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Vale do Jequitinhonha

A construção de uma hidrelétrica arredou de lugar cerca de 1100 famílias. Em Minas Gerais, outra vez, o sertão vai virar mar.

por Daniel Barcelos
fotos João Marcos Rosa

slideshow_vale_01.jpg|Depois da chapada tem sempre a grota aonde carro baixo não desce. Paisagem do Vale do Jequitinhonha é assim, até que a água vem e cobre. Nas encostas, as plantações do feijão andu e do amendoim cedem espaço ao enorme reservatório da barragem. Quando completamente cheio, serão 137 quilômetros quadrados de espelho d’água e capacidade para acumular até 6 bilhões de metros cúbicos. A previsão é de que a Usina de Irapé funcione plenamente a partir de agosto de 2006. Nessa nova realidade, a casa não é mais habitação. Fumacinha de forno ou de tacho, o grupo escolar movido a energia do sol, o antigo engenho de cachaça... E os vizinhos. Todo mundo ali transplantado feito planta que sobrou da derrubada.| slideshow_vale_02.jpg|O garoto vai crescer, lenha queimar, tabatinga nova repintar o fogão de barro... Ironia é que, em nome de uma usina, as comunidades Cana Brava e Jacuba, entre muitas outras, vão desaparecer sem nunca terem recebido em suas casas o conforto da luz elétrica. Segundo informações da companhia empreendedora, 374 famílias estão reassentadas em seus municípios de origem ou nas proximidades.| slideshow_vale_03.jpg| Grande parte daquelas pessoas, de fato, nem conhecia paragem mais distante. As demais famílias, cerca de 800, passam por um processo que implica a perda de quase tudo aquilo que conhecem. Para a maioria de seus membros, o universo compreende apenas a realidade do seu torrão natal.| slideshow_vale_04.jpg|A expressão faceira de seu Artur Godinho, um cavaleiro famoso nos arredores deste vasto sertão. Peralta, no lombo da mula preta, enfeitada de argola e paramentos, como a maria-fumaça ele correu meio mundo. Quer dizer: meio sertão já conhece sua destreza. E sua inescapável simpatia.|A terceira margem slideshow_vale_05.jpg|Na parede estava a inspiração para o nome do trabalho: Fotos de Família foi um projeto desenvolvido pela equipe do fotógrafo João Marcos Rosa, da qual faço parte. Fotografaram-se as famílias cadastradas, em suas casas e roças, para que estas pudessem levar consigo a memória de seu berço. Tudo parte de um programa de preservação do patrimônio cultural das populações atingidas pela barragem de Irapé. De chapada ou de grota, o rio vive de quem conta sua história.| slideshow_vale_06.jpg|Os folguedos e as festas de santo estão de mudança. Mas vão se lembrar do santuário de São Pedro, em Cana Brava, onde só de pé ou de animal para ter acesso. Como em outras tantas localidades. Pega carro ou carona, atravessa eucaliptal. Por aquelas chapadas tem de todo tipo, tamanho e qualidade. Saiba bem o caminho certo, que em rua de eucalipto não tem placa ou numeração. Se acabou a refloresta, pode saber que chegou no “tope”. Daí pra baixo é só barranco que nem o do Zé de Barros – nomes de gente e de lugar se confundem. Em nome do santo não se poupam esforços. É de gerador a óleo que a cabana se acende. Na única taipa do recinto o altar do santo compartilha claridade. Ilumina o padre que veio de Turmalina prestar a reza e a bênção. A musicalidade rústica dos compadres o ronco do rio, ignoto, acompanha. Algazarra de foguete, de leilão, de bebida, de cavalo. Barulhinho de moeda despencada na caneca que paga a viagem do vigário.|A festa do sagrado
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