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O som do silêncio

Ele cria instrumentos a partir de objetos cotidianos. Este é Marco Antônio Guimarães, mentor da banda Uakti

por Priscilla Santos

Conta a lenda dos índios Tukano, que vivem às margens do rio Tiquiê, afluente do Rio Negro, que Uakti era um monstro de formas humanas que tinha seu corpo todo aberto em buracos. Quando corria pela floresta, o vento atravessava seu corpo e produzia sons lúgubres e soturnos que seduziam as mulheres. Enciumados, os índios mandaram matar Uakti.No local onde ele foi enterrado, nasceram três grandes palmeiras. Acreditando que elas continham o espírito de Uakti, os índios passaram a usar sua madeira para construir instrumentos de sopro.

Fascinante e misteriosa como uma lenda é também a vida de Marco Antônio Guimarães, líder do grupo instrumental mineiro que tomou o nome emprestado da imaginação indígena. O músico não é dado à aparições.Apesar de construir os instrumentos e compor 90% das canções do Uakti, Marco Antônio é um líder de banda que sequer vai ao show.Por nenhum motivo além de que, é ali, sozinho em seu casebre amarelo, em meio a um condomínio de casarões de classe média alta, no pé da montanha, a 15 quilômetros de Belo Horizonte, que ele encontra a quietude para criar e a solidão para viver.

É a tranqüilidade de quem passa muito tempo consigo mesmo que Marco Antônio aparenta quando me recebe na porta de sua casa, vestindo calça de moletom, camiseta de malha, chinelo e meia. Comento sobre o jardim selvagem que ocupa a frente da casa e ele, calmamente, me leva aos fundos,um lote sem portão nem cerca, bordado apenas pela mata virgem da região. Preferiu deixá-la aflorar ao léu, respeitando o tempo da natureza. A mobília resumida dá sinais de que o desapego passou por ali, assim como por outras partes de sua vida. Uma cama, uma mesa para o teclado, que ele toca algumas vezes durante a conversa, uma para o computador, uma rede e uma mesa de metal, estilo de boteco, enfeitada com um forro, é quase tudo. Ainda assim, a casa não parece vazia. Peço água, que chega no copo americano, antes de Marco Antônio ajeitar as cadeiras e soltar: "essa é minha vida simples".

Minas-Bahia

A aptidão para trabalhos manuais Marco Antônio herdou da família.Em Belo Horizonte, cidade em que nasceu, em 10 de outubro de 1948, seu avô materno mantinha uma oficina nos fundos de casa. Trabalhava com tudo um pouco: madeira, metal, couro. O hábito se espalhou entre os filhos.A mãe de Marco Antônio, artesã, ensinou a ele os primeiros compassos das ferramentas, lixas e máquinas de cortes com que ele fazia os próprios brinquedos.

Atrás de sua própria melodia, no fim dos anos 60, rumou para Salvador para estudar regência e violoncelo nos Seminários de Música da Universidade Federal da Bahia.Mais do que nunca, a Bahia fervilhava ao som de Beatles e da Bossa Nova.A Tropicália ganhava coro no país quando Marco Antônio topou com um certo Tom Zé. O encontro foi regado a batida de pinga com cebola e alho.Depois,Marco Antônio comprou de Tom Zé seu primeiro violoncelo e os dois se tornaram colegas de curso.

Mas, influência forte na escola foi mesmo o suíço-brasileiro Walter Smetak (1913-1984). O músico construía instrumentos com o que encontrasse pela frente,num ateliê montado no porão da escola.Marco Antônio passava horas observando o mestre.Mas foi só de volta a Belo Horizonte que começou a construir seus primeiros instrumentos, pois tudo em sua vida tem seu tempo e seu jeito próprio de acontecer.

O ofício começou meio que por curiosidade. Enquanto tocava como violoncelista em orquestras sinfônicas, em Minas e São Paulo, Marco Antônio criou um sem-número de instrumentos que jamais foram usados, e ele sequer chegou a considerar instrumento, até que, um dia, uma amiga foi visitar sua mãe. Levou uma cabaça de presente. Marco Antônio bateu o olho no souvenir e dali foi um passo para criar um instrumento de corda tocado com arco, mais ou menos na medida do violoncelo. Um dos mais de 50 instrumentos ainda hoje usados pelo Uakti.Chamouo de chori smetano, em homenagem a seu precursor, que costumava fazer instrumentos parecidos e apelidá-los de chori. Dizia que o instrumento chorava e ria, devido a seu timbre cheio de humor, e ao mesmo tempo lamentoso.

Tirar som de pedra

A cabaça foi apenas o primeiro objeto transfigurado pela imaginação do músico. Lâminas de vidro, madeira velha, colheres, caixas, panelas, garrafões d'água, vidros de maionese, azeitona ou café solúvel, peças de caminhão, água, espumas, meias infantis, antenas de TV, lã e tubos de PVC são alguns dos materiais que o músico converteu em poesia. Tanta sonoridade precisava ganhar os ares. "O Marco foi convidando músicos para reuniões. Era muita improvisação, passávamos duas, três horas, experimentando esses instrumentos", diz Artur Andrés Ribeiro, um dos três integrantes do Uakti, que se formou oficialmente em 1978 para lançar seu primeiro CD, Uakti ­ Oficina Experimental, em 1981.

Depois, foram mais dez álbuns com o grupo e quatro solos, sem contar as trilhas sonoras para filmes e balés. Mesmo assim, Marco Antônio nunca repetiu um só instrumento. Não por ideologia, simplesmente porque quando terminava um já tinha idéia para outro. Todo mundo sempre perguntou como é que ele consegue ter tanta idéia. "Uai, é só você entrar num lugar cheio de coisas, começar a encaixar uma com a outra que sai".

Marco Antônio também já brincou de inverter o sentido das coisas. Modificou violões para serem tocados com arcos e virou do avesso tambores tradicionais da Índia e da África. Criou até um instrumento que não pode ser tocado por ninguém, banindo qualquer verdade sobre a lógica das coisas. No nastaré, o movimento giratório de um motor central foi convertido no vaivém caótico de uma baqueta, que se move entre tubos de metal, e ninguém nunca sabe onde vai bater. É impossível compor com o nastaré, ele cria a própria música, ao ritmo frenético do acaso, que também rege a vida e a obra de Marco Antônio. "Sempre me interessou muito ver até que ponto uma coisa é determinada pelo acaso ou não. Ou até que ponto o que chamamos de acaso não é falta de uma percepção apurada para enxergar a ordem que existe nas coisas, já determinada".

Notas do acaso

Não se sabe se por força do acaso ou fraqueza da percepção.O fato é que os músicos Paulo Santos, Décio Ramos e Artur Andrés Ribeiro, que formam o Uakti desde o início, ficaram baqueados quando o autor resolveu afastar-se de sua criação. Após quase 15 anos de palco, em 1992, Marco Antônio foi viver numa comunidade alternativa, em Nazaré Paulista, interior de São Paulo. "Foram dois momentos, o primeiro aquela perda total de chão, de não saber o que fazer. E o outro de não poder fazer outra coisa além do que a gente sabia fazer, que era tocar aqueles instrumentos", diz Paulo Santos no livro Uakti: Um Estudo Sobre a Construção de Novos Instrumentos Musicais Acústicos.

A essa altura,Marco Antônio já havia conhecido o mundo em turnês, passado dias e noites compondo e criando instrumentos, tocado com gente importante, obtendo renome internacional. Passara anos vivendo nos estúdios. Teve vários endereços.Mas, pensou que havia chegado a hora de se recolher. Reduziu seus pertences a uma malinha e foi esvaziar a vida, para depois voltar a preenchê-la.

No Centro de Vivências Nazaré, morava um grupo de pessoas e cada uma tinha sua função. Marco Antônio foi trabalhar na oficina de consertos, onde fazia de reparações hidráulicas e elétricas a instalação de telhados, portas, janelas ­ mole para quem havia erguido um pequeno teatro na Fundação de Educação Artística, em Belo Horizonte, usando conhecimentos de marcenaria e construção civil.

Até que, um dia, o acaso se uniu com a atenção aos detalhes salpicada por aquela velha capacidade de olhar diferente o cotidiano e estava pronto o único instrumento produzido em quase três anos de Nazaré Paulista. "Estava consertando um cortador de grama que tinha quebrado o cabo. Uma hora, sem querer, botei um porca na ponta de uma barra e ela fez assim", diz ele logo antes da porca escorregar, lentamente, pela barra produzindo um som harmônico, constante, quase um mantra. Um instrumento para olhar, mais que para ouvir. Nunca foi usado em composição, mas está ali, ao lado do teclado, na casa amarela, como lembrança de um tempo que parecia ter parado para o músico olhar para si, sem deixar de ver o mundo.

E foi enquanto os minutos transcorriam sem pressa, que o compositor norte-americano Philip Glass entregou, pela primeira vez, partituras suas para serem arranjadas por outro músico. Era a trilha sonora para um espetáculo do grupo Corpo, que depois se chamou Sete ou Oito Peças para um Balé. As partituras chegavam de Nova York e eram enviadas de Belo Horizonte a Nazaré Paulista. Marco Antônio ousou compor uma introdução para as sete peças eleitas por Glass. Quem veio gravar foi o maestro dele, que disse: "Ora, mas são sete ou oito peças para o balé?". O coreógrafo Rodrigo Pederneiras, que estava por perto, sugeriu então o nome para o espetáculo.

Baile da vida

De volta à Minas, seguiu nos bastidores, compondo, gravando e construindo instrumentos, mas não voltou aos palcos. "Gosto da solidão, de estar nessa casinha, nessa matinha aqui."A criação, para ele, tem que ser um processo solitário. Sofrido? "De jeito nenhum. De artista sofrido eu não estou sabendo de ninguém não, isso é lenda".

Pode até ser que Marco Antônio seja um Uakti moderno, autor de sons suaves e sedutores. Uma lenda.Mas, da simplicidade da sua casa, sentado ali, de meia e chinelo, cabeça baixa que se ergue ao longo da conversa, me parece mais um homem comum,que sabe ser gênio sem deixar de ser gente. Parafraseando o sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, que se encantou pelos encantos do Uakti, "metade Deus.Metade Diabo. Na exata e mineira medida, como é a vida".

O compositor

Marco Antônio Guimarães é violoncelista, compositor, arranjador e diretor musical do grupo Uakti. Participou de discos de Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, The Manhattan Transfer e Paul Simon. Conhecer Simon foi uma peça pregada pelo destino. Em 1988, o Uakti fez um show num transatlântico em Miami. Tempos depois, um dos tripulantes entrou em contato: era Simon convidando o grupo para a gravação do disco The Rhythm of the Saints. Durante o mês de julho de 1990, Marco Antônio ficou como artista residente no museu Exploratorium, em São Francisco, EUA, convidado pelo Departamento de Acústica para idealizar e construir instrumentos, hoje em exposição permanente na instituição. "Foi a experiência mais interessante da minha vida". Entre as trilhas sonoras que compôs para cinema está a do filme Lavoura Arcaica (Luís Fernando Carvalho, 1999), pela qual ganhou três prêmios.

Para saber mais

LIVRO
Uakti ­ Um Estudo Sobre a Construção de Novos Instrumentos Musicais Acústicos, Artur Andrés Ribeiro, C/Arte

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