Amigos, bem sei que em ano de Copa do Mundo o futebol é o assunto total, inapelável. É o tema fatal, obsessivo no escritório, nos almoços de família, na conversa com o vizinho.Pudera: somos a pátria de chuteiras, nosso presidente é useiro e vezeiro de metáforas futebolísticas, o bate-bola é o feijão-com-arroz de nossas conversas, das mais triviais àquelas que só acontecem à meia-noite, num terreno baldio, à luz de archotes.
Mas vejamos: há mais coisas entre o futebol e a nossa vida do que sonha a vã filosofia dos estádios. O velho esporte bretão é uma “escola” de vida.Observado com atenção, o esporte exala outras qualidades que vão além do condicionamento físico e da diversão toda que é disputar uma bola com um adversário que, logo depois da partida, vai assar um churrasquinho esperto para todos os jogadores.
Esporte coletivo, o bate-bola traz uma série de elementos que podem rolar fora dos gramados e entrar definitivamente na vida de todos.Conseguir unir todos esses predicados (selecionamos um timaço de 11 deles, mas há outros no banco de reservas, sem dúvida) significa alcançar um equilíbrio raro e, por isso, disputadíssimo em nosso cotidiano. Conheça agora o nosso escrete. E não fique apenas na torcida: entre em campo, toque a bola para a frente e marque os seus golzinhos.Você vai aprender a levar a vida na esportiva.
1. Concentração
No futebol profissional, o termo “concentração” significa o período de reclusão em que jogadores e comissão técnica de um time se isolam, buscando o mínimo de interferência externa, para se focar no jogo. Pode durar um, dois ou mais dias. O objetivo é o mesmo: desvencilhar-se de todas as coisas da vida “normal” para se concentrar na partida e aumentar as chances de vitória. Talvez não tenha sido mera coincidência, mas o futebol profissional pratica um conceito importante do budismo. Yasuyoshi Oonishi, estudioso do kemari esporte praticado no Japão antigo e que é considerado predecessor do futebol moderno , explica que a concentração está entre as práticas que os budistas acreditam ser capazes de nos levar ao nirvana (ou à iluminação), e significa fazer uma coisa de cada vez, com atenção plena e totalidade, cultivando uma mente tranqüila.
2. Humildade
“Lição preciosa que o esporte me ensinou no cotidiano dos estádios é que o homem que ganha hoje é o mesmo que perde amanhã. No esporte, como na vida, não há vitórias nem derrotas definitivas.” A frase é do cronista esportivo, escritor e apaixonado por futebol Armando Nogueira e exprime uma das maiores virtudes a serem buscadas pelo homem: a humildade. E não tenha dúvida: os maiores craques, sejam da história do futebol, sejam do time do bairro, nunca se julgam perfeitos e sempre estão atentos àqueles aspectos que ainda podem aperfeiçoar, às metas que ainda pensam em alcançar. Isso talvez explique por que só alguns se tornam verdadeiros craques pois justamente demonstram a humildade necessária para manter o espírito sempre aberto ao aprendizado.
3. Equilíbrio
Vira e mexe escutamos falar do jogador fulano que agrediu o adversário ou das torcidas se enfrentando como exércitos. Será que o futebol desequilibra o ser humano? Em parte. O futebol não pode levar sozinho a fama de esporte agressivo porque as paixões, em geral, colocam o homem num estado de euforia que leva a comportamentos inexplicáveis, como a violência. Em 1994, durante a Copa do Mundo dos Estados Unidos, o sociólogo Florestan Fernandes escreveu: “No Brasil, nada conduz à loucura como o futebol. Trata-se de um mundo no qual o profano, a magia e a religião se confundem e quebram a rotina da miséria, da ignorância e da opressão, ainda que por alguns instantes e graças à fantasia”. Manter o equilíbrio diante de uma paixão é, portanto, um desafio. Para isso, a concentração, a disciplina e a alegria remam a favor.
4. Disciplina
Para praticar qualquer atividade (física ou não) é necessário determinação e regularidade. O preparador físico Nuno Cobra, que atuou com esportistas de ponta como o piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, desenvolveu um método de trabalho baseado no princípio da disciplina saudável. Esse princípio, apesar de exigir adaptações e renúncias, não deve jamais significar sofrimento. Por isso, a disciplina tem que vir de dentro para fora e deve necessariamente ser sinônimo do caminho para se alcançar algo mais. Por mais descontraída que seja a atividade, ela sempre ocorre de maneira mais tranqüila e prazerosa se damos um pouco de atenção ao que se conhece por preparo paralelo: a alimentação, o sono, o sol, a roupa apropriada, a tranqüilidade, o horário e a assiduidade.
5. Igualdade
O futebol de rua, de praça, de terreno baldio é um evento em que todos estão sujeitos a um mesmo regulamento que não permite diferenciação entre ricos e pobres, negros e brancos, bonitos e feios. No máximo pode rolar um “solteiros x casados”. (Já o futebol profissional obedece às normas e diferenciações de uma sociedade competitiva nos moldes capitalistas.) Dentro de campo, o que diferencia um jogador de outro é a força, o espírito, a ousadia, a habilidade. Ali viceja uma verdadeira democracia: há direitos e deveres que, se não forem efetivamente cumpridos, devem ser punidos pelas próprias regras vigentes (e acertadas com a concordância de todos). Há também a vontade dos participantes de respeitar as normas e deixar rolar o jogo. Quer saber? Está faltando um pouco do espírito de boleiro no resto da sociedade.
6. Sociabilidade
No livro Para Ser Jogador de Futebol, o ex-jogador Raí diz que uma das coisas mais ricas na experiência futebolística é o convívio entre pessoas de diferentes classes sociais. Por se tratar de um esporte de improviso, que não necessita de equipamentos nem uniformes caros, parte-se do princípio de que todos os que estão em campo são iguais, têm as mesmas oportunidades e dependem somente da própria habilidade e inteligência para se destacar. Assim, não é incomum encontrar em um time pessoas que vivem realidades muito distintas fora de campo. Uma prova dessa sociabilização são os rachas de quinta-feira à noite na sede da gravadora Trama, em São Paulo. Na quadra, os donos da gravadora, porteiros, boys, produtores, músicos e várias celebridades se irmanam em torno daquilo que chamam de “o momento mais sagrado” da semana.
7. Atitude
Jogador de futebol sem atitude geralmente esquenta o banco de reservas. Mas o conceito de atitude, assim, parece muito vago. Ter atitude nem sempre significa dominar a bola e tentar sair driblando todo mundo. Afinal, se você não for o Pelé, corre o sério risco de tomar um gol e prejudicar o resto de sua equipe. Na verdade, ter atitude é ter sensibilidade para perceber qual ação cabe em qual situação. Se é intervir e tomar partido ou se é deixar que os outros resolvam o problema, se é hora de falar ou de ficar em silêncio, se é simplesmente tolerar o erro dos outros ou se é necessário cobrar a melhora. São situações que transcendem o futebol e dizem respeito a todas as modalidades da vida. Jogar futebol implica o aprimoramento desses momentos cruciais da vida comunitária.
8. Espírito de Equipe
Atleta do século, Pelé nunca abandonou o espírito de equipe nem deixou de reconhecer a importância de cada um dos colegas durante os quase 19 legendários anos em que atuou pelo Santos Futebol Clube. Jogadores que conviveram muito próximos dele, como Pepe e Coutinho, sempre destacaram a preocupação do Rei do Futebol com os companheiros dentro e fora dos gramados. Nisso Pelé também era excepcional, todos concordam. Pensar em equipe não só é uma virtude, mas uma necessidade em todos os campos da vida. E esse aprendizado, por melhor que você seja em alguma coisa, sempre vai depender de alguém para receber a bola na medida para chutar de letra, ou aquele passe enfiado que te deixa cara a cara e só precisa de um toquinho para encobrir o goleiro com classe.
9.Alegria
Quem gosta de jogar futebol sabe que a pelada com os amigos é, muitas vezes, o único momento de descontração da semana. Mas por que não levar essa lição para todas as outras pelejas da vida? O futebol não pode ser o único a ter essa função desinibidora dentro da rotina. É preciso entender que se manter alegre é um exercício constante, que demanda o esforço do desapego. Segundo o budismo, praticar o desapego liberta as pessoas do ciclo da existência e pode ajudar a cessar o sofrimento. Ou seja, tudo o que fazemos tem que ser marcado pela alegria. Pense num craque universal como Ronaldinho Gaúcho, todo sorrisos, que joga um futebol cheio de alegria e descontração, mesmo naqueles momentos mais dramáticos da partida. Cá entre nós: o craque do Barcelona é um guru da mais pura jovialidade.
10. Inteligência
Ninguém é inteligente para tudo. Por isso é preconceituoso o julgamento de que “jogador de futebol não é inteligente”. Posicionar a bola no ângulo do escanteio e chutá-la de maneira que faça uma parábola regular e passe por entre o retângulo formado pelas traves do gol, que se encontra na mesma linha de onde a bola saiu, desafiando os ventos e escapando das mãos do goleiro, não parece tarefa pior que solucionar um complexo problema de física? É verdade que não temos de resolver problemas de física todos os dias, nem marcar gols olímpicos em cada pelada. Porém, as atitudes geniais têm espaço em todas as atividades. A todo momento somos solicitados a encontrar soluções para os mais diversos desafios. Em alguns casos, nos saímos bem. Em outros, a melhor alternativa é ter humildade e se deixar contagiar pelo espírito de equipe.
11. Ritual
A preleção do técnico no vestiário antes do jogo, a escolha dos times, a eleição do capitão, a conversa com o árbitro, as estratégias, o gesto de desculpas quando a entrada no adversário foi mais dura tudo no futebol é altamente ritualizado. A antropologia dedica atenção especial ao tema. Essas pequenas convenções e critérios de comportamento, que só fazem sentido dentro de um contexto específico, são o que caracteriza um ritual. Assim, quando o pai decide ensinar o futebol para o filho, por menor que ele seja, é preciso dar ênfase aos rituais como forma de contato com algo muito especial. Não basta ensinar a chutar a bola, mas a tratá-la com carinho. Segundo os pedagogos, isso colabora na educação da criança, que tende a ter mais facilidade para desenvolver amor pelo que faz e a ter mais tranqüilidade na hora de planejar o próprio futuro.
Para saber mais
• LIVROS:
- Para Ser Jogador de Futebol, Raí, Soninha e Milly Lacombe, Jaboticaba
- Atlas do Esporte no Brasil, Editora Escola de Educação Física
- Como o Futebol Explica o Mundo, Franklin Foer, Jorge Zahar
- O Homem e a Bola, Armando Nogueira, Globo
- A Magia da Camisa 10, André Ribeiro e Vladir Lemos, Versus
- A Semente da Vitória, Nuno Cobra, Senac
• DVD:
- A Historia do Futebol Um Jogo Mágico, FreemantleMedia e FlashStar Home Video