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Nuvens cobrem o céu da manhã fresca de outono. Duas ou 3 mil pessoas chegam ao Templo Zulai, em Cotia, São Paulo. O sol atravessa a lona e aquece risonhos rostos ocidentais e orientais nas arquibancadas montadas no pátio do monastério. Estão presentes monges e praticantes de variadas tradições budistas, de linhagens tibetanas, japonesas e chinesas. Há muitos neobudistas e simpatizantes, rostos de traços europeus, africanos, brasileiros. Logo mais ouvirão um líder espiritual pedir para que não deixem suas próprias culturas e religiões, insistir para que não queiram tornar-se budistas. O Dalai Lama falará sobre lojong, ou transformação da mente, texto tibetano de mil anos.
Quem dá as boas vindas é a reverenda Sinceridade, abadessa do Zulai, magnífico monastério construído pela comunidade chinesa. A monja se diz feliz porque o sol voltou depois de dias de chuva.“Ontem chorava”, explica, provocando uma gostosa gargalhada na audiência.Depois de orientar o riso, introduz uma breve meditação. O grupo silencia e o Dalai Lama entra. Há uma rápida liturgia no templo. Ele caminha em direção à escada e desce os degraus até a poltrona onde, coçando a cabeça e rindo, fala por quatro horas.
O lama fala em tibetano, seu intérprete explica em inglês para os tradutores e ouvimos em português os comos e porquês de devermos nos importar mais com a felicidade do outro antes de nossa própria. O Dalai Lama oxigena a sabedoria da tradição. Sua fala não pede crença dogmática, nem se autodenomina como verdade. Em síntese, diz: “Pacifique a mente, faça o bem”. Não pede “atitude religiosa”. Diz que religião e espiritualidade podem ajudar, mas em essência nem são necessárias.
Então, fala dos Oito Versos que Transformam a Mente, um treinamento para o exercício da generosidade. Os versos, na verdade estrofes, falam da determinação que se deve ter para alcançar o benefício para todos os seres. Ensinam a considerar as outras pessoas como supremas. Inspiram a determinar-se em aprender a examinar a própria mente. Falam de prezar aquele que tem natureza perversa, que sofre e carrega negatividades, ao invés de fugir dele. Propõem aceitar a própria derrota e oferecer a vitória ao agressor. Instruem a considerar como um guia espiritual quem ofende, magoa e desaponta. Finalmente, dizem que se deve tomar para si próprio os sofrimentos de todos os seres.
São práticas internas, que levam à compreensão de que todos os fenômenos são ilusórios e de que o homem pode libertar-se da escravidão do apego a que se encontra.Apego ao seu próprio eu, antes de mais nada.Mas como pacificar a mente quando se está cercado por tanto sofrimento? Onde encontrar forças? Dentro de si próprio, com determinação. Como no verso do Sutra do Coração, citado pelo lama em Cotia, uma inspiração para seguir em frente, no caminho da vida, espiritual ou não. “Gate, gate, paragate, parasamgate.” Vá, vá, vá mais, vá além.
Caco de Paula, jornalista, é grato pela oportunidade de ouvir de perto as palavras do Dalai Lama. homemdebem@abril.com.br
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