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Que inferninho é esse que você tá levando a gente, hein, mãe?
Julho de 1996, em um vôo para Salvador. Sarah, 9 anos, lia na revista de bordo uma matéria que, por coincidência, falava sobre Caraíva, litoral sul da Bahia, nosso destino final e o “inferno” para minha filha.
Ela e a irmã três anos mais velha toparam viajar comigo e meu marido depois de muita insistência e negociação. Praticamente condicionaram a ida à minha contribuição financeira para que fossem à Disney logo depois.Mesmo chantageada, topei. Sabia que a má vontade acabaria cedendo depois de um tempo lá.
Quando viram as fotos maravilhosas do vilarejo na revista céu azulíssimo, rio escuro, mangue muito verde, casinhas coloridas , achei que elas já iam começar a se animar.Mas o texto motivou a cara feia: “Sem água encanada e luz elétrica... Inferno!”
A viagem, bem mais difícil naquela época, demorou o dia todo. Começou com um táxi às 5 da manhã, passou por dois vôos (em Salvador pegamos outro avião para Porto Seguro), táxi até a balsa, a travessia e seis ou sete horas de ônibus por 70 quilômetros de estrada péssima.Para chegar à vila de Caraíva era preciso atravessar um rio de canoa.No breu absoluto, uma experiência assustadora só dava para perceber que ela afundava até a linha d’água. Já do outro lado, nosso guia catou o que pôde e saiu andando rápido, enquanto tentávamos seguir a luz fraca da sua lanterna.Tropeçávamos em tudo, não dava para enxergar o chão.
Impressionante como a falta de referências visuais nos desorienta. Tudo parecia estranho, misterioso, ameaçador. Era apenas um vilarejo à beira do mar, mas a sensação era de desembarcar em outro país (ou planeta). Se aquele homem sumisse depois de uma esquina levando nossas malas, não seria surpresa. Perdidos no Espaço, O Céu que nos Protege, qual filme sobre viagem-roubada serviria de referência para nossas desventuras?
Com algum espanto, chegamos à pousada que tinham nos indicado, a “da Lagoa”. O guia havia dito:“Eu levo vocês até o Dante”. E não é que era a mesma coisa? Conduzidos aos chalés, superbonitinhos, começamos a pensar que estávamos salvos. Incrível como o desconhecido assusta.
Apesar da careta no avião, as meninas não se incomodaram muito com a idéia de tomar um banho frio antes de dormir. E por causa de um objeto um objeto! elas acharam, pela primeira vez, que ficar ali poderia ser muito legal: um castiçal de madeira, igualzinho aos que tinham visto tantas vezes nas mãos de crianças em gibis e contos de fadas. “A gente pode acender uma vela aqui?” Com alguns cuidados, podiam. E começaram a se sentir as donas do novo mundo.
É fantástico como um elemento familiar, algo que reconhecemos (mesmo que só por desenhos), pode nos confortar e dar confiança.No próximo mês eu falo mais sobre como o inferninho virou o paraíso perdido para um menina de 9 e outra de 12 anos.
Soninha Francine não volta a Caraíva há pelo menos sete anos. E confessa que tem medo de encontrá-la muito diferente. almafeminina@abril.com.br
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