PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Para todos

O antropólogo Hermano Vianna veste a camisa da democratização da cultura brasileira

por Marcia Bindo

Você já ouviu falar de carimbó? E boi-bumbá, cururu, catumbi, funk? Manifestações culturais como essas acontecem a todo momento em algum rincão do país.Nos meios de comunicação, pouco do que é produzido é divulgado ou distribuído para o público ­ talvez por falta de espaço, ou por não ser considerado tão relevante. Esses não são empecilhos para o antropólogo Hermano Vianna. Ele é co-criador do site cultural Overmundo (www.overmundo. com.br), onde pessoas de todo o Brasil podem enviar textos, imagens e sons que retratem o que há de música, cinema e literatura em sua cidade.“Um canal de expressão para a cultura brasileira tornar-se visível em sua multiplicidade”, diz o paraibano Hermano, que mora no Rio de Janeiro, mas, veja só, torce para o Sampaio Correia, do Maranhão.O gosto pela diversidade ele tem desde pequeno, por conta das constantes mudanças de cidade com a família.“ A vida nômade me deu a oportunidade de ver o Brasil de vários ângulos, de me encantar com realidades distintas.” Recebeu influências musicais de seu irmão, Herbert Vianna, da banda Os Paralamas do Sucesso. Não deu outra: virou pesquisador musical.Desvendou uma de nossas expressões mais populares em seu livro O Mistério do Samba e vasculhou os subúrbios da Grande Rio para escrever O Mundo Funk Carioca.Mas foi no horário nobre da televisão, com o programa Brasil Legal (alguns anos atrás), que ele revelou pessoas anônimas de todo o país em suas situações cotidianas e em festas populares. A partir deste mês ele estréia com a apresentadora Regina Casé o programa Central da Periferia (aos sábados, às 16h30, na Globo), que mostra a vida dos moradores e artistas de favela,invisíveis para muitos. “Quero trabalhar para que as pessoas olhem com mais atenção para as outras.”

Vale a pena fazer esse intercâmbio da produção cultural?
As boas idéias sempre surgem quando as diferenças estabelecem contato e trocam informações umas com as outras. O diferente refresca nosso olhar, nos faz enxergar aquilo que não percebíamos antes, pois já estávamos hipnotizados por uma única visão de mundo. É assim desde o início da história da humanidade. Tudo o que temos hoje é resultado da troca entre idéias que tiveram origem nas experiências diferentes de vários povos, e que depois se misturaram.

Por que você considera a diversidade tão importante?
A diversidade coloca o mundo em movimento, ataca a monotonia produzindo o novo.Mas de nada adianta ter o diverso sendo criado em guetos separados. É preciso que as diferenças se misturem.A identidade não é algo fixo, imutável, não precisa ter medo do diferente. É preciso sempre aprender com os erros e acertos dos outros povos, para não sermos condenados a repetir os mesmos erros, ou para desenvolver os acertos. O diferente não deve ser visto como uma ameaça, mas sim como um atalho para aprendermos mais rápido aquilo que não sabemos e que precisamos saber. Um mundo com mais diferenças em contato é um mundo mais rico: riqueza em todos os sentidos e em diferentes estilos.

Ainda há uma falta de distribuição e conhecimento da arte que é produzida no Brasil. Por quê?
A informação cultural no Brasil é muito centralizada no eixo Rio­São Paulo. A internet facilita e muito a descentralização. Por isso, resolvi desenvolver o site Overmundo, que é antes de tudo uma ferramenta para que as pessoas possam divulgar, discutir, disponibilizar a cultura brasileira em todas as suas expressões. Ele é construído coletivamente.

Como ele funciona?
Todo mundo pode se cadastrar para enviar textos, imagens, sons. O conteúdo que chegar ao Overmundo passará um tempo numa sala de edição,onde poderá ser comentado por todos.O autor decidirá se incorpora ou não os comentários e envia seu conteúdo para a fila de votação.Aquilo que for mais votado entra para a página principal do site. O mecanismo é simples e transparente.

Qual é a intenção de disponibilizar essas infomações na internet?
Há hoje uma diversidade enorme de produção cultural no Brasil. A grande mídia não consegue divulgar tudo de interessante que anda acontecendo.Por exemplo: há uns dias estava no evento Porto Musical, no Recife. Nas quatro horas que passei por lá recebi 35 CDs de artistas de todos os estilos. Só escutar esses CDs todos,uma vez cada um,já consomeum tempo enorme. Para escrever sobre eles teria que ter mais tempo ainda. Falar de tudo tem que ser então uma tarefa coletiva, feita por muita gente, gente que conheça bem as realidades culturais que produziram essas músicas. O Overmundo vai disponibilizar espaço para que tudo isso seja comentado. E também teremos espaço para músicas, vídeos, livros. A disponibilização de grandes quantidades de dados na internet ainda é um serviço caro. O Overmundo oferece espaço de graça.

Você criou o programa Brasil Legal, que mostrou na TV realidades diferentes do país. Como surgiu a idéia?
A atriz Regina Casé tinha lido meu livro sobre o baile funk. Ficamos amigos e um dia eu resolvi levá-la para conhecer um baile. Em retribuição, ela me levou a um casamento cigano. E passamos a adorar sair para fazer o que as pessoas chamam de “programa de índio”. Podia ser um baile de debutante ou um jantar num restaurante francês. Aí a Regina teve a idéia: por que a gente não transforma isso que a gente já faz por diversão em trabalho? A intenção era produzir um “antitalk-show” ­ porque o foco não eram as personalidades, mas pessoas comuns, com realidades diversas. Queríamos chamar a atenção para o cotidiano, para o que é banal, a simplicidade.

Qual é o valor da cultura regional brasileira?
O Brasil tem uma das culturas mais diversificadas do planeta. No fim dos anos 90 participei do projeto Música do Brasil. Nossa equipe viajou por 82 municípios brasileiros, documentando mais de uma centena de festas populares diferentes, a maioria sem nenhum registro anterior.Mostrei parte do material para o John Pareles, um dos maiores conhecedores de música popular no mundo, editor de música do The New York Times. Ele ficou impressionado e me perguntou: que outro país tem tantos ritmos? Produzir tudo isso é uma riqueza incalculável, que pode ser fonte para inúmeras novas boas idéias. Adoraria que o Brasil se especializasse justamente nisso: ser uma usina criativa, lançando sempre boas idéias para o mundo. Material temos de sobra. Só precisamos nos conhecer melhor.

Para saber mais

LIVROS:
Música do Brasil, Hermano Vianna, Editora Abril
O Mistério do Samba, Hermano Vianna, Jorge Zahar
O Mundo Funk Carioca, Hermano Vianna, Jorge Zahar

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2008 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved