejo com as crianças e na mediação de grupos. Lembro-me da terapia: ninguém muda ninguém. E ninguém muda sozinho. É nos relacionamentos que nos transformamos, desde que estejamos abertos e livres para sermos impactados pela idéia e sentimento do outro. Difícil, mas vejo que esse é o único caminho positivo a seguir.
Sandra Cheminé, publicitária e há seis meses e 22 reuniões vê surgir uma escola comunitária em Paraty. www.santapaz.com e semdestino@abril.com.br
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