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Você se lembra de como foi a primeira vez que você ouviu falar sobre sexo? Aline Salve nunca mais vai esquecer. Ela tinha uns 7 anos quando perguntou à mãe por que uma certa parte do corpo do seu irmão ficava digamos "diferente"quando ele tomava banho.A mãe de Aline julgou que esse era o grande momento para dar sua primeira aula de educação sexual para a filha. Levou a menina para o escritório da casa e não teve dúvidas: baixou a prateleira. Pegou atlas de anatomia, livros com ilustrações detalhadas, gráficos, textos. Tudo muito racional e científico. E ensinou o que sabia sobre diferenças entre os sexos,menstruação, gravidez e nascimento.Uma hora e meia de falação depois, Aline ainda não sabia que relação havia entre as reações inesperadas no corpo do seu irmão e tudo aquilo.
Quer pior? Assim, do meio do nada, o irmão de Pedro Henrique, na época com 9 anos, disse para ele, o caçulinha, com 5: "Tá vendo aqueles dois cachorrinhos um em cima do outro? Mamãe e papai fazem igual". Pedro Henrique, o irmão menor, teve um choque. Como assim, "papai e mamãe fazem igual"? E para quê? Para o menino,o mundo o estava traindo com segredos inomináveis. E o que fazia Pedro mais infeliz é que parecia que ele era sempre o último da família a saber dessas coisas.Mais ou menos como aconteceu com a história do Papai Noel.
Pois é, em todas essas histórias não foi dada nenhuma palavrinha sobre o fato de o sexo ser fonte de prazer e alegria, a maior comunhão física entre dois seres humanos e possível base de relacionamentos amorosos bem-sucedidos. Ou, simplesmente, que é uma coisa que pode ser muito boa. "Salvo raras exceções, nossa cultura não produziu uma ars erotica (arte erótica), mas sim uma scientia sexualis (ciência sexual)", diz o sexólogo alemão Volkmar Sigusch. Isto é, nos baseamos em muita informação, mas pouca emoção, sensibilidade e delicadeza. São raros os educadores que sabem que mais importam o tom de voz, o ambiente acolhedor, a afetividade, a naturalidade. Em resumo, o que conta mesmo é a impressão causada tanto ou mais do que o significado do que se diz. "Quando se educa, geralmente não se fala sobre a importância do outro numa relação sexual ou sobre respeito e carinho, como se a sexualidade estivesse alheia a tudo isso. Da maneira como o assunto é encarado, ficamos reduzidos a máquinas sexuais", diz Marcelo Toniette, psicólogo, psicoterapeuta e membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. "Associar educação sexual com bases anatômicas é,muitas vezes, reflexo da forma com que o adulto lida com isso: por meio de um discurso racional, frio,mecânico, envolto por mitos, repressão e tabus", afirma.
O resultado dessa falta de base é que eu, você e boa parcela do planeta não temos grandes histórias para contar sobre nossa educação sexual. Ou tivemos aquela orientação "anatômica", com o objetivo de impedir a gravidez e prevenir doenças (que é útil, sem dúvida, mas que reduz muito o assunto), ou tivemos o que de pior os amiguinhos ou irmãos tinham para nos contar sobre isso. "A educação sexual é o conjunto de atitudes, valores, estímulos ou repressões com relação ao sexo que nos são passados desde que nascemos, seja pela família, seja pela escola ou pela sociedade", diz a orientadora sexual Maria Helena Vilela, do Instituto Kaplan, uma ong totalmente voltada para a orientação realizada nessa área. "Na verdade, quase tudo pode ser considerado educação sexual: o jeito como nos abraçaram na infância, as dançarinas que vimos nos programas de televisão, os olhares repressivos que recebemos diante de uma brincadeira erótica infantil", diz ela. Já a orientação sexual nas escolas, segundo Maria Helena, é uma intervenção mais direta e concisa nesse conjunto abrangente, com o objetivo de dar informações e esclarecimentos. "Mas se uma pessoa já adulta se sente infeliz diante de sua sexualidade, a melhor solução é procurar ajuda profissional, como um terapeuta especializado",afirma a orientadora. Para problemas mais corriqueiros, o próprio Instituto Kaplan mantém um telefone apenas para responder dúvidas relativas ao sexo. Todas que você pode imaginar.
O sexo que você tem hoje seu desempenho, interesse, forma de olhar para seu parceiro ou lidar com o próprio corpo está matizado por tudo aquilo que você aprendeu na infância. A gente só não percebe porque não se pergunta sobre como fomos formados e informados sobre o sexo. Deixamos de refletir sobre as primeiras experiências eróticas que tivemos ou como elas ainda influenciam nosso comportamento. O escritor francês Michel Leiris, por exemplo, fez isso e teve resultados surpreendentes. Ele percebeu que o ser é humano é tão complexo nessa área que as experiências sexuais, que podiam causar traumas numa pessoa, para outras revelavam aspectos ricos e insuspeitados. Leiris, por exemplo, que teve sua iniciação sexual num prostíbulo no início do século 20, achava o bordel um "lugar de infinita humanidade" e não um antro de perdição, como se pensava na época (era a impressão que ele tinha, ué)."Nas vivências eróticas, um contexto vivido por uma pessoa pode levar a uma experiência positiva, enquanto que para outra esse mesmo ambiente pode resultar em outro tipo de impressão. Isso vai depender da singularidade de cada um, dos seus recursos internos, da sua trajetória de vida", diz Marcelo Toniette. "Somos diferentes uns dos outros. Não é adequado lidar com a sexualidade humana de forma chapada", afirma.
Por isso é que é mesmo tão útil perguntar "como é o seu sexo?"O seu, de mais ninguém. O que você acha sobre esse assunto? Como está vivendo sua sexualidade hoje? Essas perguntas só você pode responder e suas respostas serão únicas e particulares. E é bom mesmo pensar mais sobre isso. Esse é o começo daquilo que pode resultar em mudanças ou melhorias na sua vida sexual.Mais que qualquer manual sobre sexo.
A ginecologista paulista Beleza Woo, por exemplo, faz essas perguntas para suas clientes em seu consultório, ao lado das questões de praxe sobre regularidade da menstruação ou adaptação à pílula. Ela acha que, a partir dessa reflexão, muita coisa pode ser feita. "Sexualidade é vida. Vários aspectos ligados à vida podem favorecer e beneficiar a sexualidade", diz. Que aspectos? Tudo o que favoreça a expressão do corpo, como a dança e exercícios de expressão corporal. Ou o refinamento das percepções internas, como sentir o toque durante uma sessão de massagem. "Peço a muitas mulheres que não têm companheiros que façam pelo menos uma sessão de massagem por semana, para manter ativas as sensações da pele", diz ela.
Estar com boa saúde é outra condição." Uma pessoa saudável é alegre, vibrante, cheia de energia vital. E nada mais erótico que alguém que vibra plenamente com a vida", diz a ginecologista. Nada a ver com caras e bocas, lingerie ou novas posições sexuais. E nem com pular, cantar e sapatear só para chamar a atenção. "É algo interno, que transborda naturalmente, sem afetação ou excesso", define.Para ativar a sexualidade, para algumas de suas clientes ela pode recomendar sessões de acupuntura, para aumentar o chi ou força vital. Para outras, artes marciais ou dança de salão (que envolvem o contato com o corpo do outro), ou mesmo dança flamenca."Existem mulheres excessivamente yin, delicadas, suaves e introvertidas, que precisam bater o pé no chão para exteriorizar sua força e despertar seu lado yang, masculino", fala a ginecologista. Nesse caso, a alimentação também pode mudar." Alimentos yang, mais solares, ajudam no processo." E, se a mulher for mais yang (e, com isso, muitas vezes oprimir seu companheiro com sua força e presença), a indicação pode envolver água (como a natação), balé (feminilidade) ou tai chi (flexibilidade).
Como vimos, o que você é hoje com relação ao sexo é apenas o resultado de suas vivências anteriores e das características de seu corpo e de sua psique. Então está tudo certo, não precisa ficar aflito.Mas é claro que pode melhorar na direção de um maior equilíbrio e satisfação interna.
E o primeiro passo na direção da redescoberta da sexualidade é voltarse para si mesmo (o parceiro só aparece depois). Para começar, é preciso aprender a gostar novamente do prazer que seu corpo pode trazer. E como se faz isso? Não é muito difícil. Trazendo novas sensações para ele, como soltar-se numa dança espontânea pela sala, nadar sentindo apenas o contato da água na pele, passar creme nos pés todas a noites, por exemplo.
Novas atitudes também podem incluir experimentar sua individualidade erótica outra vez.Você pode voltar a olhar com interesse para alguém do sexo oposto, estar mais consciente da atração que desperta ou até testar seu poder de sedução.
O filósofo polonês Zygmunt Bauman afirma que vivemos numa era de relacionamentos frágeis, de amores líquidos, em que hesitamos em nos entregar (e assim acabar com as outras possibilidades de relacionamentos) e, ao mesmo tempo, em que ansiamos por relações profundas. "A insegurança inspirada por essa condição ambígua estimula desejos conflitantes de estreitar laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos", afirma. Isto é, queremos o máximo de intensidade com o mínimo de compromisso.
Uma cultura consumista como a nossa favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, receitas testadas e resultados que não exijam esforços prolongados nem um tempo (tão precioso nesse campo) mais dilatado,menos urgente. O problema é achar que podemos incluir os relacionamentos na categoria de mercadorias que podem ser obtidas sem trabalho, sem sacrifício, e mesmo assim satisfazer todas as nossas necessidades."O máximo do prazer só é obtido numa relação profunda, e não se pode ter uma relação profunda sem esforço, entrega, constância e cuidado com o outro", escreve Bauman. Em resumo, para ter um sexo pleno é preciso gostar, envolver-se e aprender a abrir mão de outras oportunidades. Cabe a nós, portanto, estarmos dispostos a rever alguns conceitos que sempre tínhamos dado como certos e que muitas vezes nos foram passados quando ainda mal conseguíamos soletrar o á-bê-cê.
LIVROS
• O Amor Líquido, Zygmunt Bauman, Jorge Zahar Editor
• A Idade Viril, Michel Leiris, Cosac Naify
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