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“Não sou preguiçoso. Sou contemplativo”, disse Dorival Caymmi, certo dia, depois de tanto se sentir importunado por perguntas a respeito de sua, digamos, contemplação excessiva.Mesmo assim, o adorável menestrel do devagar-quase-parando, compositor de pérolas do cancioneiro como “Acontece que eu sou baiano”, conseguiu resumir, em duas sentenças lapidares, como a preguiça pode ser saudável e prazerosa.
Caymmi é vanguarda. De uns tempos para cá, cultivar a preguiça virou moda.Uma onda de preguiçosos assumidos assola o mundo só no ano passado foi lançada mais de uma dezena de livros sérios sugerindo desde a vadiagem propriamente dita ao boicote ao trabalho duro.As razões parecem óbvias. Cada vez mais gente chega à conclusão de que uma agenda lotada de tarefas a cumprir num mínimo espaço de tempo não é mais motivo de status, e sim uma fonte de frustrações pessoais, além de porta escancarada para uma série de males, que vão da estafa aos ataques cardíacos.
Ninguém aqui está dizendo para você jogar todo o trabalho para cima e viver o resto da vida de papo para o ar.Mas abrir espaço para momentos de preguiça pode ser um ótimo negócio. Tanto é que até mesmo árduos trabalhadores, como pesquisadores e cientistas, também chegaram a essa mesma conclusão. Eles agora dizem que uma boa dose de indolência faz um bem danado para a saúde e, pasme, nos faz viver mais e melhor, parafraseando o subtítulo desta revista que você tem nas mãos e que deve estar lendo de pernas para o alto. Se não estiver, por favor, dê uma bela espreguiçada e acomode-se. Sem culpa.
Vamos esclarecer uma coisa: preguiça é a arte de não fazer rigorosamente nada. Isso quer dizer nada de oficialmente produtivo, bem entendido. A hora da preguiça pode ser um momento de contemplação, como ensina o mestre Caymmi. Pode ser coçar as costas por horas a fio. Pode ser tirar uma soneca. Pode ser ainda ficar deitado numa rede olhando para o céu e imaginando mil formas para as nuvens lá em cima ou as rachaduras do teto, se preferir. Afinal, cada um faz nada do jeito que achar melhor. O que importa é apreciar esse momento de devaneio, de recolhimento e quietude como algo que pode e deve ser incorporado a sua vida.
É bom lembrar que não estamos falando aqui de fazer as coisas mais devagar, nem parar o que se está fazendo com o objetivo de ficar mais criativo e depois conseguir produzir mais e mais. Segundo o dicionário Aurélio, preguiça é justamente aversão ao trabalho, é indolência.É morosidade, lentidão, pachorra, moleza. Por definição, assim a seco, a preguiça já carrega um estigma ruim, coitada. É só você mesmo tentar fazer um exercício: você gosta de dizer aos quatro ventos que sente uma baita preguiça todo dia? Diria ao seu chefe que é um sujeito preguiçoso? Admitiria, numa boa, que não entregou um relatório porque estava curtindo aquela indolência?
Pois não se culpe. A má fama da preguiça é algo que vem passando de geração para geração e foi construída ao longo dos tempos, atingindo em cheio o Ocidente mais especificamente a partir da Era Cristã sim, porque, na Grécia antiga, aqueles que ficavam largadões, dando asas ao livre pensamento, eram considerados seres especiais, que ficavam mais próximos dos deuses.
Já a Bíblia traz inúmeras citações que dão conta da preguiça como algo perverso, a ser evitado.“O que trabalha com mão remissa empobrece; mas a mão do diligente enriquece. O que ajunta no verão é filho prudente; mas o que dorme na sega é filho que envergonha”, diz um dos Provérbios.Deus pode até ter descansado no sétimo dia, mas somente depois de um árduo esforço nos seis dias anteriores.Sem contar que condenou Adão, Eva e sua prole a “ganharem o pão com o suor de seus rostos”. Um castigo e tanto, convenhamos. “Nesse caso, podemos pensar que o trabalho também nasceu de uma maldição. A própria palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura”, lembra Olgária Mattos, professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP).
A preguiça é ainda um pecado capital, vizinho da luxúria. A lista dos pecados capitais foi esboçada pelos primeiros pensadores cristãos, aperfeiçoada no século 5 por João Cassiano e fixada definitivamente pelo papa Gregório Magno, no fim do século 6. Nossa amiga preguiça foi a última a fazer parte da lista, acredite. Ela entrou no lugar da melancolia, quando, no século 17, a Igreja resolveu trocar uma pela outra, achando a melancolia um pecado um tanto vago demais.
Mesmo para as religiões orientais, que costumam ser mais condescendentes com as fraquezas humanas, a preguiça está em maus lençóis. “A preguiça é uma mente confusa que se nega a fazer atividades virtuosas, uma vez que está motivada somente pelos prazeres desta vida”, explica a monja Kelsang Palsang, do Centro Budista Mahabodi, de São Paulo. Para o budismo, a preguiça nada tem a ver com a falta de produção de bens materiais. Ela está intimamente ligada a quem não pratica atividades espirituais portanto (e para a delícia daqueles que amam paradoxos), quem passa o dia inteiro falando ao celular, respondendo e-mails, fazendo reuniões e trabalhando feito doido, pode ser considerado um preguiçoso de carteirinha para os budistas. Já quem usa seu tempo meditando e aquietando a mente e isso pode ser feito até enquanto dormimos não é um indolente,muito pelo contrário. Quem dedica horas do seu tempo descansando para recuperar as energias e depois continuar praticando ações que beneficiem os outros também não é nada preguiçoso.“Um certo monge tibetano morava em uma gruta com um grande arbusto na entrada. Ele passava o dia todo meditando e fazendo preces, por isso nunca tinha tempo de cortar o arbusto. Até o dia que a planta cresceu tanto que ele mal conseguia sair de casa. Se ele desperdiçasse seu tempo cortando o arbusto, aí, sim, seria preguiçoso”, diz a monja. O raciocínio budista é simples: de que vale jogar fora todo o precioso tempo que temos na vida trabalhando somente para acumular milhões de riquezas se não vamos levar nada na hora da morte? “Muitas pessoas achavam que os monges eram preguiçosos, pois não trabalhavam e passavam o dia na mendicância. Eles podiam não gerar riquezas materiais, mas geravam a paz.”
No século 15, o puritanismo, religião que crescia na Inglaterra,propagava que quanto mais riquezas um cidadão acumulasse, maiores seriam suas chances de obter a salvação divina.Ou seja, a ordem era acordar cedo e trabalhar muito para edificar o caminho rumo ao reino dos céus. O primeiro sociólogo a fazer a ligação direta entre a cultura capitalista moderna e a religiosidade puritana foi o alemão Max Weber (1864-1920).Para ele, os fundamentos da moral puritana foram a base para a gênese da cultura capitalista. Com a Revolução Industrial e a consolidação final do capitalismo, realmente a situação de quem quisesse se entregar à leseira de vez em quando passou a ficar cada vez mais complicada: a ordem se tornou trabalhar, trabalhar e trabalhar. “Uma estranha loucura está a apossar-se das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura consiste no amor ao trabalho, na paixão moribunda pelo trabalho, levada ao depauperamento das forças vitais do indivíduo e de sua prole”, escreveu o filósofo francês Paul Lafargue, genro de Karl Marx, que, em plena aurora do frenesi capitalista no século 19, denunciava a ideologia penitencial do trabalho como responsável pela infelicidade tanto da classe operária quanto, por extensão, da própria burguesia européia. “Numa sociedade como a nossa, que vive debaixo da égide do capital, as pessoas são meros instrumentos de acumulação. É como se não houvesse lugar para quem resolver ficar fora do mercado de trabalho, ainda que seja por breves momentos”, diz Olgária Mattos. “Mesmo no lazer, estamos contaminados por essa cultura do trabalho. Ficar em casa, ler, dormir ou se recolher para o descanso geralmente são consideradas opções para as pessoas solitárias, pouco criativas e desinteressantes. Lamentavelmente, há uma cobrança geral por ter o que fazer”, completa.
Prova disso são as pessoas que tiram férias e se queixam que voltaram ainda mais cansadas do que quando saíram. Entupir-se de programas, passeios, visitas a museus, cinema, teatro, parques de diversões e uma infinidade de atrações é como se fosse uma obrigação é a reprodução da lógica do mercado de trabalho nas horas vagas. Todas essas opções de entretenimento podem ser muito atraentes, mas elas não precisam preencher o tempo todo. “Saborear o momento presente via reflexão, contemplação e devaneio é uma das mais genuínas formas de encontrar quietude interna, um grande prazer da vida. E vamos admitir que é bem mais difícil encontrar essa mesma quietude num shopping center ou um parque temático, por exemplo”, diz Martin Seligman, psicólogo americano da Universidade da Pensilvânia que estuda e pesquisa nada menos do que a tão sonhada busca pela felicidade.
Quem curte e cultiva a arte de não fazer nada tem bons motivos para comemorar. Os pesquisadores alemães Peter Axt e Michaela Axt- Gadermann passaram anos estudando o assunto e chegaram às seguintes conclusões, publicadas no livro The Joy of Laziness (“A alegria da preguiça”, ainda sem edição brasileira): levantar cedo causa estresse e prejudica a saúde; uma soneca no meio do dia ajuda a prolongar a vida; e, se o objetivo for viver mais, então você deve evitar o excesso de exercícios físicos. “Assim como os animais, nós também precisamos poupar energia para assegurar uma vida longa e saudável. Devíamos fazer como os bichos: criar o hábito de bocejar mais e espreguiçar bastante para ajudar na circulação do organismo”, diz Peter Axt, porta-voz da lentidão no meio científico.Outros cientistas, estes da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos, acompanharam mais de 12 mil pessoas durante nove anos e chegaram à conclusão de que aquelas que se entregavam ao repouso nas férias tinham menos chance de sofrer de problemas cardíacos.
Além de ajudar a viver mais,a moleza pode inspirar a genialidade.Pelo menos é o que garante o procrastinador convicto Tom Hodgkinson, jornalista britânico, autor do livro que carrega o sugestivo título Como Não Fazer Nada. “René Descartes não saía cedo da cama nem por um decreto.Deixaram ele ficar ali, pensando. Se ele tivesse levantado muito cedo, acabaria ocupado demais com tarefas rotineiras, e não teria tempo de perceber e propagar ao mundo a teoria de que existimos porque pensamos”, teoriza. Isso para não falar do patrono desta reportagem, Dorival Caymmi, que, dizem, sequer saiu da rede para compor algumas das mais lindas canções de que se tem notícia.
O diretor teatral José Celso Martinez Corrêa é outro que faz questão de usar seu tempo da forma como bem entende. Depois do estrondoso sucesso da peça O Rei da Vela, encenada em 1967,ele resolveu se recolher.Foi perseguido pelo regime militar, é verdade. Mas demorou a se levantar do sofá e voltar à ativa tanto é que foi chamado por um colunista maldoso de “decano do ócio”, apelido que ele mesmo se diverte até hoje em ouvir.Somente na década de 90, Zé Celso voltou com suas montagens sensacionais, diga-se e que em média duram nada menos do que cinco horas. Produziu como nunca, voltou a todo vapor, mesmo tendo curtido uma preguicinha de umas duas décadas. “Não acho que tenha sido uma volta. Foi apenas uma retomada”, disse,certa vez,ao ser perguntado sobre o tempo que tinha ficado em profunda contemplação.
Aderir à indolência é uma arte. E, como tal, deve ser feita sem preocupações. Caso contrário, ela não trará nenhum efeito benéfico nem para a mente nem para o corpo.Mas o que fazer então? Entregar-se de corpo e alma à frouxidão total dos músculos? Deixar de trabalhar? Não é bem assim. Até porque é bom lembrar que moleza em excesso pode ser sinal de depressão, uma doença séria que requer cuidados médicos.
Mas um bom passo para começar a admitir uma dose de preguiça gostosa na vida seria tentar diminuir o número de tarefas a cumprir diariamente mais qualidade com menos quantidade. Você já deve ter ouvido isso em algum lugar, inclusive. Demócrito, pensador grego do século 5 antes de Cristo, já dizia que ninguém pode ser feliz tendo muitas coisas a fazer. “Ocupe-se pouco para ser feliz”, escreveu.
Falar é fácil, você deve estar pensando. Mas de que forma é possível arrumar uma brecha no meio do dia para não fazer rigorosamente nada? Antes de dizer que não tem tempo para uma deliciosa vadiagem, repare de que forma você gasta suas horas. Quantas vezes checa seu e-mail por dia? Quantos telefonemas inúteis costuma fazer? E as horas em frente ao computador elaborando planilhas sem nenhuma utilidade? Ou xeretando sites na internet? A verdade é que desperdiçamos muito tempo com muitas atividades sem o menor sentido. Assim, sobra pouco mesmo para o dolce far niente. Segundo o pensador romano Sêneca, esse desperdício é chamado justamente de “preguiça agitada”.“As ocupações absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria com justiça de preguiça agitada?”, escreveu.
Imaginar nossa vida com espaço para a preguiça pode ser meio complicado. Toda vez que estamos de bobeira, olhando para o alto, a primeira sensação que bate é “será mesmo que não tenho nada para fazer?” E vem a danada da culpa.
Mas, antes de assumir a culpa de que há milhões de afazeres no mundo à sua espera e levantar-se correndo da rede, vale uma breve reflexão. São só alguns minutinhos, não se preocupe. Mas eles podem valer muito, acredite.
Trata-se de definir quais são suas prioridades na vida. É difícil, sim, todo mundo sabe.Mas,diante de tantas possibilidades, é preciso saber o que é fundamental para você e não o que os outros acham que é fundamental. Procure esquecer um pouquinho os milhões de compromissos e reflita sobre seus reais valores. O que seria mais importante nesse momento: cochilar um pouco depois do almoço ou correr para terminar um relatório que pode ser entregue só amanhã? Atender ao celular ou apreciar o pôr-do-sol que vai acabar em instantes? É preciso mesmo conferir os e-mails a cada três minutos? Que sentido essas tarefas todas fazem na vida? Essas perguntas questionam a própria existência e devem ser pensadas com absoluta calma. Responder a essas e outras questões significa que você está tomando as rédeas da sua vida.E essa é a essência para abrir espaço ao relaxamento, ao devaneio, à doce contemplação. À preguiça, enfim. Não há nenhuma fórmula pronta para chegar lá o jeito é exercitar. Disse certa vez Santo Agostinho, um dos fundadores da filosofia medieval: “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei. Mas, se eu quiser explicar a alguém, eu não sei”.Taí uma coisa para você pensar mas, antes, tire uns minutinhos para se entregar à indolência.
Às vezes é depressão. Conheça os principais sintomas:
• ISOLAMENTO - fique atento aos exageros da introspecção.
• MELANCOLIA - uma pontinha indefinida de tristeza durante 15 dias ou mais.
• DESINTERESSE - a falta de entusiasmo para coisas boas da vida, como se divertir e namorar, deve acender uma luzinha.
• ESTRANHAMENTO - sensações que dificultam a execução de atividades normais.
• FADIGA - pouca energia para enfrentar o dia-a-dia e indisposição até para imaginar algum tipo de ação.
• POUCA CONCENTRAÇÃO - dificuldade de raciocínio, de estabelecer uma meta, de manter o foco.
• ANSIEDADE - irritabilidade excessiva, falta de confiança no amanhã e insegurança na hora decidir.
• SONO OU INSÔNIA - os extremos: querer se entregar ao sono o tempo todo ou varar a noite ligadão.
• MORBIDEZ - pensamentos freqüentes na morte e idéias recorrentes de suicídio.
• APETITE MALUCO - fome de leão ou então a inapetência total até para aquela comidinha predileta.
Fonte: Ricardo Moreno, coordenador do grupo de doenças afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo
LIVROS:
• Sobre a Tranqüilidade da Alma e sobre o Ócio, Sêneca, Nova Alexandria
• O Direito à Preguiça, Paul Lafargue, Teorema
• A Hora da Preguiça, Gillian Borges, Mercuryo
• O Ócio Criativo, Domenico de Masi, Sextante
• O Elogio ao Ócio, Bertrand Russell, Sextante
• The Joy of Laziness How to Slow Down and Live Longer, Peter Axt e Michaela Axt- Gadermann, Bloomsbury.
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