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Na fala inocente e autêntica das crianças,o imaginário não tem limites.Universos de possibilidades com maravilhosos mundos coloridos surgem a todo momento. Tudo é possível.Mas nem tudo é concordância.Ainda que com doçura na fala,quando disputam entre si, podem trocar acusações com linguagem bem direta:
Bobo!
Você é que é bobo!
Bobo é você!
Você que é.
Você é que é. Pronto. Está resolvido, continuam a brincar. Fica combinado quem é ou não é bobo por aqui e não se fala mais nisso.
Ação e reação.O acusado apenas mostra um espelho para quem o acusa e diz: "Você é o que você mesmo enxerga no mundo, nos outros e em si mesmo".Você é que é. A afirmação serve como uma raquete de pingue-pongue à criança que, devolvendo a ofensa à outra, não se sentiu ofendida nem se deixou ofender. Quem lançou a ofensa que fique com ela. Simples assim na conversa de criança. Não há aí nenhum julgamento de mérito. Você é que é. Mais tarde, já mais desenvolvida, à custa da perda de muito de sua inocência, a criança talvez seja capaz de entender melhor a lógica da justiça da comunidade em que vive.Dito isso, passemos do tom acusatório da frase Você é que é para o que ela pode ter de revelador.
Conheço um adulto que usa essa frase quase como um bordão. Não para livrarse de acusações. É um uso, digamos, criativo.No começo foi meio por brincadeira. Depois, por ver que aquela resposta de aparência infantil e com resultados absurdos às vezes oferecia à outra pessoa uma nova possibilidade: a de olhar seu próprio pensamento. Começou numa viagem de carro, repetindo a esmo a frase dita no banco de trás, na conversa entre as crianças. Logo depois a mulher lhe disse que o lugar por onde passavam era lindo.Você é que é linda, respondeu.O filho observou que começara a chover.Você é que está chovendo. A estrada tem muitas curvas. Quem tem muita curva é você. Todos riram desse pingue-pongue que começou como brincadeira de viagem.Aos poucos, todos começaram a participar, respondendo Você é que é.Ou,na linguagem econômica das crianças,Você que é.Você que é longe, azul,montanha, flor, pasto, isso, aquilo.De vez em quando uma das crianças fazia beicinho ao receber de volta a imagem de algo que ela mesma sugeria.Você que é feio.Você que é triste.Você que é ruim.As crianças não demoraram a perceber que poderiam escolher as palavras com imagens que as presenteassem de volta com o que queriam ouvir: Você é que é herói, inteligente ... Alguém já disse que, quando atinge certa idade,o homem pode retomar a inocência de criança sem pudor ou medo de falar com esse misto de entusiasmo, franqueza e ingenuidade. Sou grato por conhecer pessoas assim, que, diante de alguém com visão pessimista,mostram que a vida é uma dádiva, apesar de todo o sofrimento, e que o mundo é também o reflexo de quem vê o mundo. Ensinam que bom, ruim, mais ou menos ou maravilhoso o mundo é você.
Caco de Paula é jornalista, escreveu esta coluna, mas acredita que a autoria destas linhas está em quem as lê. homemdebem@abril.com.br
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